Viena, Austria – Parte 3/6


Para quem curte como eu o dia a dia de uma família real, nada melhor que visitar o coração do Palácio de Hofburg, o Kaiserappartements, conjunto de aposentos da antiga família real austríaca, e também um museu dedicado a Elisabeth of Bavaria famosa imperatriz da Austria e rainha da Hungria. Além de esposa de Franz Joseph, Elisabeth também era sua prima mais nova. Não fique horrorizado. Como você acha que os Habsburgs se mantiveram no poder por séculos? Sisi, como era chamada carinhosamente por todos desde criança, tornou-se um ícone dentro do Império Austro-Húngaro por súditos que a idolatravam e, mas tarde, por toda a Europa. Porque Sisi tornou-se uma "pop star"? Por sua beleza clássica impressionante, seu bom gosto consistente e invejado ao vestir-se, sua habilidade como amazona, sua fluência em múltiplos idiomas (incluindo grego), pelas poesias que escreveu, por sua não conformidade à esnobe etiqueta da corte Habsburg, sua queda pela causa dos rebeldes húngaros, sua coleção de amantes, sua vitória contra a tuberculose no auge de sua juventude, além de sua trágica morte aos 60 anos, vítima da faca de um assassino anarquista que odiava a realeza. Parece um roteiro ponto para a telona, não? E foi exatamante isso que aconteceu: vários filmes, musicais e peças de teatro produzidos ao longo dos anos. Três filmes produzidos nos anos 50, com a atriz adolescente Romy Schneider, tornaram-se sucessos globais, vistos e revistos até hoje. Eu cheguei a ver um deles na Sessão da Tarde. Deus, como sou velho… Os filmes eram tão cheios de sacarina – estilo conto de fadas, que até hoje o adjetivo sissi nos Estados Unidos qualifica um cara afeminado, covarde ou imaturo.  


O setor de Hofburg que abriga um dos mais prestigiados museus de arte do mundo chama-se Albertina. Conta com uma coleção de um milhão de gravuras, 65,000 aquarelas e 70,000 fotografias, todas obras de valor histórico e cultural inestimáveis. Rascunhos de vários artistas famosos encontram-se armazenados aqui: Dürer, Michelangelo, Rubens, Chagall, Degas, Cezanne, Da Vinci, Picasso, Rembrandt, Renoir, Miró, entre outros. Em 1945, assim como outros prédios históricos de Viena, o Albertina sofreu tanto com os bombardeios aliados, que a reforma durou de 1998 a 2003. Outra coisa legal em visitar o lugar é a exploração dos State Rooms dos Habsburgs, abertos para visitação pública muito recentemente, depois de quase 200 anos fechados. Permita-se pelo menos umas duas horas para visitar o museu.


Em minha opinião a mais impressionante seção do Palácio de Hofburg é o Prunksaal der Osterreichischen Nationalbibliothek, o salão principal (State Hall) da biblioteca imperial austríaca, hoje um museu. Construída em 1723, para mim representa um daqueles lugares que jamais esquecerei: o Prunksaal, que significa "splendor hall" ou salão do esplendor. Mais de 200 mil livros impressos entre 1723 e 1726 são guardados aqui. Estantes de livros em madeira trabalhada erguem-se gigantescas e imponentes entre toda a sorte de um maravilhoso e intenso conjunto de obras de artes decorativas: estátuas e colunas em mármore, escadas em espiral, mapas, pinturas barrocas e globos. Não ficaria triste se o Paraíso possuísse um cantinho desses. Os afrescos no teto – representando metáforas de guerra e paz – têm cores tão vivas, que parecem ter sido pintados ontem. Você fica praticamente sem respirar desde o momento em que pisa no chão de mármore, percorre os 154 metros (ida e volta), até o momento de partir. Alías, será um desafio sair dessa atração, tamanho a capacidade dessa bibloteca de hipnotizar o visitante incauto. Tudo isso por apenas 7 Euros…


 
O complexo Hofburg é tão grande, que existe espaço para estábulos e uma escola de equitação espanhola (!?) de classe mundial, a Spanische Hofreitschule, fundada em 1572 pelo imperador Karl VI, ele mesmo um excepcional cavaleiro. Os Habsburgs utilizavam o lugar não só para procriar cavalos de raça de modo controlado, como para elevar o ato de andar a cavalo a uma forma de arte, através de adestramento. Aqui também é a morada dos legendários animais da raça Lipizzaner, uma mescla de genes árabes, espanhóis e norte-africanos: o melhor do melhor. Vigorosos e, ainda assim, cheios de graça, começam a ser treinados aos três anos de idade. Sua especialidade são saltos e manobras acrobáticas. Durante os séculos de existência da escola, somente homens treinaram os cavalos. Isso mudou somente muito recentemente, em 2008, quando duas garotas – um inglesa e uma austríaca – foram admitidas na escola depois de 436 anos de história sem instrutores do sexo femino. A Spanische Hofreitschule funciona até hoje e, se você tiver bala na agulha, pode pagar entre 25 e 115 Euros para assistir um show de 80 minutos nas galerias que circundam uma imensa arena. O espetáculo envolve cavaleiros e seus cavalos ultra bem treinados (infelizmente não são permitidas fotos ou filmagens durante o show). Mas faça a reserva e compre os tíquetes pelo website com meses de antecedência, já que os lugares são limitados e o show, por ser muito bom, é muito concorrido. Tem turista que vem para Viena só por causa desse show…
 

 
Além de abrigar o setor mais recente a fazer parte do complexo Hofburg, Neue Burg (adicionado a partir de 1881 até 1913) hospeda várias coleções de arte. A mais importante é a do herdeiro direto do trono do império austro-húngaro no fim do século XIX, Arquiduque Franz Ferdinand. Lembra dele? O sujeito não teve uma vida particularmente destacada (exceto por ser um exímio caçador nascido do berço de ouro) para justificar sua inclusão nos livros de História. Porém sua morte o fez. Na época dele, a população da Bosnia & Herzegovina nos Balcãs tinha ódio mortal da ocupação austríaca, especialmente os sérvios que viviam lá e que sonhavam com a independência e anexação à Sérvia. Uma organização terrorista, conhecida como “Mão Negra” foi criada em 1911 pregando a separação, ainda que por violência. No verão de 1914, o arquiduque queria viajar para a Bosnia com a finalidade de trazer a paz para a região e mostrar que faria concessões depois que assumisse o trono. Mas a situação estava tão preta, que o embaixador sérvio em Viena, Ljuba Jovanovic, em 5 de Junho, tentou dar uma “deixa” para o ministro de financas austríaco, Dr. Leon von Bilinski, sobre uma possível tentativa de assassinato: “…algum jovem sérvio pode por uma bala em na arma e atirar…”. Polinsk replicou rindo: “Vamos esperar que nada aconteça…”. E nada foi feito. Ninguém foi avisado. Franz Ferdinand viajou com sua esposa, Sofie, para Saravejo, capital da Bosnia. Durante o passeio de carro pelas ruas da cidade, membros do “Mão Negra” tentaram matar o casal real jogando uma bomba dentro do carro. Ferdinand rebateu-a com as mãos evitando o pior. O arquiduque ainda teve tempo de se recuperar do susto e atender uma recepção em sua homenagem. Mas a tentativa de assassinato causou uma confusão danada e alguém esqueceu de comunicar ao motorista que ele deveria continuar a viagem por uma rota alternativa. Na continuação o carro de sua alteza teve que parar em um ponto do percurso, em frente a uma lanchonete onde um dos conspiradores, um jovem sérvio desiludido com o péssimo desfecho do atentado de poucas horas atrás, comprava um sanduíche. Ele provavelmente mal acreditou na sua “sorte” e calmamente caminhou para o automóvel e matou o casal à queima-roupa, a causa imediata da Primeira Guerra Mundial.
 

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Normalmente o exército austríaco não teria problemas em cuidar dos Sérvios e dar-lhes uma boa lição pelo ocorrido. Contudo, por causa do sistema integrado de alianças existente na Europa da época, uma nação atacando outra desencadearia um efeito cascata, como de fato ocorreu: o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia; a Rússia ao Império Austro-Húngaro; os alemães ficaram automaticamente do lado dos austríacos; os alemães invadiram a neutra Bélgica para alcançar a França; os ingleses decidiram interferir e posar como defensores dos belgas; e… pronto! Merda no ventilador. Por causa de um diplomata austríaco idiota que não soube ler nas entrelinhas, a Europa experimentou quatro anos de uma das maiores tragédias da história da humanidade: onze milhões de pessoas mortas; quatro grandes impérios destruídos; e o fim da  civilização ocidental da época. O mais bizarro é que tão logo a Grande Guerra começou, pessoas em Londres, Paris, Viena, Berlim, multidões celebravam nas ruas (!?), cantando seus respectivos hinos. Todos pensavam que seu país era superior a todos os outros (nacionalismo estúpido), que a guerra duraria apenas algumas semanas graças aos avanços tecnológicos da época e que seria “cool” ver em ação todas as novas armas da 2ª Revolução Industrial espalhando o terror. Não esqueça que, graças ao Congresso de Viena, a remota memória coletiva da última grande guerra – contra Napoleão 100 anos antes – evocava somente cavalos, espadas, heroísmo, glória e aventura. Toda uma geração não tinha a mínima idéia do tamanho do problema no qual se metiam. Ironicamente, o obsceno desperdício de vidas humanas em uma guerra que destruiu a civilização européia, começou como um… Big Game.


 
A última parte do complexo de Hofburg que merece uma menção especial é uma praça. Palco de um momento chave da história européia recente. Em Heldenplatz Hitler anunciou a famigerada Anschluss – a anexação da Áustria à Alemanha para dezena de milhares de vienenses exultantes em 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Você deve se perguntar: como os austríacos, potência européia por tantos séculos, loucamente orgulhosos, concordaram com esse absurdo de ceder sua soberania para outrem? Basicamente por dois motivos. Primeiro, pela esperança de resolver os problemas econômicos. Depois da Primeira Grande Guerra a inflação estava nas alturas e o índice de desemprego também (30% em 1939), impensável depois de séculos de prosperidade e poder. Muito duro no bolso e na auto-estima (já abalada com a recente derrota) do povo. A Áustria parecia sofrer de hidrocefalia: Um cabeção (Viena, com 60 milhões de habitantes) para um corpinho (o resto do país). Além disso, nessa época, Hitler – um austríaco (não sabia disso?) – ainda não era o monstro que viria a se tornar, mas um fantástico gênio salvador-da-pátria que tirou a Alemanha da mesmíssima lama na qual os austríacos se encontravam atolados.  Segundo motivo: por causa da herança cultural compartilhada. Por séculos o Holy Roman Empire tinha como máximas estrelas a atual Áustria e a Alemanha (antiga Prússia) e, mesmo depois da dissolução, os dois países volta e meia eram aliados, inclusive companheiros unha e carne na humilhante derrota que se seguiu à Primeira Guerra. Mesmos inimigos, mesmos ódios, mesmo desejo de vingança (para alguns). A Anchluss permitiu aos austríacos fazer parte de um seleto clubinho que tinha a máquina de combate mais letal do planeta, a qual todo o resto do mundo temia. Hitler soube explorar muito bem esses dois pontos – economia e cultura compartilhada – e através de habilidosas maquinações políticas dentro do coração governamental Austríaco e grana por baixo dos panos para o partido Nazista local, conseguiu criar um ambiente favorável para "invadir pacificamente" a Áustria com sua poderosa Wehrmacht (exército alemão). Depois de declarar a Anchluss, realizou um referendo popular. Sem a mídia (devidamente controlada) e opositores austríacos (presos) que alertariam a população sobre esse grande equívoco, com tropas alemães circulando nos pontos de votação, com o impedimento dos judeus de votarem, o resultado oficial deu mais de 99% de aprovação. Historiadores concordam que o resultado não foi manipulado. Bispos da Igreja Católica discursavam para seus fiéis seu apoio e pediam obediência  à nova instituição. Com exceção do México (!?) todos os países acataram a anexação na boa. De imediato, judeus começaram a ser publicamente humilhados e por vezes atacados nas ruas de Viena. Dos 180 mil judeus austríacos, 55 % (visionários e afortunados) deixaram o país, incluindo todos os seus bens para trás. Apenas o começo do processo de imersão no poço de merda que foi a 2a Guerra Mundial. A mega ação de boas vindas na Heldenplatz, para muitos austríacos contemporâneos, marcou a grande degradação moral da nação.
 

 
Continua… 
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Viena, Austria – Parte 4/6


A Heldenplatz também conta com dois magníficos monumentos de personagens ilustres da Áustria.
A primeira estátua gigantesca localizada na praça homenageia o príncipe Eugen Von Savoyen, nascido francês mas herói austríaco da guerra contra os invasores turcos (1683–1699).  Rejeitado pelo todo poderoso rei Louis XIV da França (o "figura" autor da frase "O Estado sou Eu", também chamado Rei-Sol) para comandar divisões do exército francês, decidiu servir os Habsburgs. Dedicou-se impecavelmente seis décadas de sua vida a três imperadores e ao povo austríaco, com bravura rivalizada por poucos. Sua fama foi sedimentada na épica Batalha de Zenta em setembro de 1697. Comandando um exército inferior em quantidade e em qualidade técnica, utilizou-se de audácia e astúcia para surpreeender o inimigo enquanto este cruzava um rio. Decidindo atacar mesmo contra as ordens expressas de seus superiores em Viena, com o custo de 500 vidas de soldados austríacos matou mais de 30,000 (você leu bem) inimigos após cercá-los completamente. 10,000 deles morreram afogados no rio, tamanho o terror causado pelo massacre em andamento. Essa vitória garantiu a derrota otomana no coração da civilização ocidental e inaugurou uma nova era de domínio dos Habsburgs na Europa Central. Detalhe: Zenta foi a primeira grande batalha da vida dele (tinha 34 anos quando venceu)… Sem nunca temer expor-se ao perigo das linhas de frente,  liderava e inspirava seus homens em batalha a dar o melhor de si, mesmo contra um inimigo "superior". Graças a ele, durante a Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714), a Áustria e seus aliados – Inglaterra e Holanda – frustraram o plano maquiavélico e megalomaníaco de Louis XIV (o mesmo idiota que o dispensou anos atrás) de unir os reinos da França e Espanha em uma única super-poderosa potência capaz de dominar o mundo (da época). Quando descobriu que ele tinha cruzado os Alpes (como Hanibal, durante as Guerras Púnicas) para supreender o até então imbatível exército francês, o imperador Louis enviou uma mensagem ao seu comandante: "Cuidado: esse homem não se atém as regras da guerra convencional…"
Talvez fosse um filho da puta sortudo, mas o fato é que pouquíssimas vezes foi derrotado e, nesses casos, sempre por conta da incompetência de seus aliados. A ponto de ser considerado por muitos (incluindo Napoleão Bonaparte) como um dos melhores estrategistas militares da história da Europa, seu grande diferencial não tinha a ver com inovação, mas com disciplina, lealdade, honestidade e sua capacidade de fazer uma estrutura inadequada funcionar como um relógio. Certamente seria um grande CEO nos dias de hoje. O grande mistério sobre sua vida é saber como conseguiu tudo isso sendo gay naquela época ultra conservadora. 
 

 
A outra estátua da Heldenplatz homenageia o arquiduque Karl (Erzherzog Karl von Österreich), herói austríaco durante as Guerras Napoleônicas e o mais formidável inimigo de Bonaparte. Se você não desperdiçou a grana dos seus pais dormindo durante as aulas de história do cursinho, sabe que Napoleão veio "lá de baixo", tornou-se um dos heróis da Revolução Francesa – uma resposta à opressão das classes mais baixas da sociedade francesa pela mornarquia. Em seguida, "expandiu" os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade para os países fronteiriços com ajuda de seus exércitos para, finalmente, sacanear todo mundo e auto declarar-se Imperador. O comandante Karl já havia ajudado os Habsburgs a defender seus pescoços (afinal, toda monarca europeu estava com o cú na mão depois da degola de Louis XVI em 1789) durante as batalhas da contra-revolução, mas foi contra Napoleão que ele estabeleceu sua reputação de competência e excelência no campo de batalha. O Duque de Wellington ganhou seu lugar na posteridade ao derrotar o imprevisível e genial general corso, mas Karl foi o responsável por todo o trabalho duro que veio antes da vitória final do inglês. O austríaco enfrentou Napoleão diversas vezes em batalha, mais que qualquer outro comandante. Não apenas uma única vez como Wellington. Muitas delas, com poucos recursos contra um dos melhores militares que o mundo já viu. Não fosse por Karl e seus aliados, Napoleão teria feito um estrago muito maior. O sujeito foi um dos dois grandes espinhos no pé do francês. O outro foi o inglês Almirante Nelson. Mas essa história fica para outro dia…
 

 
O Palácio de Hofburg também foi palco em 1814-15 de um grande momento histórico mundial: o Congresso de Viena. Napoleão havia sido derrotado e as potências vencedoras – Inglaterra, Russia e Áustria – somada à derrotada França, buscavam arrumar a casa depois da bagunça feita pelo aventureiro e déspota esclarecido de Córsega. Dois imperadores, quatro reis, inúmeros príncipes e habilidosos embaixadores – os grandes nomes do continente enfim – se reuniram naquela que foi a mais importante e magnífica assembléia do século XVIII. Tinha tanto VIP envolvido que se um meteorito acertasse o palácio naqueles meses, a estabilidade da Europa iria para o vinagre. Muitos pensam que o Congresso não passou de uma sessão plenária prolongada de corte-e-recorte do mapa da Europa, reservada somente às grandes potências, onde territórios passavam de mão em mão para troca como cartas de Yu-Gi-Oh nas mãos de moleques de 12 anos. Ledo engano. O redesenho do mapa aconteceu de fato, mas depois de séculos de guerras religiosas, da famosa Revolução Francesa (1789) e dos anos de dominação napoleônica, o que todos queriam mesmo era a paz e a volta aos tempos do Antigo Regime, onde a monarquia reinava absoluta ao lado da Igreja. O famoso status quochain of being”. Por isso convidaram também a derrotada França, idéia genial do diplomata austríaco Metternich. Não lograram o segundo objetivo – as revoluções tinha vindo para ficar, mas conseguiram uma paz que durou quase um século, até o início da Primeira Guerra Mundial. O Congresso de Viena acabou tornando-se uma inspiração, primeiro para a Liga das Nações e, mas tarde, para a Nações Unidas. O ato final foi assinado em Junho de 1815, alguns dias depois da segunda e decisiva derrota de Napoleão em Waterloo (durante os procedimentos em Viena ele escapou do exílio na ilha de Elba e tentou retomar o poder).

 

 

 

Depois de tanta história, chegou a hora da bóia. Minha recomendação de restaurante na vizinhança do palácio real é o "buraco" frequentado quase que exclusivamente por locais, chamado Immervoll. Um dos preferidos dos dos vienenses, o Gasthaus Immervoll não parece muito luxuoso, mas cobra muito bem: minha conta saiu por salgados 20 Euros, mais a gorjeta da garçonete – uma loira bem jovem que parecia ter saído da Agência Elite. Já que estava em um restaurante típico austríaco, decidi provar o mais famoso de todos os pratos locais: o Wiener Schnitzel – vitela à milaneza – servido com um pedaço de limão e uma salada fria (!?) de batatas cozidas na manteiga. Muito barulho por nada… (veja as fotos). "Cadê os acompanhamentos?", pensei comigo. Gosto OK. Reza a lenda que o prato foi inventado na Itália e "roubado" pelos Habsburgs (sempre eles) para, mais tarde, ser absorvido pela cultura local. Um aviso: não discuta esse tema (do roubo) com um austríaco ou ele/ela pode se alterar…

 



 

Próximo ao complexo do palácio de Hofburg existem duas igrejas que valem uma visita. A primeira, em frente à entrada principal na praça Michaelerplatz, chama-se Michaelerkirche, uma das mais antigas de Viena. A obra Requiem de Mozart foi executada (a parte que estava pronta, já que ele nunca a concluiu) pela primeira vez nessa igreja, em Dezembro de 1791, durante o memorial service do gênio. Construída no século XIII e frequentada por toda a corte dos Habsburg durante séculos, possui arquitetura neoclássica, romanesca e gótica, além da fantástica escultura de Saint Michael derrotando Lúcifer, logo na entrada. O interior, cheio de afrescos do século XIV e contendo um órgão de madeira trabalhada de 1714, aparenta imerso em fumaça de incenso 24 horas por dia, tamanha a quantidade de missas diárias. Curiosamente, a igreja parece o submarino Seaview do seriado de TV setentista "Viagem ao Fundo do Mar": por fora bem pequena e por dentro realmente imensa. O maior destaque dessa igreja encontra-se no altar principal, uma obra decorativa barroca feita em alto relevo na pedra, das mãos do artista italiano Lorenzo Mattielli em 1782, representando a queda de anjos e querubins do Céu. Meu Deus, que coisa linda!
 

 
A outra igreja, na verdade um dos anexos do Palácio de Hofburg, chama-se Augustinerkirche. Trata-se de uma das mais bem preservadas igrejas góticas do século XIV da Áustria. A capela principal contém urnas de prata que preservam os corações de vários membros da dinastia Habsburg. Creepy. A grande atração daqui é a escultura neo-clássica do italiano Antonio Canova, uma procissão de pessoas tristes e um anjo que parecem reais, de tão perfeitos. As estátuas foram encomendadas pelo marido da princesa Maria Christina, com a finalidade de adornar a tumba dela. Conhecida como Mimi, Christina era a filha favorita da legendária imperatriz austríaca Maria Theresa (as duas faziam aniversário no mesmo dia) e irmã da futura degolada Maria Antonieta, rainha da França. Com sua inteligência e lábia de queridinha da mamãe, venceu séculos de tradição de casamentos arranjados dos Habsburgs e convenceu Maria Theresa a dexá-la escolher seu próprio pretendente. Casou com o homem que amava, sujeito fiel que ficou ao seu lado até a sua morte. Suas irmãs, incluindo Maria Antonieta, nunca a perdoaram por seu sucesso no amor, mesmo depois da morte da mãe.
 


 
Pausa para um café. Os locais recomendam o restaurante Martinjak para se deliciar com a segundo doce mais tradicional da Áustria e muitas vezes servido como prato principal no almoço: o Apfelstrudel. Comer esse petisco morninho com café, em um ambiente tranquilo, com vista para a Ringstrasse através de um janelão, deveria ser um experiência obrigatória para todo turista. Para os que não conhecem, apfelstrudel é um tipo de pão doce de massa muito fina enrolado em camadas e recheado com pedaços de maçã cozida com canela, açúcar, nozes moídas, um tiquinho de rum e passas. Um massa de strudel tem como base farinha de trigo, manteiga e sal, preparada de tal modo que sua espessura deve ser bem fina, a ponto da massa parecer translúcida. Sua popularidade cresceu a partir do século XVIII e a receita mais antiga, guardada na biblioteca nacional, datada de 1696. Esse prato nacional austríaco também possui uma versão recheada de ricota, chamado Topfenstrudel, igualmente apreciado e idolatrado no país. Qualquer padaria ou confeitaria da Áustria oferece as duas variedades de strudel. Caminhando pelas ruas de Viena, volta e meia você se pega surpreeendido pelo cheiro dessa peça divina sendo assada.
 

 
Continuando com a exploração do centro histórico de Viena, um teatro notável da cidade que merece uma visita: o Burgtheater. Construído em 1741 é considerado o segundo teatro mais antigo do mundo ainda em funcionamento, depois do francês Comédie Francaise. O prédio todavia não corresponde ao original, destruído por um bombardeio aliado em 1945, mas uma réplica rigorosamente identica ao primeiro. Todas as peças apresentadas aqui rolam somente em Alemão, com preços camaradas (antre 4 e 44 Euros) apesar do luxo inerente ao lugar. Esse teatro é considerado a "casa" da famosa atriz alemã, Susanne Lothar (mais conhecida por sua interpretação perturbadora da primeira versão do filme cássico Funny Games) e do ator austriaco e "monstro sagrado" Klaus Maria Brandauer, que atuou em êxitos de público tais como Out of AfricaThe Hunt for the Red October, além do clássico de 1981, Mephisto. Depois desse último, a experiência de vender a alma ao Diabo em troca de sucesso nunca mais seria a mesma na telona.
 

 
Outra igreja da região que vale uma visita – Maria Treu Kirche – conta com duas elegantes torres e um esplêndido afresco barroco multi-colorido pintado no teto em 1753 pelo grande artista austríaco Fran Anton Maulbertsch. Construída em 1698 pela ordem Piarista (Order of Poor Clerks Regular of the Mother of God of the Pious Schools), tem como obras notáveis um altar da crucificação datado de 1774, também pintado por Maulbertsch e, na pracinha em frente à igreja, uma majestosa estátua de Nossa Senhora à volta de anjos e santos. O pilar onde se encontra esta última foi erguida para celebrar o fim da epidemia de peste negra que assolou a cidade anos antes, em 1679, matando mais de 30,000 vienenses. Se quiser relaxar depois da visita, um café de mesmo nome, super disputado pelos locais para um papão de fim de tarde, fica bem em frente à saída.



 

Os dois principais museus da cidade parecem edificações gêmeas, posicionados um em frente ao outro, separados por uma praça. Um deles chama-se Kunsthistorisches, o maior museu de arte da cidade e que goza de grande prestígio internacional. De tão importante dedicarei uma entrada neste blog só para ele. O outro, Naturhistorisches, Museu de História Natural de Viena, foi inaugurado em 1889 para promover extensas coleções arqueológicas, antropológicas, zoológicas, geológicas e de mineralogia. Não tive tempo de visitá-lo. Uma pena. No centro da praça existe uma estátua da imperatriz Maria Theresa, grande nome da história Austríaca e a única soberana da dinastia Habsburg. Seu pai, o imperador Charles VI, não deixou herdeiros do sexo masculino, mas teve o cuidado de habilmente mudar uma lei tradicionalíssima que proibia o trono real para uma mulher. Como França e a Prússia desejavam tomar conta do imenso império Habsburgo, encontraram o pretexto perfeito para negar a ratificação de Maria Theresa como imperatriz. Isso levou toda a Europa à Guerra de Sucessão Austríaca, de 1740-48. Nas próprias palavras dela: "eu me encontrei sem dinheiro, sem um exército, sem experiência e conhecimento e, finalmente, sem qualquer conselheiro, já que todos esperavam para ver o que iria acontecer…" Porém, a despeito de todas as dificuldades, Maria conquistou poderosos aliados, como Inglaterra e Holanda (os dois já governados por mulheres) e mobilizou seu próprio povo para suportá-la. Mas como convenceu os húngaros – que faziam parte do império austríaco mas eram católicos demais para admitir uma mulher no poder – foi o seu momento mais espetacular. Ela viajou com seus filhos pequenos – sob imenso risco – até a Hungria e, diante dos nobres mais influentes desse país disse, mostrando suas crianças: "Preciso da sua ajuda para garantir o que é, por direito, deles". Uma lição e inspiração para todos que qualificavam mulheres naquele tempo como "fracas". Não ganhou a guerra, mas manteve a coroa. Sob sua tutela, o Império Austro-Húngaro experimentou um longo reinado (1740-80) de serenidade, riqueza e administração sensível e empática às necessidades do povo, mesmo durante tempos de guerra. Reformou as políticas de Educação (como obrigatoriedade escolar para meninos e meninas) e Saúde, trazendo grandes melhorias para seus súditos. No campo dos direitos civis, baniu a pena de morte do código penal austríaco. Declarou tortura e queima de bruxas procedimentos ilegais. Promoveu sobremaneira cultura e artes. Mozart realizou muitas performances para ela, que o adorava. Morreu em 1780, sem passar o desgosto de ver um de seus treze filhos (quatro morreram crianças), Maria Antoinette, ser guilhotinada durante a Revolução Francesa, em 1793.
 


 
Continua…
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Viena, Austria – Parte 5/6

 
Maria Theresa foi responsável também pela finalização das reformas de seu palácio favorito: o Schloss Schönbrunn. A mais ou menos 30 minutos (de metrô) do centro de Viena, o palácio é um dos mais famosos cartões postais da cidade e a atração vienense mais visitada. Além de gloriosos aposentos e salões, dentro do complexo existe uma atração extra: um museu de carruagens. Considerado pela UNESCO patrimônio histórico da humanidade e palácio de verão de vários monarcas da dinastia Habsburg, nasceu de uma mansão construída em 1569 pelo Imperador Maximiliano II. As grandes alterações que acabaram definindo o complexo em sua versão final foram feitas em 1696, pelo Imperador Leopoldo I, tentando ultrapassar em beleza o até então imbatível design to legendário Palácio de Versalhes, na França, e mais tarde por Maria Theresa, incorporando o estilo arquitetônico francês rococo. Poucos sabem, mas o único filho legítimo de Napoleão Bonaparte foi gerado de sua esposa austríaca, a princesa Maria Luisa. O Duque de Reichstadt ou "Rei de Roma" passou toda sua infância e juventude como prisioneiro virtual dentro do Palácio Schönbrunn, logo após seu pai sofrer exílio na ilha de Elba. Foi um menino infeliz e triste por causa do seu isolamento e morreu de tuberculose aos 21. Costumava dizer que seu único amigo era um passarinho de estimação. 
 


Outro aposento famoso do Schönbrunn chama-se Spiegelsaal ou "sala dos espelhos". Foi aqui que um menino de seis anos deu seu primeiro concerto sentado em um piano para a Imperatriz Maria Theresa, em 1762. O nome dele? Wolfgang Amadeus Mozart. Depois da perfomance, ele se atirou no colo de sua majestade e deu-lhe um beijo no rosto. Marketing pessoal é tudo… Perto desse salão existe outro de importância histórica, o Blauer Chinesischer Salon ou "salão de porcelana azul", onde o Habsburg Karl I assinou em 1918, logo após a derrota austríaca na 1a Guerra, um documento de que não mais interferiria ou participaria em assuntos do Estado. Uma maneira de abdicar com classe. Sua rabiscada marcou o colapso do império Austro-Húngaro – ao custo de 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos – e o fim da dinastia que se manteve no poder por mas tempo no mundo: mais de seis séculos!

 


Um desbunde total, os jardins do palácio tomam no mínimo três horas de um turista amante do verde. Sugiro uma visita bem cedinho pela manhã, para curtir ainda mais a natureza moldada pelo homem em todo seu esplendor. Não me admira que tenha visto tantos locais correndo e caminhando por lá, tamanha a sensação de conforto. Com mais de um quilômetro quadrado, o jardim baseia sua estrutura em formas geométricas perfeitas, impecavelmente cuidadas: gramado, flores, arbustos e árvores. Fontes e esculturas espalham-se estrategicamente por toda à parte. Tem até um labirinto gigante feito de arbustose construído em 1695, como aquele do filme clássico “The Shinning”. “Ruas” e “Avenidas” para pedestres, ladeadas de árvores igualzinhas umas às outras, permitem um passeio que, no mínimo, te conduz ao devaneio.
 

 
Outra atração do parque anexo ao palácio construída em 1882, o Palmenhaus é uma estufa especializada em manter palmeiras e outras plantas tropicais.  Os jardins também abrigam o zoológico mais aintigo do mundo (1752), o Tiergarten Schönbrunn. Não tive tempo de visitá-lo… Mas de todas as obras que compõem o complexo, a mais impressionate é a fonte toda em mármore representando o pedido de ajuda da belíssima ninfa do mar Thetis para Netuno (Neptunbrunnen), deus dos mares, para que seu filho Aquiles fosse protegido durante sua viagem marítima para Tróia. Aquiles quando criança foi mergulhado no Rio Estiges por ela, uma imortal, o que o tornou invulnerável. Chato que o pedido de Thetis não foi atendido: Aquiles morreu logo após a vitória dos gregos, vítima de uma flecha envenenada de Páris que acertou seu calcanhar, o único ponto vulnerável de seu corpo.
 

 
Bem no topo do complexo Schönbrunn, 60 metros morro acima, foi construído o maior Gloriette do mundo em 1775 para comemorar a vitória dos Austríacos contra a Prússia em 1757. A Prússia na época tinha um dos melhores exércitos do mundo e que, décadas depois, se tornaria a toda poderosa Alemanha, portanto a celebração é merecida. Tipo de monumento clássico em forma de pavilhão ou templo grego, o Gloriette fica em uma posição privilegiada que proporciona uma belíssima vista tanto do palácio e seus jardins, como da cidade de Viena. Maria Theresa e o imperador Franz Joseph I costumavam utilizar o Gloriette para tomar café-da-manhã e jantar ao pôr-do-sol. Vida dura… Atualmente um café para turistas funciona dentro do pavilhão. Os destaques desse ponto nobre vão para as estátuas de caráter militar feitas pelo famoso escultor austríaco von Hagenauer. Destruído durante a 2ª Guerra Mundial, o Gloriette foi reconstruído em 1947. Daqui sai uma trilha bem bacana que conduz a um passeio por dentro do bosque principal, onde se encontram ruinas romanas artificiais, construídas em 1778 como elemento de decoração. Por que ruínas romanas? Por séculos os Habsburgs tinha a idéia fixa de que eram os legítimos herdeiros do antigo Império Romano. Megalomania perde…
 

 
Veja aqui as fotos do Palácio Schönbrunn e seus Jardins: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622819405871/
 
Retornando ao centro de Viena, decidi almoçar em um outro restaurante muito simples, porém favorito entre os locais, considerado uma hidden gem por sua comida boa e barata: o restaurante Amerlingbeisl. Além de servir almoço e jantar, o local também serve de centro cultural e bar, possuindo uma decoração bem pitoresca. As mesas de madeira ficam em um pátio espaçoso e você come ao ar livre os pratos da cozinha austríaca. O serviço é meio lento, mas muito cordial, em meio a uma atmosfera de paz e tranquilidade, cheia de estudantes duros. Não quis variar dessa vez e acabei encarando outro tradicionalíssimo Wiener Schnitzel acompanhado de batatas, por apenas cinco Euros.
 
 
Depois do almoço decidi visitar outro popular cartão postal da cidade, o Schloss Belvedere, construído em 1714 como palácio de verão do já citado príncipe Eugene de Savoy, que além de competente militar era também muito rico, granda essa fruto do espólio de várias guerra que combateu. Sua fortuna rivalizava a dos Habsburgs da época, por isso não foi problema nenhum construir esse mega palácio. A ironia é que, como era gay, não deixou nenhum herdeiro e tudo acabou voltando para as mãos dos Habsburgs. O complexo compõe-se de dois palácios ligados por um imenso jardim barroco em estilo francês, cheio de estátuas de inspiração greco-romana. Os tetos feitos de cobre em formato de tendas turcas representavam uma homenagem do arquiteto – Johan Lukas von Hildebrandt (o mesmo que ajudou a reformar o Schloss Schönbrunn) – à vitória de Eugene contra os otomanos em 1683. Além do formoso jardim, dos aposentos do palácio e da belíssima coleção de pinturas do séculos XIX e XX, destaco as estátuas das esfinges, meio leão, meio mulher, que guardam a parte superior de Belvedere. Mas não é só por causa do fantástico museu de arte que esse palácio tem um lugar especial no coração dos austríacos. Em 1955, de uma das sacadas de Belvedere, o chanceler Leopold Figl apresentou a uma multidão explodindo de alegria, o tratado "Staatsvertrag" assinado com as forças aliadas que ocupavam o país desde o fim da 2a Guerra Mundial, anunciando a indepedência da Áustria.
 

 
No interior do complexo, Unteres Belvedere, os destaques vão para: o teto do Marmorsaal (salão de mármore), um afresco multicolorido pintado por Martino Altomonte, celebrando o príncipe Eugene como o novo Apolo, líder das musas; A escultura em mármore criada por Balthasar Permoser, localizada no mesmo salão – "Apoteose do Principe Eugene" (1734); o teto da capela do Palácio, outro afresco bonito e detalhado, criado pelo artista Francesco Solimena; a coleção de pinturas do mestre simbolista austríaco Gustav Klimt, incluindo suas duas obras primas, "Judith I" (1901) e "O Beijo" (1908); a Sala Terrena, onde quatro estátuas em mármore de Hércules esculpidas por Lorenzo Mattielli configuram as colunas que sustentam o teto; e, finalmente, uma das obras primas do pintor austríaco Ferdinand Georg Waldmüller, "Manhã de Corpus Christi" (1857)
 

 

Continua… 
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Viena, Austria – Parte 6/6

 
Belvedere possui uma extensa coleção de arte que data desde a Idade Média até os dias de hoje. Entre as minhas favoritas, estão: Susanna und die beiden Alten (1709) de Martino Altomonte (pseudônimo italiano de um austríaco), retratando o momento bíblico onde dois velhos voyeurs e tarados chantageiam uma hebréia casada que tomava banho no rio, estilo ou-dá-ou-contamos-para-o-seu-marido; Der heilige Sebastian und die Frauen (1746) de Paul Troger, mostrando algumas mulheres ajudando São Sebatião durante seu martírio; Schlummernde Frau (1849), a obra mais sexy de Johann Baptist Reiter; Beweinung Abels (1692), de Johann Michael Rottmayr, que pintou a dor de Adão e Eva pelo assassinato de Abel pelo próprio irmão; Der Triumph der Ariadne (1874) de Hans Makart, mostrando o momento que Ariadne – ex-amante traída e abandonada por Teseu em uma ilha deserta, conquista o coração de Baco e ganha uma coroa de ouro (depois de sua morte, essa coroa se transformaria em uma constelação); Die Niljagd (1876), outra belíssima obra de Markart; e o clássico absoluto, figurinha carimbada em todos os livros de história de 2o grau, Napoleon am Großen St. Bernhard (1801), de Jacques-Louis David, uma das cinco versões da pintura que apresenta Bonaparte em seu cavalo depois de cruzar os Alpes. O homem! o mito! a lenda…
 

 
Veja aqui as fotos do Palácio Belvedere e seus jardins: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622816933487/
 
Na região onde se localiza Belvedere, encontra-se a mais bela igreja da cidade (uma verdadeira façanha, em se tratando de Viena), Karlskirche, construída a partir de 1714 por ordem do imperador Karl VI. Apavorado com a matança provocada pela epidemia de peste negra em Viena, sua majestade imaginou que uma obra faraônica em homenagem a São Carlos "Karl" Borromeo ajudaria a parar a cavaleira do apocalipse. Afinal, em 1576, no auge da epidemia em Milão, o arcebispo Borromeo trabalhou incansável para tratar os doentes e enterrar os mortos, pessoalmente, sem qualquer medo de cair doente e sem poupar despesas (gastando do próprio bolso também), punindo todos os clérigos abaixo dele que fugiram de suas responsabilidades por causa da peste. Depois de 25 anos desde que a primeira pedra foi lançada, o imperador acabou construindo uma obra de arte de arquitetura barroca imponente e lindíssima que não pode ser ignorada da paisagem vienense. Seu interior comove até os mais brutos, graças a um desfile de adornos ricamente detalhados em madeira, estátuas, balcões em mármore, pinturas e afrescos coloridos no teto. Estes últimos me deixaram – sem sacanagem – por dez minutos completamente estático, enfeitiçado. Dá até para tomar um elevador e chegar bem perto dos frescos. É uma daquelas atrações turísticas das quais você entra e não quer sair mais. Vi várias pessoas às lágrimas ao apreciar tanta beleza. Absolutamente imperdível.



 
Eu me encontrava muito animado para o próximo e último passeio em Viena:  um cruzeiro pelo Rio Danúbio. Basicamente por dois motivos. A suposta beleza dele, cantada milhões de vezes na valsa mundialmente conhecida Danúbio Azul, associada à possibilidade de admirar atrações turísticas da cidade às margens do rio. O outro motivo, a perspectiva história, a emoção de navegar em um rio tão importante para a Europa por séculos. Dentro dos países que falavam alemão no século XIX, o reino Habsburg possuía a alcunha de Donaumonarchie ou monarquia do Danúbio, a força que unia várias nações do império. Mas desisti. Segundo os locais, o trecho do Danúbio que corta Viena não é particularmente fantástico para sightseeing e o rio não era tão azul assim… Além do mais, tinha cinquenta motivos (50 Euros, o preço do ticket do barco para turistas) para não ir. Acabei tirando umas fotos da ponte Lilienbrunngasse e adiei o cruzeiro pelo rio histórico para um trecho muitíssimo mas bacana: Krems-Melk. Mas isso é uma outra história. Stay tuned for more…
 
 
Uma última nota acerca de Viena. Além de Hitler, Mozart e Arnold Swarzenegger, um dos austríacos mas famosos de todo o mundo foi Sigmund Freud, o pai da psicanálise moderna. Foi nessa cidade que ele viveu a maior parte de sua vida e escreveu sobre suas idéias revolucionárias. No Ringstrasse existe até um museu (aua antiga residência) dedicado a ele. A maior contribuição desse neurologista para a humanidade foi o estabelecimento de uma nova abordagem para o comportamento humano, pelo qual a ação das pessoas (gente como eu e você) é dirigida em parte por forças subconscientes. Em outras palavras, muitas vezes não estamos conscientes das experiências que definem nosso comportamento. Freud também é reconhecido por iventar técnicas terapêuticas revolucionárias como interpretação dos sonhos (fontes de desejos inconscientes) e associação livre, além de redefinir o desejo sexual como a energia motivacional primária da vida humana. Embora algumas de suas teorias estivessem erradas, seu trabalho pioneiro se mantém como referência para a psiquiatria e psicologia. Filho mais velho de um mercador Judeu, Freud teve que fugir para Londres a fim de não ser morto pelos nazistas. Seus livros faziam parte assiduamente das famosas fogueiras promovidas por Hitler para queimar literatura proibida. Todas as suas irmãs morreram no Holocausto. Fumante inveterado de charutos, passou por dezenas de cirurgia para tratar de um cancêr na garganta no final de sua vida. Através de suicidio assistido (um de seus amigos o ajudou com injeções de morfina), faleceu longe de sua pátria, em 1939, aos 83 anos. Sua filha, Anna Freud, seguiu os caminhos do pai e trouxe grandes contribuições para o ramo da psicoanálise.
 
 
É isso.

 

Veja aqui as quase 400 fotos em alta resolução da cidade de Viena, na Áustria. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
 
 
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides.

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Austria para Principiantes – Abril de 2009

 
Quando minha mulher decidiu gastar três meses de férias no Brasil com minhas filhas, resolvi arriscar: “Posso passar uns dias na Áustria, amor?” Sempre quis conhecer o país. Por causa da imensa herança histórica, da beleza natural potencialmente impressionante e, devo confessar, por causa do filme The Sound of Music (“A Noviça Rebelde”), o qual sou fã incondicional. One of my guilty pleasures. OK, ninguém é perfeito… Para conseguir o alvará da minha mulher, as promessas básicas: nada de se engraçar com as austríacas e controle orçamentário visceral. Sem problemas, honey! Planejei ir na Primavera, baixa temporada – odeio multidão de turistas – visitando Viena primeiro à pé, depois alugando carro para fazer uma road trip pela região dos lagos (Salzkammergut) e finalmente explorando a cidade de Salzburg (à pé) e arredores (de carro) alugado. Tudo saiu de acordo com o planejado e só tive um único dia de garoa em Salzburg. Melhor impossível. O resultado da minha viagem encontra-se espalhado pelas próximas entradas nesse blog.
 
 
Uma das amigas adolescentes de minhas filhas – uma americana que cursa a 8a série no advanced level, tão logo soube da minha viagem para a Áustria desejou-me boa sorte, pedindo que eu tirasse a fotos de alguns cangurus… Pelamordedeus, não pise na bola como essa ianque ignorante: eu visitei a Áustria, não a Austrália! O país fica no centro da Europa, em meio aos Alpes, palco de incontáveis eventos históricos desde os tempos dos celtas, por volta de 788 AD. Um dos países mais ricos do mundo, com uma renda per capita de US $ 43 mil/ano, a Áustria conta também com um alto padrão em termos de qualidade de vida e, ano após ano, garante seu lugar entre os quinze países de maiores índices de desenvolvimento humano. O nome do país (Osterreich) significa "Reino do Leste", traduzido do alemão antigo e, depois de se envolver em tantas guerras ao longo dos séculos (mais detalhes adiante), desde 1955 optou por neutralidade e não possui sequer uma base militar estrangeira em seu território. Sua tradição militar desde então limita-se a participar de forças de paz das Nações Unidas (não fazem parte da OTAN) e de missões humanitarias. A vocação para a diplomacia sedimentou-se durante a Guerra Fria, já que a Áustria localizava-se entre os dois blocos, bem no centro. Pilar da economia austríaca, o setor de serviços tem como notáveis geradores de renda a área de finanças (bancos e investimentos) e naturalmente o turismo (durante todo o ano), que corresponde a aproximadamente 40% do GDP. Em média 20 milhões de pessoas visitam o país alpino todos os anos, o que o coloca na lista seleta dos dez mais visitados no mundo. Os produtos e marcas austríacos mais conhecidos no mundo são o Porsche, a Heineken e o Red Bull.
 
 
Quase a todalidade dos 8.3 milhões de austríacos são brancos. Dá para contar nos dedos os negros (provavelmente turistas) que vi durante minha viagem, mesmo em Viena. Não sei se pintou paranóia de minha parte, mas em algumas partes do interior do país, tive a impressão de que me olhavam torto. Afinal, não deve ser comum por lá esbarrar em um negão de 1,80 m tirando fotos com uma Nikkon nas mãos… Como uma taxa de natalidade de 0.052% ao ano, não precisa ser guru para saber que grande parte de população é de coroas (média nacional de 43 anos de idade). Vi poucas crianças em minhas andanças e as que encontrei tirei fotos. O povo austríaco, em sua maioria, professa o catolicismo como religião (74%), mas não a ponto de ir à missa todos os Domingos: somente 7% da população faz isso contra, por exemplo, 40% da população americana. Essa herança cultural leva o típico austríaco a ser bem família, possuindo hábitos como comer em sua própria casa (sem TV Ligada!) mais que fora. Graças à vocação turística do país, em geral o austríaco é bem bacana com estrangeiros, mas – como todo europeu de língua germânica – um pouco grosso, mas com muita educação. Paradoxal, não? Por exemplo, você pergunta para um pedestre: “o senhor sabe onde fica tal lugar?” Se a pessoa souber inglês (trata-se de uma lenda que todo austríaco fala inglês fluente), pode te responder cravando nos seus olhos “Não” e continuar olhando fixamente para você, calado. Só depois que você se despede ou agradece, ele segue o seu caminho. Levei um tempo para me habituar…  Fora de Viena e Salzburg, no interior do país, eu senti essa frieza e indiferença “light” de forma mais intensa. Como boa parte dos Europeus, austríacos falam o que pensam de forma brutal e honesta. Um contraste com a cultura brasileira. Eu particularmente prefiro assim, um dos motivos que me adaptei tão bem à America, um reflexo da cultura européia. As duas únicas coisas que me aborreceram de verdade: o maldito cigarro; e a porquice no banheiro. O austríaco típico fuma pra cacete (aproximadamente 50% da população) e não tem cerimônia de espalhar o “resíduo do seu prazer” na cara de qualquer um, em qualquer lugar, mesmo em locais públicos. Só faltavam rir na minha cara quando pedia para sentar no setor de não fumantes. Máquinas automáticas para venda de cartelas de cigarro encontram-se espalhadas na cidade. Quanto à má educação no banheiro, basicamente pertence ao sexo masculino e trata-se do mesmo mal que aflige os americanos: eles não lavam a mão depois de mijar ou largar um barro. Como agravante, urinam em qualquer lugar, não necessariamente em um mictório. Tem um arbusto perto, então está tudo bem, não importa se tem criança olhando no parquinho. Pense duas vezes antes de apertar a mão de um austríaco ou de comer um cachorro quente feito por mãos sem luvas…
 

 
A Áustria é um dos países mais seguros do mundo, possuindo uma média de pífios 100 assassinatos por ano.  A honestidade impera e um pacto invisível de honra permeia a sociedade: muitas coisas você leva e deixa o pagamento, como comida, jornais e revistas. Como um todo bem desenvolvido em termos de igualdade e justiça social, a mim me pareceu que a Áustria é um país que só tem classe média, quase socialista. Por exemplo, existe uma lei que protege o emprego de uma mulher grávida por até três anos… A educação – bastante generalista e com foco em humanidades – é gratuita (critério: meritocracia) do primário à faculdade, que o pessoal leva séculos para concluir (media de obtenção da primeira graduação como bacharel: 26 anos). Aposenta-se aqui com 60 anos, ou seja, cedo pra cacete se você é um average joe. A infra-estrutura de saúde pública atende a todos também, sem custo. A população tem acesso a cultura a e arte muito baratos ou grátis, graças ao pesado subsídio do governo. Como contrapartida a carga tributária na Áustria é enorme, comparada a outros países europeus. A reduzida carga horário de trabalho abre as portas para diversas formas de lazer, sendo as prediletas da população local jardinagem (não estou brincando…) e a prática de esportes outdoor, como esqui (na neve e aquático), montanhismo, paragliding, ciclismo, mountain biking, hiking e outros. Obesos você encontra somente em Viena, cidade mais cosmopolita longe das incríveis montanhas, bosques, rios e lagos do país. Alguns detratores dizem que os austríacos têm essa disposição toda por ser uma terra de bebedores de café e Red Bull…
 

 
Outra característica legal do austríaco é sua “cuca fresca” no que se refere ao sexo. Não chega a ser uma nação de nudistas, mas eu vi bastante topless perto dos lagos que visitei (ouvi falar em zonas para banho sem roupa), uma quantidade além da média de lojas de lingerie e sex-shops em Viena e Salzburg, além de anúncios em outdoors comparáveis aos brasileiros, expondo legal tanto a nudez masculina quanto a feminina, sem qualquer pudor. Veja vários exemplos aqui. Demonstrações entusiasmadas de afeto e carinho, incluindo beijos e amassos, são muito comuns, especialmente em Viena. Prostituição não é ilegal, mas reservadas às casas de luz vermelha (Viena também tem um Red Light District). Revistas pornográficas são vendidas sem proteção de plástico nas bancas. A maioria esmagadora das saunas públicas e de spas são unisex. Para fechar com chave de ouro, o termo sado-masoquismo foi “inventado” involuntariamente por um austríaco: o conde Leopold von Sacher-Masoch – renomado escritor e jornalista, cuja amante, a baronesa Bogdanoff, submetia seu pobre nobre amante a torturas psicológicas de forma sistemática e gostava de brincar de sinhazinha e escravo. A relação durou seis meses… Como diria uma famosa personagem feminina de uma obras de Nelson Rodrigues: "Bate! Mas bate gostoso…"
 
 
O idioma oficial da Austria é o alemão. Ô linguinha lazarenta. Quando alguém fala alemão contigo parece que está te dando um esporro. Carlos I, eclético rei espanhol da Idade Média, disse uma vez: "Hablo español con Dios, italiano con las mujeres, frances con los hombres y aleman con mi caballo". Não dá para não concordar com sua alteza. Por exemplo, a mãe (mutter) de um hotentote (membro de uma tribo sul-africana) denomina-se hottentottermutter. Se ela tiver um filho tonto e gago, ele se chama stottertrottel. Em alemão, essa probre mulher é uma hottentottenstottertrottelmutter. Se um assassino (attentater) decidir matar-la, ele será chamado de hottentottenstottertrottelmutterattentater. Caramba! As palavras que mais usei durante minha viagem naturalmente foram Bitte (por favor) e Danke (obrigado), já que os austríacos em geral valorizam muito o respeito e a educação. Porém na maioria das vezes, durante a interação com austríacos, eu finalmente entendi como se sente um americano quando eu, minha esposa e as crianças começamos a falar em Português na frente dele. A paranóia é automática: um pensamento onipresente de que estão falando mal ou sacaneando você na tua cara.
 

 
A cozinha austríaca, pelo menos no que se refere aos pratos salgados, me desapontou. Tudo bem que pode ser culpa de ter experimentados pratos fantásticos ao longo de todas as minhas viagens (show off…) ou pela grande expectativa que tinha pela reputação da comida alemã (cultura de grande influência na Áustria) que comia de vez em quando em Curitiba, mas para mim a comida pareceu ordinária, simples (invariavelmente faltavam acompanhamentos decentes e variados aos pratos principais) e não particularmente saborosa, consistentemente OK. Para piorar, as porções eram servidas sempre em quantidades pouco generosas, um crime para um glutão gourmet como eu. A cozinha austríaca recebeu influência de diferentes estilos culinários e etnias durante o que tempo que dominava o centro e o leste Europeu incluindo, mas não limitada, a culinária húngara, tcheca e italiana. Vamos discutir alguns dos pratos típicos mais famosos da Áustria. Um dos favoritos do imperador Franz Joseph I e considerado um dos pratos nacionais, o Wiener Tafelspitz é um bife cozido temperado com cebolinha, alho poró e pimenta do reino, acompanhado de cenouras e cebolas cozidas. Uma curiosidade: pelas regras de etiqueta da corte, ninguém podia comer mais depois que o imperador parasse de comer (e ele era o primeiro a ser servido). Muita gente devia sair com fome da mesa… Outro prato tradicional é o Sauerkraut, chucrute ou ainda "repolho azedo", traduzindo do alemão. Trata-se de repolho cortado em pedaços, depois fermentado para azedar, que acompanha linguiça, porquinho e outros pratos, e considerado um poderoso afrodisíaco e excelente fonte de vitamina C. Antes do limão ser adotado na dieta dos marinheiros da Idade Moderna para prevenir o escorbuto durante longas viagens, o sauerkraut era a a melhor opção, já que durava uma eternidade sem necessitar de cuidados especiais para conservação. Outro prato muito apreciadona Áustria é o Beuschel, um cozido feito de um picadinho pulmões, traqueia (cartilagem) e algumas veias grandes do coração de um bezerrinho, imersos em um molho de leite azedo, louro, manteiga e salsinha. Os locais juram que se trata de um desses pratos com ingredientes nojentos, mas que no final tem um sabor estupendo. Não arrisquei… Ao longo de outras entradas no blog falarei um pouco mais sobre outros pratos salgados típicos, incluindo as famosas wursts (salsichões e linguiças).
 
 

Agora no que se refere a pães e doces, tudo muda de figura. A cozinha austríaca torna-se referencia mundial tanto em qualidade, quanto em inovação, diversidade e sabor. Rigorosamente em todas as padarias, confeitarias e cafés que visitei, minha personalidade formiga tomava conta e, depois da esbórnia açucarada, saía mais que satisfeita. De tão populares muitos locais comem doces como prato principal em um almoço ou jantar. Acredito que só na Áustria acontece isso… Alguns deles: kaiserschmarrn, o mais legendário dos doces austríacos, basicamente uma omelete doce de passas e um pouquinho de baunilha, polvilhada de açúcar; o marillenknödel, uma espécie de "gnocchi" doce feito de semolina e ricota, recheado com damasco e polvilhado por uma mistura de açúcar, canela e pedacinhos de pão; e os clássicos topfenstrudel (recheio de ricota) e apple strudel (recheio de maçã), que de tão especiais, merecem um destaque mais adiante nesse blog. Não perca os próximos capítulos…


Tortas, bolos e pães doces começaram a ser consumidos na corte austríaca a partir do reinado do Imperador Maximiliano I, por volta de 1500, quando os cozinheiros de sua esposa, Maria de Burgundy, começaram a utilizar açúcar – artigo de ultra-luxo – nas receitas. Até a Idade Moderna a galera usava mel para adoçar. A tradição de comer doces requintados na corte aconteceu mesmo durante o século XIX, onde grandes confeiteiros criaram especialidades que sobreviveram até os dias de hoje. Entre os mais famosos: Sacher, Demel, Malakoff, Dobos e Linzer. Algumas das criações dessa geração de confeiteiros: a linzertorte, feita de nozes e avelãs moídas, depois recheada com geléia de ameixa ou framboesa; topfentascherl, um tipo de folhado recheado com queijo e coberto com açúcar; crèmeschnitte, uma mil folhas de creme extremamente delicada; gugelhupf, um bolo fofo de passas, também coberto com açúcar, que leva um pouco de uma cachaça de cereja; mohnkuchen, um bolo absolutamente delicioso elaborado a partir de sementes de papoula; dobostorte, uma torta húngara feita de pão-de-ló em varias camadas, recheadas com chocolate amanteigado e depois coberta com caramelo; e punschkrapferl, o clássico bolinho austríaco de cobertura açucarada de cor rosa, feito de uma massinha de nozes moídas embebida em rum e recheada com geléia de damasco. O lugar mais espetacular para apreciar todas essas delícias em Viena é a popular cadeia de confeitarias Aida Café-Konditorei, boa e "barata". Como dizemos no Rio, eu vou ti dizer uma coisa pra você: eu experimentei todos e dá para vender os filhos por essas delícias.



É isso.

Veja aqui quase 400 fotos em alta resolução da Áustria. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622864797223/

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Catalunha, Espanha – Abril de 2009 – Parte 1/4

 

Uma vez mais em Barcelona, decidi explorar parte da região da Catalunha, próxima da fronteira entre a Espanha e a França. Além da língua própria (veja meus comentários aqui) – 98% deles falam espanhol e 78% sabem o Catalão – a região é considerada uma comunidade espanhola autônoma, quase como um “país”. Além da língua diferente, os quase oito milhões de catalães se diferem dos outros espanhóis em vários aspectos, gerando uma rivalidade tremenda que muitas vezes beira o ódio. Um político catalão famoso – Antoni Rovira i Virgili – disse uma vez, "Si usted me pregunta si los catalanes odian a España, le diré que no; si me pregunta si aman a España, le diré que tampoco". Por essas e outras muitos defendem a separação da Espanha, especialmente entre a população de Barcelona. Do ponto de vista dos outros espanhóis, os catalães não são um povo trabalhador (estão acima da média espanhola e européia em termos de hora úteis de trabalho por mês, incluindo mulheres), mas sim belicosos, metidos, orgulhosos, antipáticos, ásperos, egoístas, amigos do lucro e ávaros. Alguns madrilenhos vão além e esquecem as regras de boa educação, chamando o povo da Catalunha de uns nacionalistas radicais, racistas, xenófobos, “separatistas de mierda”, "malditos asquerosos", nazis e outros adjetivos impublicáveis (mesmo no meu blog!). O fato é que os catalães têm uma mágoa muito grande do resto da Espanha, devido ao fato da ditadura de Franco ter proibido a língua por décadas durante a sua ditadura de direita. Muito triste castrar todo um povo por decreto. Particularmente não tenho nada contra eles e fui muito bem recebido em toda a parte, mesmo falando em Espanhol. Não são uns doces, mas nenhum espanhol o é… Em minha opinião, do ponto de vista estritamente lógico, a Catalunha seria uma nação, já que compartilham a mesma língua e cultura. Mas quando se trata de uma rivalidade apaixonada como essa, fica difícil usar argumentos óbvios e reacionais como, por exemplo, a notória superioridade dos cariocas sobre os paulistas, em todos os aspectos…

Os homens catalães têm duas grandes obsessões. A primeira é a atriz e apresentadora local de 31 anos Marta Torné, celebrada por todos com que falei como uma “diosa” que "representa a beleza, inteligência e superioridade cultural da mulher catalã". Hmm, hmm. Já escutei isso antes… Mania em toda a região, a mulher está em toda parte: de capa de revistas à programas de variedade na TV. A segunda grande paixão regional é o futebol. Perdi a conta das vezes que recebi um sorriso e um papo sincero de um desconhecido logo depois de me identificar como brasileiro. A devoção é tamanha pelo esporte inglês, que o maior ídolo da história catalã foi um estrangeiro: o holandês Johan Cruyff. Só porque, como jogador e mas tarde técnico do Barcelona, foi o cara quem mais vezes humilhou várias o ultra rival Real Madrid. Veja que trata-se do mesmo Barcelona que já teve Maradona, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho… Aliás o clássico Barcelona x Real Madrid está mais para Brasil x Argentina, do que para Flamengo x Vasco.   

                          

Cheguei à Catalunha na semana na qual se celebrava o dia de San Jorge (Sant Jordi, em catalão), patrono da região – 23 de Abril. A lenda surgiu aqui. Um dragão ferocíssimo, sanguinário e comedor de gente e animais domésticos assolava os arredores de Montblanc (Tarragona) durante a Idade Média. Seu hálito horrível, envenenava todo a ar a ponto de matar quem o respirava (similar ao bafo da minha cadela, Willow). No início o monstro negociou uma trégua com a população, exigindo duas ovelhas por dia para não comer ninguém. Quando acabaram as ovelhas, o povo prometeu sacrificar uma pessoa, escolhida por sorteio, a cada pôr do sol. Até que a linda e jovem filha do rei tornou-se a bola da vez. Muitos se ofereceram para tomar o lugar dela, mas o rei – consciente dos perigos da exceção às regras para a autoridade soberana – mandou sua menina para a morte certa. No meio do caminho ela encontrou um cavaleiro que surgiu do nada, dizendo-se enviado por Deus para matar a temível fera e livrar a cidade da ditadura da besta.  O que aconteceu depois virou o símbolo que representa São Jorge: armadura, cavalo, lança, confiança, fé, dragão subjugado aos seus pés. O rei quis casar a filha com o galante herói, mas ele recusou dizendo que estava em missão divina. Voltou a desaparecer e nunca mais retornou. 

 

Como São Jorge também patrocina o amor e a cultura, no mesmo dia do santo a tradição dita que o homem deve presentear a amada com rosas, enquanto a mulher entrega um livro para seu ente querido. As principais ruas das cidades catalãs ficam cheias de gente, rolando muita música, perfume, cores e um climão de alegria. O principal calçadão de Barcelona, Las Ramblas, em frente ao hotel no qual me hospedei, encheu-se de barraquinhas de venda de livros e flores. A tradição de presentear com rosas vêm do século XV, mas a de livros, bem mais recente, iniciou-se em 1926 quando o dia do livro foi instaurado na Espanha. Curiosamente, trata-se da mesma data da morte de Shakespeare e Cervantes.

Antes de partir para meu primeiro destino, recebi um convite de amigos madrileños para almoçar tapas (maiores detalhes sobre a história desse prato típico aqui) em um dos restaurantes mais populares de Barcelona, o Restaurante Taxidermista. O nome vem de um monte de troféus de caça – cabeças de animais – penduradas nas paredes. Além da gastronomia diferenciada e do ambiente renascentista (o prédio é de 1850), o lugar é um magneto de gente. Estávamos em cinco e decidimos comer em uma das mesas de fora, na Plaza Reial, uma das mais tradicionais de Barcelona. Comemos no melhor estilo espanhol: diversas tapas diferentes espalhadas pela mesa para que todos compatilhassem enquanto discutíamos política, futebol e outras futilidades. Entre as modalidades que experimentei destaco as seguintes porções: pa amb tomàquet ou pãozinho previamente tostado em rodelas embebido em molho frio de tomate, símbolo da cozinha catalã; patatas bravas, batatas fritas em pedaços com molho apimentado de tomate e maionese; jamon iberico, presunto estilo espanhol; 


 

A riquíssima cozinha catalã baseia-se em uma dieta mediterrânea (montanha e mar), e conta com pratos deliciosos e outros tantos meio esquisitos. Os mais tradicionais: sopa de galets y escudella, uma sopa de macarrão com caldo de carne; calçots, um tipo de cebolinha que se assa na brasa para depois descascar e comer inteira; esqueixada, bacalhau quase cru servido como carpaccio, arrematado com tomate ralado, tiras de cebola, azeitonas e uma dose generosa de óleo de oliva e vinagre balsâmico; coca de recapte, uma espécie de pizza italiana com influência árabe, com recheio de tomate, cebola, berinjela, pimentão, sardinha ou anchova – muito comum em padarias catalãs; xató, uma salada de escarola com tiras de bacalhau cru, azeitonas e um molho especial que mistura tomate, pimenta, alho, amêndoas e avelã; Conill a la xocolata, carne de coelho cozida e depois assada, servida com um molho de… chocolate (!?); e o mais escroto de todos os pratos típicos, o Cap-i-pota,  um cozido a base de molho de tomate, feito de cérebro e pata de cordeiro. Ew
 


 
Além dos chocolates de classe mundial, a Catalunha também proporciona diversas delícias típicas para os formiguinhas ou sweet tooth como eu. Precisaria de páginas e mais páginas desse blog para falar de todas. Ficam, portanto, as mais tradicionais. Pan Fruit Secs, um pão doce de massa fina lotado de frutas cristalizadas por dentro e por fora. Panellets, bolinhos assados feitos de uma mistura de amêndoas moídas, açúcar, batata cozida, ovos e casca de limão ralada. Pastis de Formatge, tortinhas feitas de ricota ou qurijo. Orelletes são uma espécie de massa de pastel de vento frito em formato de uma orelha gigante, polvilhado com açúcar e canela, que os catalãs saboreiam com uma taça de vinho. Porém nenhum deles bate o mais famoso de todos, aquele que todo turista deve levar de volta para casa em sua mala: o torrone ou turrón. Uma fortuna no Brasil mas baratíssimos na Espanha, o torrone não passa de uma massa doce retangular (tabletes) obtida a partir do cozimento de mel, açucar e clara de ovos, incorporando amêndoas tostadas. Simples e mortal, provoca vício imediato. A origem do doce remonta o tempo em que os árabes ocupavam a Catalunha, que a partir do século XVI invadiu a residência de nobres e plebeus. A Espanha, maior produtor mundial, exporta em média 1,5 toneladas todo ano desses maravilhosos tabletes. A melhor marca de torrone existente de acordo com os catalãos é o El Almendro que, irônicamente, tem sede em Madrid.
 


Minha primeira parada no tour pela Catalunha foi o Monastèri Benedictino de Montserrat, a quarenta minutos de trem de minha cidade-base, Barcelona. O imenso complexo do Monastério fica localizado a a mais de 700 metros de altitude, incrustado no maçiço de Montserrat, que significa Monte Serrado. Segundo a lenda, uma imagem de Nossa Senhora foi encontrada em uma das cavernas da montanha (chamada agora de Santa Cova) no ano de 880 por um grupo de pastores, sob uma luz intensa, acompanhada de uma bela melodia. O bispo local, ao saber do ocorrido, solicitou a transferência da estátua para uma das igrejas próximas. Vários homens não conseguiram movê-la por causa do seu peso. O bispo concluiu do fato que a Virgem desejava ser honrada ali mesmo. Por isso nesse local sagrado foi construído o Monastério. A estátua de cor negra da Virgem – que se tornou  patrona da Catalunha – gerou um apelido para a santa: "La Moreneta". Não há nenhum contexto racial, todavía. Ela possui essa cor devido à transformação sofrida pela tinta da pintura original da imagem.
 

 
 
Para chegar aqui você pode optar pelo trem e seu sinuoso caminho, pegar um bondinho, guiar um automóvel ou, se tiver disposição e fé, à pé, subindo 3,5 quilômetros morro acima. Em um dia bonito, sem nuvens, o visual é um dos mais espetaculares que já vi em minhas viagens. Algo do nível das Montanhas Rochosas nos EUA e do Cristo Redentor no Rio. Não importa o ponto de vista: de baixo, a partir da estação de trem, durante a subida ou em vários mirantes do topo. Prepare-se para gastar umas seis horas por aqui, pois há muito o que explorar. O conjunto de edifícios que compõem o Monastério possuem funções distintas: a Basílica, as dependências dos monges e estudantes e seus anexos; mais os prédios destinados a atender peregrinos e visitantes, incluindo o hotel, o museu de arte, restaurantes e gift shops. A Basílica de Montserrat, construída a partir do século XVI, impressiona pela qualidade arquitetônica e pela beleza das estátuas externas em alto relevo de Cristo e seus discípulos.
 


 
O monastério de arquitetura totalmente romana conta atualmente com quase cem monges que seguem o credo São Beneditino, utilizando o local para uma vida de meditação, comtemplação, encontro, oração e, sobretudo, leitura: a biblioteca tem mais de 300,000 volumes! O acervo poderia ser muito maior, mas graças a Napoleão em 1811, boa parte do monastério foi destruída e se perdeu a maior parte do acervo bibliográfico. Além dos monges, o monastério também abriga os cinquenta meninos (9 a 14 anos) que compõem a Escolania de Montserrat, fundada no século XIII e considerada a escola de canto mais antiga do ocidente. Depois de um processo rigoroso de aprovação, custa em média 700 Euros por mês para estudar e viver aqui. As crianças viajam o mundo inteiro para relizar apresentações (o famoso coral de meninos), mas investem boa parte do seu tempo diário em ensaios, além da escola (Middle School). Assisti uma das exibições deles durante a missa e – Deus! – cantam como anjos. Veja aqui abaixo uma amostra. Naturalmente não traduz a onda de emoção gerada por uma apresentação ao vivo.
 
 
 

Continua…

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Catalunha, Espanha – Abril de 2009 – Parte 2/4

 

Montserrat também possui um museu de arte onde podem ser encontradas obras de Salvador Dali, el Greco e Pablo Picasso. A coleção de mais de 1,300 peças está divida em seções específicas dedicadas a obras sacras, ilustrações de Santa Maria de Montserrat, jóias e objetos litúrgicos, quadros dos séculos XIII ao XVIII, além de pinturas e esculturas modernas. Uma pena que não admitam fotografias no interior do museu… Contudo, os cinco euros da entrada valem cada centavo. Minhas obras prediletas: Joven Decadente, pintura modernista de Ramon Casas finalizada em 1899 – mostrando uma mulher acabada depois da farra em um baile; San Jeronimo Penitente, criada por Caravaggio em 1606 e mostrando o Santo meditando sobre a fugacidade da vida e o inexorável fim de tudo que é terreno; de El Greco, Santa Magdalena Penitente, criado em 1576, apresentando um retrato singelo da ex-prostituta bíblica; Madeleine – l’absenta – obra-prima de Ramon Casas, pintada em 1892, que retrata a profunda melancolia de uma mulher de sociedade fumando e bebendo sozinha em um bar, esperando algo ou alguém que provavelmente nunca virá; pintada por Daura em 1935, o retrato de uma linda menina: Martha amb vestit groc; e finalmente a obra mais sensual de Casas (sujeito talentoso!): L’hora del bany, de 1895.
 

Meu almoço ocorreu aqui aqui mesmo em Montserrat, no restaurante Restaurante Abat Cisneros. O estabelecimento fica dentro do hotel de mesmo nome. Decidi comer dois pratos ultra típicos da Catalunha. Como entrada fria, a Escalivada, um tipo de salada de tomate, queijo feta, cebola, berinjela e azeitona preta, regada a óleo de oliva, que normalmente acompanha aves, arroz ou peixe. A porção servida, deliciosa porém miserável, deixou-me muito frustrado. O prato principal foi Bacalao a la Llauna, assado no forno com uma tempero a base de vinho branco, muito alho picadinho, pimentão vermelho e óleo de oliva. De sobremesa, um sorvetinho artesanal básico como só os espanhóis sabem fazer. Por Baco!


 
Veja aqui fotos em alta resolução do Monastério Catalão de Montserrat: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622798746786/ 

 

À noite jantei em uma das mais populares franquias de restaurantes (quatro no total) de tapas de Barcelona, a Cerveceria Taller de Tapas. O ambiente é muito romântico e perfeito para casais de solteiros e casados. Quanto ao serviço, muito acima da média espanhola: rápido e cortês, para um lugar que vive cheio. Embora não tenha tido o prazer de apreciar as tapas como um verdadeiro catalão – com cerveja gelada ou vinho – esse blogueiro abstêmio por alcool aproveitou os inúmeras tapas disponíveis, entre elas o espetinho de frango spicy com batatas e os Chorizitos a la Sidra Asturia, linguiçinha de porco ao molho de tomate carregado na pimenta. Como sobremesa, uma gostosa Tarta de Almendras ao molho doce de vinho galiciano.   

 

 

A próxima etapa de meu passeio pela Catalunha aconteceu na cidade de Girona, fundada pelos romanos 79 anos antes de Cristo. Para chegar até aqui basta pegar um confortável trem que sai cedinho de Barcelona. Depois de uma hora de viagem, você pode caminhar por umas oito quadras desde a estação de trens até o centro histórico, às margens do Rio Oñar. Na verdade, boa parte dos quase cem mil habitantes dessa formosa cidadezinha fica praticamente debruçada sobre o rio, em edifícios e casas coloridas em tons pastéis. Passear pelas várias pontes de cruzam o rio configura uma obrigação para qualquer turista que se preze. A única ponte de metal da cidade foi construída por Gustave Eiffel em 1876, o mesmo sujeito que construiu a famosa torre na França, país que fica bem pertinho de Girona. Por causa do rio a cidade ganhou seu nome atual. O nome Girona corresponde ao latim Gerunda (he he) que, por sua vez, significa “entre el Undários”.  Undários era o nome romano do rio Oñar…

 


 

Palco de numerosas guerras européias, sua arquitetura ímpar deriva da influência de seus fundadores, da oligarquia visigótica, de anos de ocupação muçulmana (construtores da imensa muralha de pedra que circunda parte da cidade), do reinado de Carlos Magno, administração espanhola e da grande comunidade judia que viveu aqui desde a Idade Média. Caminhar por entre o labirinto de ruelas medievais, principalmente pela manhã de Sábado, quando existem poucas pessoas nas ruas, proporciona um prazer como poucos. Uma das supresas que tive durante minha caminhada, foi esbarrar com um grupo de cidadãos que buscavam assinaturas para um abaixo assinado: a proibição das touradas na Espanha! Eu não sabia que corridas de touros têm sido por anos difíceis de engolir pelo povo catalão. De todas as províncias, somente Barcelona ainda conta com esse tipo de espetáculo sanguinário, mais brevemente touradas serão banidas da Catalunha, graças a um referendo popular.

 


A Catedral de Santa Maria de Girona, construída em estilo romântico/gótico a partir do século XI para consagrar Nossa Senhora, se localiza no ponto mais alto da cidade. O acesso a essa igreja enorme (uma das maiores do mundo) é feito através de uma longa escadaria que dá para um portão saído do filme clássico “O Nome da Rosa”. Boa parte dos vitrais nas paredes, lindamente trabalhados (arte elaborada no século XVI), conta a história da Virgem Maria. Esse cartão postal de Girona é considerado por especialistas um monumento único na história da arquitetura gótica mundial. O ambiente interno é tão amplo, que se você chegar cedinho, quando não tem praticamente ninguém, o eco dos seus próprios passos é ensurdecedor. O principal item de arte dentro desse colosso, o Tapiz de La Creacíon, figura uma peça ímpar de excepcional qualidade técnica e artística. Trata-se de um tapete de lã multicolorido delicadamente bordado à mão, feito no século XI, que conta a história da criação do Cosmos e da Terra pelas mãos de Deus.

Na parte externa da catedral, encontra-se a estátua em pedra de uma bruxa, o único gárgula de forma humana da construção. Chamada de La Bruja de la Catedral, diz a lenda que era uma feiticeira especializada em magia negra que odiava religião e tinha o costume de atirar pedras na igreja. Alguém lá em cima ficou puto e transformou a velha rancorosa em uma estátua de pedra com um bocão em forma de boneca de sex shop, que ao invés de proferir maldições e insultos, passou a jorrar água limpa de chuva. Como dizem os espanhóis, “no creo en las brujas, pero que las hay, las hay”. Outra atração da igreja é o túmulo todo trabalhado em pedra do bispo Bernardo de Pau. Dentro de um santuário que homenageia a Virgem Maria. Vou para o Inferno por essa insinuação… 

Além da Catedral, Girona possui uma linda igreja construída no século IV – durante os primórdios do Cristianismo – como homenagem a São Narciso e a São Felipe (patronos de Girona), a Esglesia de Sant Feliu. A igreja mais antiga da cidade possui arquitetura gótica com elementos barrocos e romanos. Ela abriga uma nave que é um desbunde de tão bela, incluindo obras sacras (estátuas e pinturas) e vários sarcófagos trabalhos com motivos romanos, incrustados nas paredes do altar maior. A grande atração de Sant Feliu é uma escultura gótica de Cristo, feita pelo artista catalão Aloi de Montbrai, considerada uma das jóias da Catalunha.

Continua…

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