Salzkammergut, Austria – Abril de 2009 – Parte 2/3

 

Depois de passar à noite em uma cidade próxima de Salzburg (mais detalhes na minha próxima entrada do blog), dirigi o Audi bem cedinho para o lago Fuschlsee, tão limpo que serve de reservatório de água potável para toda a região. Além da beleza natural, buscava um dos mais famosos hotéis de Salzkammergut: o Hotel Schloss Fuschl, um lodge para caça de um poderoso bispo local construído em 1450 e transformado em hotel cinco estrelas. Realeza, alto clero, políticos, celebridades passaram (e passam) por aqui amiúde. Nazistas de alta patente também frequentaram o lugar. Entrei e explorei a propriedade aparentemente deserta sem ser incomodado uma única vez. E olha que eu tenho a aparência e o tamanho de um assassino de slash movies! A posição privilegiada do complexo, bem diante do lago, proporciona panoramas quase sobrenaturais de tão belos. A área coberta pelo hotel é vasta, incluindo suas próprias trilhas selvagens de centenas de metros de extensão. A decoração interior compõe-se de diversos estilos, do barroco aos estilo renascentista. O hotel tem uma frota própria de limousines e Rolls Royces dedicada a levar seus hóspedes em excursão pela região. Docas privadas guardam toda sorte de barcos para uso exclusivo dos hóspedes no lago Fuschlsee, incluindo para expedições de pescaria. O campo de golfe do hotel é considerado o mais bonito da Áustria por causa da paisagem. Mas tudo isso obviamente não sai baratinho: a diária mínima custa US $ 470 e a suite mais cara, chamada "Castelo", sai pela miséria de US $ 1,400 por noite. Definitivamente não é para você, leitor pobre… (se serve de consolo, sempre existem as fotos!)
 

 

Saindo do hotel e seguindo pela rodovia principal na direção Sul, chega-se à cidade de St. Gilgen, às margens do lago Wolfgangsee, de 13 quilômetros quadrados e 15 quilômetros de extensão (muito delgado). Como sempre, só a cidadezinha e o lago merceriam uma exploração mais detalhada, mas como tinha muita coisa para ver de acordo com meu planejamento, decidi ir direto para a grande atração da localidade: um bondinho que te leva das margens do lago ao topo da montanha Zwölferhorn que se eleva acima de St. Gilgen. O lugar é tão alto (1,800 metros de altitude) que o bagulho leva 30 minutos para chegar até o topo – coberto de neve eterna, por sinal. De lá de cima você consegue ver claramente a cidade e o lago em toda a sua extensão. Se tiver paciência de andar na neve (afundando meio metro a cada pisada), driblar os esquiadores e seguir uma trilha selvagem de 15 minutos, poderá chegar do outro lado do pico e curtir uma cadeia de montanhas nevadas impressionante. Viu? Eu disse que as botas era um item essencial… Simplesmente não dá para vencer essa trilha de tênis.
 

 
Desci a montanha de teleférico e segui viagem costeando o lago Mondsee em direção à cidadezinha de mesmo nome. Lá matei minha fome almoçando em uma das mesas exteriores do restaurante do hotel Schlossbrau Kirchenwirt, à sombra de uma bela árvore. A baixa temporada não impediu-me de curtir a refeição enquanto observava o movimento significativo de locais na praça da igreja matriz da cidade. Nesse estabelecimento eu comi outro prato típico Austríaco – o Kasespatzle – por apenas US $ 7 (muito baixo para padrões europeus). À primeira vista parece um Mac n’ Cheese sem vergonha, mas trata-se de um tipo de gnocchi fininho frito feito com farinha de trigo, ao molho de queijo gruyere ralado. Muito, muito bom. A porção servida foi razoável e o atendimento de primeira. Para sobremesa, dei uma passada na legendária confeitaria da cidade, famosa por suas tortas e doces típicos (e também pelo preço "especial" cobrado dos turistas), a Frauenschuh Konditorei. Cuide para não babar no teclado ao navegar pelo site desse templo da perdição.
 

 
A principal atração de Mondsee é a Basilika zum Hl. Michael, onde as cenas do casamento de Frau Maria no clássico The Sound of Music (A Noviça Rebelde) foram filmadas. Essa basílica de estilo barroco tem esculturas em madeira excepcionais e cuidadosamente preservadas, feitas pelo artista Meinrad Guggenbichler e seus pupilos. Ela possui duas torres de 52 metros cada e foi construída no século XV, por uma ordem Beneditina. Como em todas as igrejas que visitei na Austria, a sensação é que você voltou no tempo, dada à qualidade da manutenção e restauração da decoração interior. Decididamente a mais bela igreja que visitei em toda Áustria (e foram muitas, você sabe…)
  

 
Deixei a cidade em direção à Gmunden, às margens do lago Traunsee. No caminho parei algumas vezes para fotografar a paisagem alucinante, começando pelas margens do lago Mondsee – 2 x 11 quilômetros de extensão e rodeado por imensas montanhas. A águas do lago são bem mornas, 27 graus em média, excelente para esportes aquáticos ou simplesmente para um mergulhão. Dizem a lenda que o Duque Ordilo estava caçando nas montanhas da região e, pego de surpresa pela escuridão súbita da noite, escorregou de um penhasco e quase morreu, sendo salvo no último segundo pela iluminação da lua cheia que saiu detrás de uma nuvem: ele foi capaz de definir os contornos do lago abaixo e das pedras ao seu redor, conseguindo um lugar seguro para escalar de volta em segurança. Batizar o imenso lago recém descoberto de "mar da lua" (Mondsee) foi um pulo. Saindo da rodovia que circunda o lago, mais adiante em uma estrada chamada Kienklause, montanha acima, descobri um pequeno pedaço de paraíso: Landschaftspark at Kienklause, um parque selvagem à volta de um pequeno lago de beleza inebriante. Se o paraíso tem lugar para fazer piquenique com os entes queridos que já morreram, é esse. Como sempre, as fotos não representam a verdadeira dimensão do lugar, mas dá para se ter uma idéia mesmo assim. A vida animal é abundante, mas quase não existem insetos xexelentos (creio que por causa da altitude e temperatura). A única coisa chata aqui foi quase pisar em um casal de sapos fazendo sexo, o que seguramente faria alguem mais fresco jogar a bota fora.
 

 
Finalmente cheguei à cidadezinha de Gmunden, por séculos (e ainda hoje) uma grande produtora de sal de minas. Infelizmente, a cidade é mais lembrada como grande produtora de navio de guerras para a Alemanha Nazista e por hospedar uma grande maternidade da SS, que mantinha "protocolos" muito rígidos para assegurar que todos os bebes tivessem "pureza racial". Não preciso ir mais além e descrever em detalhes o que isso significa, certo? A grande atração turística de Gmunden, além da beleza típica de um vilarejo às margens de um lago da região de Salzkammergut, é a  grande quantidade de palácios privados, espremidos entre as montanhas e o lago Traunsee. Os mais famosos: Schloss Cumberland, agora um centro de terapia;  o Schloss Traunsee, atualmente uma escola; Schloss Freisitz Roith, transformado em hotel de luxo; e o único que escolhi visitar, o incrível Seeschloss Ort, um castelo construído em 1080 que fica em uma ilhota conectada à terra por uma ponte de madeira muito charmosa. Transformado em sede do Ministério Federal de Conservação Florestal (só mesmo em um país de primeiro mundo…), pode ser alugado para festas e casamentos. Também foi utilizado como cenário da novela mais popular já feita na Áustria: Schlosshotel Orth. Eu sei o que você vai perguntar e a resposta já deveria ser conhecida: os austríacos só conhecem a novela brasileira "Escrava Isaura"…
 
 
Seguindo a rodovia 145 ao longo das margens do lago Traunsee, dirigi-me à Ebensee que, comparada às outras cidades que visitei, não me pareceu tão espetacular. Não se engane: trata-se de outra cidade pitoresca austríaca à beira de um lago e no sopé de uma montanha. Mas depois de uma overdose de lugares espetaculares, você acaba não valorizando o que é só (!?) bonito. O lugar basicamente merece uma parada por duas razões: uma que gera prazer e outras como obrigação. Prazer de pegar uma estradinha de 9 quilômetros de extensão em meio à floresta de pinheiros, acompanhada por um rio que deságua em um lago calmo e tranquilo de águas verde turquesa e raro esplendor: Vorderer Langbathsee. Como era dia de semana e fora de temporada, não havia uma alma viva em quilômetros. A sensação de isolamento (que eu particularmente adoro) e paz foi verdadeiramente inebriante. Enquanto caminhava pelas margens do lago, tive a nítida impressão que por algum tempo saí desse mundo e me encontrava em alguma outra dimensão. Pois é, acho que preciso de terapia…
 
 
Em um constraste irônico, Ebensee tem seu lado negro. A obrigação de que falei anteriormente passa pela visita compulsória ao antigo campo de concentração nazista na cidade, agora transformado em memorial: KZ-Gedenkstätte Ebensee. Considerado um dos mais brutais e diabólicos campos já construídos durante a era nazista, trouxe a morte a 8,500 prisioneiros em apenas dois anos de existência. Em uma forma particularmente cruel de lidar com seres humanos, os austríacos e alemães que administravam o campo submetiam os detentos a um regime de 11 horas dia de trabalho escravo, em condições insalubres, sob frio brutal sem fornecer roupas adequadas e, naturalmente, sem alimentá-los decentemente. E não era um trabalho qualquer: falo de abrir túneis na montanha, ou basicamente, quebrar e carregar pedras… Trabalhar até a morte, enfim. O campo tinha o protocolo de praxe: soldados sádicos, cerca eletrificada, torres de vigilância equipadas com metralhadoras, quotas de execuções de excedentes para cumprir, etc. Como Ebensee não possuia seu próprio crematório, os corpos eram empilhados à espera de remoção. Sobreviventes descreveram o cheiro proveniente das pilhas de corpos putrefatos misturados com musgo, fezes e urina, como simplesmente insuportáveis. Bom ponto para reflexão. Como nós, seres humanos, pudemos fazer isso? Ou você é tão inocente a ponto de achar que o alemão nazista era Belzebu encarnado e não gente como você e eu?  Pais de família que provavelmente brincavam alegres com seus filhos à beira do lago Vorderer Langbathsee, eram os mesmo sujeitos que torturavam e matavam prisioneiros ali perto. Em minha opinião, basicamente por essa razão o Holocausto deve ser lembrado e sua história contada e recontada a todas as gerações futuras: cada um de nós tem dentro de si o potencial para se tornar um nazista filho da puta. O Holocausto não pode acontecer de novo. Os austriacos em geral têm um grande problema em discutir o assunto. E olha que eu tentei em diversas ocasiões abordá-los sobre o tema… Para que se tenha uma idéia, somente nos anos oitenta, o chanceler Franz Vranitzky admitiu formalmente o papel ativo dos austríacos nos crimes cometidos pela Alemanha Nazista. Até então muitos deles pensavam (ou se enganavam) que a Áustria foi apenas mais uma "vítima" da Alemanha de Hitler…
 

 
Toquei meu Audi para a cidade de Hallstatt, às margens do lago Hallstätter e no sopé das montanhas Dachstein, o ponto alto de minha road trip pela região de Salzkammergut. Trata-se de um dos patrimônios da humanidade segundo a UNESCO, um pequeno vilarejo medieval inteiramente à beira do lago, tão, mas tão bem preservado, que nenhum carro pode passar por essa cidade de pedestres e ciclistas: os austríacos construíram um túnel por baixo da cidade que te leva ao outro lado da rodovia. As casas que a compõem Hallstatt ficam tão próximas umas das outras, que muitas só tem possuem acesso pelo lago. Ruelas se cruzam em meio aos telhados das casas. Bizarro e encantador, ao mesmo tempo. Um verdadeiro cartão postal vivo, não importa o tempo que esteja fazendo ou o ângulo em que você bata a foto. Gastei um entardecer e parte de uma manhã aqui. Predominantemente barroca em estilo, ela é muito antiga (fundada em 1311, mas com bases de 5,500 AC) e comprovadamente aqui surgiu a primeira mina de sal comercial da Europa. Mas tudo isso se torna apenas uma mera curiosidade ao se passear pela ruas, sentir o climão da cidade e visitar as duas pequenas igrejas: uma delas católica e construída no século XV, a Pfarrkirche; a outra Protestante e em arquitetura neo-gótica. Resumo da ópera: recomendo uma visita aqui como outra coisa a ser feita antes de morrer, caro leitor. Uma perfeita sinergia entre o cenário impecável (cortesia da Mãe Natureza) e o hábil trabalho dos humanos que construíram a vila. Programa absolutamente 100% imperdível. Chegue cedo e fora de temporada, pois a cidade aceita somente um número limite de visitantes por dia. Para comer bem e barato por aqui, sugiro a barraquinha em frente à doca pública, que vende frango assado e cachorro quente.
 

 
Quase 70 fotos dessa jóia de cidade podem ser vistas aqui: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623437104628/
 
Para terminar o dia jantei no restaurante do hotel onde estava hospedado, o Gasthof Schorn na cidade de St. Leonhard. Assim como o hotel (mais detalhes nas próximas entradas no meu blog), o restaurante é tranquilo, limpo e acochegante. O preço das refeições é justo, algo como US $ 10 por prato (Europa, my friend...)  Minha refeição seguiu a tradição de alguns austríacos de comer a sobremesa como prato principal. Escolhi o prato típico Palatschinken, uma panqueca de massa fina (como um crepe) recheada com sorvete de creme e com cobertura de chocolate. Existem versões dessa "panqueca" enchida com geléia de frutas, creme de chocolate, queijo, carne desfiada ou vegetais cozidos, para almoço ou jantar, mas nunca no café-da-manhã.
 
 
No dia seguinte segui para outra grande site remoto: Vorderer Gosausee, o lago da cidade de Gosau. Prometo não fazer piada de duplo sentido. Minha esposa confessou-me que detesta. Gosau tem como destaque a maior concentração de Luteranos da Áustria e a sua reputação de disputado point para prática de esqui na neve. Como passeava por lá em Abril, não só explorei o lago – que fica a 8 km da cidade – sozinho, como a paisagem se apresentava como uma mescla de neve e Primavera, ideal para fotografia (tipo cartão postal mesmo). Sério, as montanhas Dachstein Massif (2,500 metros de altitude) que circundam o lago em zigue-zague são um assombro e intimidam pelo tamanho. Nessa época o lago não é apropriado para passeios ou banho, devido ao risco inerente às camadas de gelo fino por sobre a superfície. Assim como experimentei em Vorderer Langbathsee, a sensação de solidão e insignificância diante de um cenário tão grandioso já valem a parada.
 

 
Continua…
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