Salzkammergut, Austria – Abril de 2009 – Parte 1/3

 
Um dos meus objetivos ao visitar a Áustria – além de visitar Viena – foi realizar uma road trip em meio aos Alpes. A região escolhida, Salzkammergut ou Country Lake, combina o que há de melhor em termos de cenário idílico em um clima perfeito: imensas montanhas, muito verde, neve, flores deslumbrantes, cidadezinhas típicas e, naturalmente, lindíssimos lagos. Tudo isso na Primavera! O plano original, viajar de Viena à Salzburg cruzando esse cenário de sonhos, funcionou como um relógio. Nada deu errado e o tempo cooperou por três dias. Essa conjunção de fatores proporcionou algumas das mais belas fotos que tirei em toda minha vida. Material para a revista Geográfica Universal mesmo. Bem, com toda essa matéria-prima à minha disposição e uma Nikon D40 à tira-colo, não fiz mais que a obrigação…
 

Se você quiser seguir meus passos – objetivo 100% válido antes de morrer – você precisará de três itens fundamentais. O primeiro, um par de botas decentes para hiking. Recomendo a marca Vasque por trazer a melhor combinação bom-e-barato. Acredite em mim quando digo que outras marcas podem chegar a centenas de dólares. As botas servirão para você enfrentar caminhadas em terreno selvagem,  morro acima e em terreno acidentado – muitas vezes coberto de neve (ok, fui na primavera, mas não esqueça da combinação altitude + latitude alta). Você precisará de conforto, isolamento térmico e solado especial. O segundo componente essencial para a aventura: um GPS. Detesto guias turísticos. O GPS proporciona independência e segurança. Durante toda a viagem em nenhum momento me senti apavorado ou perdido, mesmo quando explorava lugares completamente ermos, sem uma única alma viva à volta. Depois de testar algumas marcas, minha predileta acabou sendo a Garmin – mapas confiáveis e fácil de usar e carregar. O terceiro e último item da road trip tem que ser obviamente um carro. Alugar um 4 x4 não é necessario para navegar pela região de Salzkammergut, já que todas as estradas – mesmo as secundárias e "terciárias" – são asfaltadas. Primeiro mundo perde… No meu caso, para economizar, tinha reservado um modelo subcompacto e standard para recolher no aeroporto de Viena. O atendente da Hertz não conseguiu encontrar minha reserva, feita com 4 meses de antecedência pela Internet. Eu estava prestes a explodir em fúria, quando ele me disse: "Sinto muito senhor, mas podemos compensar todo o trouble causado com esse modelo aqui…" E então o sujeito da locadora me entregou as chaves de um… Audi A4. Minha mulher vive dizendo que sou um sortudo miserável…

 
 
Dirigir na Áustria é uma experiêcia que proporciona prazeres multiorgásmicos. E não falo somente do já citado "tapete" de asfalto onde quer que você vá, mas também: por causa dos motoristas habilidosos e ultra educados; pistas de alta velocidade onde você pode manejar a quase 150 kilômetros por hora dentro da lei; sinalização impecável; convivência harmoniosa de carros, pedestres e ciclistas; ausência de polícia e radares (se existem, se escondem bem pra cacete); inexistência de pedágios caça-níqueis;  e cenários alpinos diante do pára-brisa 100% do tempo, todos um desbunde só. Civilização, enfim. Para quem já experimentou como eu as ruas do Rio, Curitiba, Salvador, São Paulo, Lima e Cidade do México, a pergunta recorrente em sua cabeça enquanto dirige na Áustria acaba sendo: "Será que eu morri e fui para o Céu?"
 
 
Salzkammergut em alemão significa "terra dos depósitos de sal", nome plenamente justificado pela imensa quantidade de minas de sal da região, fonte de riqueza para os reis da dinastia Habsburg por centenas de anos (e até para tribos célticas, antes mesmo dos Romanos) . Lembrem-se que até o início das grande navegações e a consequente descoberta de novos fornecedores de especiarias, para temperar comida a única coisa decente que os cozinheiros tinham à mão era sal. E a realeza austríaca controlava boa parte das minas produtoras desse produto na Europa. Só mais recentemente, depois da 2a Guerra Mundial, os austríacos descobriram o potencial turístico da região, ideal para passeios, iatismo, prática de esportes aquáticos, banhos de sol,  escaladas, ciclismo, hiking, atividades de inverno e muitas outras oportunidades de lazer. A Áustria possui mais de 300 lagos, fruto de antigas geleiras que derreteram e formaram montanhas e imensas áreas de água doce. Os maiores e mais impressionantes lagos do país se concentram aqui, na região que me aventurei. E posso dizer que, assim como a praia Lanikai no Hawaii e as Montanhas Rochosas no Colorado, o Country Lake dos austríacos é um daqueles lugares no planeta que facilmente te trarão lágrimas aos olhos quando você se deparar pela primeira vez com seus cenários de beleza rara e extraordinária.
 

 
Comecei minha jornada circundando o lago Attersee, a primeira e maior jóia dentre várias de tremenda beleza natural de Salzkammergut. Trata-se de um imenso bloco de água doce de dimensões 3 x 20 quilômetros que nunca congela no Inverno (ao contrário de todos os outros lagos da região). Suas águas são excepcionalmente claras, ideais para mergulho autônomo. No final do século XIX, a aristocracia vienense adorava gastar seu (extensivo) tempo livre por aqui. A estrada à volta do lago – como na maior parte de minha road-trip – fica espremida entre as montanhas e a água, sempre acompanhada pela onipresente ciclovia e por pequenas áreas para piquenique às margens do lago, com suas mesas em madeira rústica. Como passeava no ínicio da Primavera – completamente fora de temporada (Jun-Ago), praticamente tive a estrada só para mim, e frequentemente encontrei vilarejos de incrível beleza, como que abandonados, parecidos com uma cidade fantasma. Explica-se. A maioria das casas de veraneio e hotéis se encontravam vazios e, consequentemente, praticamente não havia movimento ou comércio. Os ínúmeros iate clubes que pululam Attersee não tinham qualquer atividade e as dezenas de barquinhos se encontravam ali apenas para posar para fotografias.
 


 
Dá para gastar várias horas de seu passeio somente explorando as cidadezinhas às margens do lago. Minha primeira parada, Litzlberg, possui uma grande área totalmente gramada e com árvores às margens do lago, onde os locais se dedicam ao banho de sol e a um mergulho ocasional, vestidos como se estivessem em uma praia oceânica. Pequenas docas dão um tempero único ao local. A próxima cidade, Seewalchen, tem uma série de casas construídas em madeira, tão próximas da água cristalina que parecem ilhotas caribenhas dotadas de pequenos ancoradouros. A cidade oferece também um grande lugarzinho para comer uma das especialidades da cozinha local, o filé de truta empanado. O Kapsreiter Cafe não serve porções imensas – péssimo hábito austríaco – mas a salsicha acompanhada de mostarda apimentada, tradicional aperitivo do país, compensa um pouquinho. Depois de alguns dias na Áustria você acaba se acostumando com o jeito espartano deles de servir os pratos, sem muitas firulas e acompanhamentos. Ótimo para seguir uma dieta enquanto se passeia de férias.
 

 

Na sequência, passei por Kammer, cuja maior atração é o encontro do lago Attersee com o rio que batizou a cidade. Grande visual da ponte que cruza o rio. Aliás como um rio próximo a uma área urbana pode ser tão ridicularmente limpo? A próxima cidade do circuito lacustre chama-se Weyregg, uma das mecas dos praticantes do esqui aquático e do windsurfe na alta temporada. Reune uma das maiores quantidades de hotéis do lago Attersee. A cidade de Steinbach vem em seguida, com sua linda igreja no alto do morro gramado. Aliás, vale muito à pena fazer uma detour aqui, subir a colina de carro por uma estradinha sinuosa e curtir o visual de tirar o folêgo lá de cima, tanto do lago, quanto das montanhas. É muito legal perceber na paisagem a harmonia, o jeito que as cidades da região de Salzkammergut se mesclam com suas pequenas fazendas, sem nos deixar perceber quando termina uma e começa a outra.
 

A outra cidade na rodovia, Weissenbach, chama atenção pela proximidade das altas montanhas, que parecem debruçar-se sobre a rodovia e o lago. Bancos de madeira na beirinha desse último são um convite à comtemplação ou a um namorico de fim-de-tarde. Alguns quilômetros depois, você chega em Unterach, uma vila que se assemelha na verdade a um grande iate clube, tamanha a quantidade de barcos à vela nas docas. Áreas de lazer e parques para crianças espalham-se por toda a margem e o que mais se vê são famílias inteiras – pequenos e adultos – passeando de bicicleta. O quadro todo em minha cabeça simulava um comercial de margarina, de tão perfeito. Será que é muito caro morar aqui? Se tiver um tempinho, pegue uma das ruas que saem da estrada em direção as montanhas, para desfrutar de vistas panorâmicas da região. O pôr-do-sol que assisti em um dos hotéis "abandonados" da cidade acabou se tornando um fecho de ouro para um dia inesquecível.
 


 
Veja aqui fotos em alta resolução de Attersee: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623375106931/
À noite decidi jantar na famosa cidade austríaca de Bad Ischl, outro grande produtor de sal no passado austríaco e reduto da realeza Habsburg. Tanto que o nome do restaurante mais indicado pelos locais chama-se Cafe-Bar Sissy, um lugar bem aconchegante e ricamente decorado, a ponto de te deixar assustado e pensando que vão te tirar as calças. Decidi experimentar um dos pratos típicos austríacos, o Rindsgulasch, feito de carne cozida em um molho de tomate, cebola, gordura animal, páprica, cominho e um pouco de farinha de trigo e creme de leite. O sabor e a quantidade no prato foram ambos ridículos, mas por motivos diferentes: meu lado gourmet saiu satisfeito, mas o estomago saiu roncando e, meu bolso, vazio. O Gulasch foi inventado na Hungria, que fez parte do império (Austro-Húngaro) por muitos séculos. A refeição que fiz aqui acabou me tirando o trauma de comer Gulasch, obtido do tempo que eu trabalhava de estagiário na unidade de fabricação de medidores de energia da General Electric, no Rio. Eles serviam no bandejão uma vez por semana uma massaruca de carne de quarta cheia de nervos, que eles chamavam de Gulasch. O troço era tão horrivel que só de olhar a comida pela primeira vez você pensava: "já pisei nisso, mas nunca comi…" 


 
A partir do século XIX a cidade de Bad Ischl tornou-se um SPA para a realeza e os ricaços de Viena. O imperador Franz Joseph I (o maridão da Elizabeth da Bavaria, a popular Sissi) escolheu o local para construir seu palácio de Verão – Kaiservilla (não tive tempo de visitar, mas os locais dizem que vale à pena) – que ele descrevia como "Paraíso na Terra". Provavelmente não pela paisagem, mas por ser a alcova onde transava com sua amante, Katharina Schratt. Hoje o palácio abriga as descendentes dos Habsburgs – todos de "sangue azul" – que – pasme – têm parentesco com alguns membros da "realeza" brasileira em… Petrópolis! Eu troquei alguns e-mails com um dos "gerentes" da Kaiservilla que não só confirmou essa informação, como me cedeu algumas fotos bacanas do palácio.  Franz Joseph I nunca foi uma unanimidade entre os austríacos. A maioria enxerga nele somente os últimos anos, considerando-o um soberano generoso e benevolente, uma espécie de vovô da nação. Uma minoria mais esclarecida reconhece nele um reacionário sanguinário, que devotou boa parte de sua vida a uma guerra contra a liberdade de religião (ele era católico), além de ser um sujeito mesquinho com um gosto duvidoso em termos de arquitetura. Creio que o fato do tempo de seu governo corresponder ao boom Austríaco em termos econômicos e culturais, mas o seu casamento com a princesa mais linda da Europa na época, deram uma mãozinha a sua popularidade positiva que permanece até os dias de hoje.
 

Continua…

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