Kunsthistorischen Museum, Vienna – Abril de 2009

 
Se você acompanha meu blog com assiduidade sabe que eu tenho uma queda por museus de arte, especialmente os que oferecem um acervo de arte barroca e greco-romana. Visitar o museu de história da arte em Viena, o Kunsthistorischen, levantou a barra de uma tal maneira, que arrisco dizer que dificilmente vou encontrar algo superior em alguma outra parte do planeta. Talvez o Louvre, na França. Além do óbvio apelo das obras que hospeda, o próprio museu é uma atração por dentro e por fora, desde a arquitetura única moldada em arenito e mármore, até os mínimos detalhes assombrosos da decoração interior. Não é à toa que ele receba mais de meio milhão de visitantes todos os anos. Para minha sorte, como me encontrava na Áustria na baixa temporada, praticamente tive o museu só para mim. Construído no século XIX, especificamente com o próposito de concentrar as mais belas obras de arte amealhadas pela disnatia Habsburg, levou 20 anos para ficar pronto. Não ter sido atingido pelo bombardeio aliado durante a segunda grande guerra foi um milagre muito bem-vindo.
 
 
 
O museu tem três pisos que reunem centenas de antiguidades orientais e egípcias, obras greco-romanas, esculturas de diversas eras, artes decorativas, moedas e, naturalmente, um dos maiores acervos de pinturas do mundo, incluindo clássicos de artistas flamencos, holandeses, iatalianos, franceses, alemães, ingleses, espanhóis e, obviamente, austríacos. Eu gastei 3 horas somente no setor de pinturas… Enfim, 12 Euros muito bem gastos para passear em meio ao resultado de 800 anos de obsessão pela arte dos monarcas Hansburgs. Para turismo em Viena, ainda que por somente um dia, mister é visitar esse museu. Se você é um amante de arte como eu, não deixe de dar uma espiada nas fotos do acervo que tirei (link no final desse post). Vai valer à pena o tempo que você vai investir e, de quebra, poder presentear seu computador com um leque de papéis de parede absolutamente formidáveis.
 

 
Entrar no museu pela primeira vez é uma experiência inebriante, quase um sonho, sensação essa ampliada pelo vazio do local. Senti-me como uma criança em uma loja de doces. Nem sabia por onde começar. Logo de cara, você se depara com uma escadaria que te leva à uma imensa escultura grega em mármore de Teseu (o sujeito que matou o Minotauro) baixando o sarrafo em um centauro. À toda volta – paredes e teto – uma magnífica decoração feita de pinturas e esculturas, que de tão formidáveis parecem quase irreais. Acima da escada, pintado no teto, um mega painel multi-colorido criado pelo pintor húngaro Michael Munkácsy que tem nome de enredo de escola de samba: "A Apoteose da Renascença". O conjunto pode ser algo extravagante para especialistas, mas seguramente capaz de mover as lágrimas qualquer pessoa que goste de arte.
 

 
Dentro dos aposentos onde as pinturas encontram-se expostas, espelhos e pequenos objetos de ouro e pedras precisosas, estrategicamente colocados à volta do ambiente, dão um tom mágico à exposição, porém sem ofuscar as obras de arte. Esculturas em miniatura em alto relevo, que parecem brotar das paredes coloridas, adornam cada salão. Poltronas ultra confortáveis, colocadas no centro de algumas exposições, oferecem um descanso ou um lugar para babar enquanto seus olhos se deliciam. Chama atenção tamanha diversidade de pinturas em termos de estilo, origem e tempo. Creio que para um expert em arte tudo parece meio misturadão. Mas como amador simplesmente dei graças à Deus pelo gosto dos imperadores austríacos para montar essa super coleção privada – estilo "um pouquinho de tudo" – ser o mesmo que o meu.
 

 
Agora alguns comentários sobre minhas obras favoritas. Pintado por Allori em 1605, o quadro "Christ with Mary and Martha", mostra duas mulheres salivando em cima de Jesus Cristo. A outra pintura, feita em 1516 por Da Sesto, chama-se "Salome with the Head of John the Baptist" e representa o momento de satisfação de uma Salomé muito parecida com a Jennifer Lopez, ao ter atendido seu capricho de ver a cabeça de João Batista em uma bandeja. Será que ela sabia que estava se metendo com um dos protegidos do Homem? Provavelmente deve estar ardendo no Inferno até hoje… A terceira pintura é o clássico absoluto, presente em 100 em cada 100 livros escolares de história geral, o quadro feito em 1563 por Peter Bruegel, "A Torre de Babel". Para os ateus e os que dormiram nas aulas da catequese, essa imensa torre foi erguida pelos homens com a intenção ambiciosa de tentar alcançar os Céus. Deus ficou muito puto e fez com que os trabalhadores de cada nível da torre falassem uma língua diferente dos outros níveis. A obra virou uma zona (daí a origem da expressão popular) e parou. De acordo com o Antigo Testamento, por causa dessa tentativa infeliz, falamos vários idiomas no planeta.
 
 
A próxima sequência começa com o quadro de d’Arpino feito em 1602: "Perseus Liberates Andromeda". Quem quiser conhecer a história completa dessa façanha heróica assista o filme "Fúria de Titãs" (a versão original é melhor que a atual, mas esta tem efeitos especiais mais espetaculares). O titã Kraken – destruidor de Deuses – que está a ponto de devorar a estonteante princesa Andrômeda é mais modesto na pintura. Creio o pintor deu o monstro para o estagiário concluir… Outra pintura bacana retrata os últimos momentos da imperatriz egípcia Cleópatra, que cometeu suicídio deixando-se picar por uma víbora ao saber da morte de seu amado, o general romano Marco Antônio: "Cleopatra’s Suicide", criada em 1659 por Cagnacci. Destaque também para o lindo quadro de Cortona, "Homecoming of Hagar", pintado em 1637. De acordo com a Bíblia, Sarah, esposa de Abraão permitiu que sua escrava Hagar fosse amante de seu marido. Mas tarde ficou com cíúmes e obrigou Abraão a mandá-la para o deserto. Um anjo ajudou-a a sobreviver. O quadro mostra um suposto feliz retorno de Hagar e reencontro com Abraão que nunca aconteceu.
 
 
O quadro do pintor Floris, feito em 1565, é particularmente perturbador. Um retrato do apocalipse segundo a Bíblia, "The Last Judgement" têm material para gerar pesadelos por semanas: anjos x demônios, almas esperando por seu destino, tintas sombrias, correntes, medo, pedidos de clemência, um desespero só. Já a obra de Giordano, "St. Michael Vanquishing the Devils" de 1664, além de muito bela, proporciona aquela sensação boa de ver o bem massacrando o mal. "Venus and Adonis" (1620) do pintor Janssens apresenta um momento de idílio do famoso casal. Brincando um dia com seu filho Cupido, a deusa do amor feriu o peito em uma de suas flechas. Antes de curá-la, Vênus viu Adônis e se apaixonou pelo humano fortão. Caçador impetuoso, o grego se arriscava demais em suas aventuras e preocupava a deusa enamorada sobremaneira. Ela bem que tentou implorar para que ele tivesse cuidado, mas o retardado acabou sendo ferido mortalmente por um javali. Vênus teve tempo de segurá-lo nos braços antes de seu último suspiro. Para preservar sua memória, criou frutas vemelhas – romãs – a partir das gotas do sangue de Adônis. As frutas são tão energéticas que o rei israelita Salomão costuma tomar uma taça de vinho de romã todos os dias, para dar conta de duas centenas de esposas e concubinas.
 
 
Dentro do museu existem dezenas de retratos da virgem com o menino Jesus. Alguns deles incluem a presença de João Batista como coleguinha de Jesus, outros de José. Meus prediletos: do pintor Maratta, "Maria with Child" (1660) e "Maria with Child and John the Baptist as a Boy" (1704); de Battistello, "Virgin Mary with the Child and St. Anne" (1632); de Mengs,"St. Maria with Child and Two Angels" (1773); uma visão clássica do pintor Rafael, "The Madonna of the Meadow" (1506); de Seghers, "Maria with Child and the Boy John" (1635); de Bronzino, "The Holly Family with St. Anna and the Boy John" (1540); uma pintura bem original de Titian, "Gipsy Madonna" (1510), dando um look cigano para Nossa Senhora; e uma verdadeira obra-prima à luz de uma fogueira do pintor Vermeyen, "Holy Family at the Fire" (1533).
 

 
Os últimos comentários para minhas pinturas favoritas vão para três obras. A primeira, uma pintura de Rafael criada em 1518, "St. Margaret". Um sacerdote pagão forçou Santa Margarida a renegar Deus. Como ela recusou, tornou-se mártir ao ser torturada até a morte. Satanás disfarçado de dragão tentou engolir a alma e o corpo da Santa, mas teve uma bruta indigestão com a cruz que ela carregava. Rafael tentou retratar isso. Alguns historiadores teorizam que Santa Margarida nada mais é que uma versão cristã da deusa pagã da beleza Afrodite. Creio que o pintor faz parte dessa leva, porque ela está smoking hot no retrato. Com todo respeito… O segundo quadro de 1620 representa os famosos anjinhos do pintor Rubens, "The Infant Christ with John the Baptist and Two Angels", dois deles Cristo e João Batista. A terceira e última pintura é uma obra-prima de Rubens, "The Head of Medusa", feita em 1618. Eu já falei alguma coisa sobre a Medusa durante minha entrada nesse blog sobre o Museu de Arte de Girona, na Espanha (veja aqui), mas agora vai a história completa. Medusa era uma humana de incrível beleza, que se orgulhava particularmente de seus cabelos longos e sedosos. Porém a jegue começou a espalhar na cidade que era mais bonita que Minerva. A deusa não levou na esportiva e transformou as lindas madeixa de Medusa em serpentes vivas. Além disso, amaldiçoou a face da modelo de xampú de modo horrivel, de maneira que nenhum ser vivo pudesse olhá-la sem virar pedra. A titã já havia "petrificado" um monte de gente quando foi morta por Perseu, que usou o reflexo da Górgona em seu escudo para matá-la cortando sua cabeça. Curioso para saber porque Perseu fez isso? Não perca o já citado filme "Fúria de Titãs".
 

 
É isso.
 

Veja aqui as quase 150 fotos – imperdíveis e em alta resolução – desse museu vienense de arte. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides.

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