Cruzeiro Krems-Melk, Austria – Abril 2009

 
Você provavelmente se lembra que eu deixei passar um cruzeiro pelo rio Danúbio quando em Viena. A razão? Poder curtir uma outra opção melhor, com paisagens realmente espetaculares. Para tanto, basta fazer uma viagem curta (ida-e-volta) de trem até a cidade de Krems (45 minutos) e escolher uma das inúmeras empresas disponíveis para embarcar para um passeio de meio-dia, ao longo do famoso rio, até a cidade de Melk. A região entre Krems e Melk é considerada patrimônio histórico pela UNESCO. No meu caso, o trecho ferroviário deveria passar sem incidentes, mas houve uma interrupção na linha por conta de uma manutenção, e tive que esperar por uma hora um ônibus na cidade de Tulln an der Donau, a fim de completar o percurso até Krems. Enquanto passeava pela cidade para matar o tempo, encontrei um austríaco que falava português (!?) e que sonhava em ir ao Rio no Carnaval para fazer turismo sexual. How bizarre!
 
 
O preço em média do cruzeiro é de 25 Euros, mas vale cada penny.  Eu escolhi o MS Austria, uma navio confortável e com banheiro limpo. Como viajei fora de temporada, tive espaço suficiente para caminhar pelo convés, sentar-me quando cansado e tirar fotos sem maiores aborrecimentos. Dizem que no Verão (pico em Julho) esses barcos ficam entupidos de gente. O único grande problema desse cruzeiro é o horário: saída às 11:00am, ou seja, todo o passeio acontece quando o sol se encontra a pino, péssimo para fotografias. Se você tiver tempo e disposição, pode fazer o mesmo trajeto do cruzeiro montado em uma bike: existe uma longa ciclovia ao longo das margens do rio. Dá para fazer de carro também, mas preferi gastar esse cartucho mas tarde, em outras partes da Áustria. Não perca os próximos capítulos…
 
 
Depois de navegar alguns minutos nas águas calmas e verdes do charmoso Danúbio Azul, o primeira coisa que chama atenção são os vinhedos que preenchem o sopé das montanhas às margens do rio. Parecem intermináveis, espalhando-se por quilômetros de extensão. A região de Donau vem produzindo vinhos pelos últimos 1,000 anos, ou seja, desde os tempos dos celtas e romanos, graças ao solo de características únicas e às condições climáticas favoráveis ao cultivo. Os vinhos autríacos são predominantemente brancos e outras bebidas derivadas da uva – com diferentes teores alcoólicos – também são manufaturados, tais como: Sturm, Heuriger, Eiswein e Schnaps. Os vinhos clássicos chamam-se Riesling e Grüner Veltliner (o mesmo nome da mais famosa uva branca produzida na região). Os produtores com maior prestígio são Bründlmayer, Eichinger-Allram e Hiedler.
 
 
A primeira grande atração do cruzeiro é a pequena cidade medieval – perfeitamente preservada – de Dürnstein, com destaques para a imensa igreja barroca às Margens do rio (Durnstein Stift) e, bem no alto, para as ruínas do castelo local (Kuenringer), onde o famoso rei inglês Ricardo Coração de Leão foi feito prisioneiro por um ano (1192-3), quando retornava de sua terceira cruzada. Ele viajava incognito por dentro do território austríaco (seu navio naufragou no Mar Mediterrâneo), mas foi burrão ao usar luvas caras, um anel real e gastar muito dinheiro nas tavernas. Os locais avisaram o pessoal do Kuenringer. O castelo pertencia ao Duque Leopoldo V e o cara aproveitou a oportunidade manter cativo um refém tão importante. Ele extorquiu uma baba em resgate dos britânicos. Muita gente na Inglaterra não queria o rei de volta: apesar de grande soldado e homem de Deus, o sujeito era um déspota e um marido questionável (ele era homossexual). Mas o povo acabou sendo sobretaxado e pagaram o resgate. O papa da época, Celestino III, excomungou o duque, mas o esperto austríaco pois a mão na grana assim mesmo.
 

 
Ao longo da costa do rio você pode curtir o visual de uma significativa quantidade de igrejas medievais de diferente tipos e arquitetura. Mais abundantes do que pontes, algumas delas – como a Weissenkirchen em Dürnstein – foram construídas no século XV. Um fato comum entre todas: o posicionamento, sempre em um ponto estrategicamente alto, nas "curvas" do Danúbio. Excelentes pontos para enxergar o inimigo à distância, já que todas foram construídas em pedra para servirem ao duplo propósito: casa para honrar a Deus e fortificação em caso de ataque. Fico imaginando como todo esse cenário deve ser espetacularmente lindo durante o inverno…
 
 
Um pouco mais adiante Dürnstein, depois de passar as cidades de Mitterarnsdorf e de Spitz, o barco passa pelo pequeno vilarejo de Willendorf. Nada de mais aqui, a não ser pela fantástica descoberta arqueológica feita em 1906: uma estátua de uma mulher obesa representando uma entidade divina de fertilidade – a famosa "Vênus de Willendorf" – criada na Idade da Pedra (24,000 anos atrás) e em exposição no Museu de História Natural de Viena. Como o padrão de beleza mudou desde os tempos da caverna, não? Hoje em provavelmente ela iria entupir a maquina de lipoaspiração…
 
 

Na sequência do cruzeiro, bem na margem direita do rio, ficam as ruínas do famoso castelo de Aggstein, construído na beira de um penhasco altíssimo no ano de 1100 por Manegold von Aggstein e melhorado em 1429 por Georg Scheck von Wald, um de seus "gerentes". A princípio seu trabalho consistia em manter o castelo, cuidar das trilhas para o Danúbio e cobrar impostos dos barcos que passavam. Com o tempo se tornou corrupto e ladrão. Impiedoso e de legendária crueldade, obrigava os reféns mantidos na fortaleza a pularem do ponto mas alto da edificação se não recebesse o resgate solicitado dentro do prazo. Graças a sua posição privilegiada, o castelo, durante toda sua existência, nunca foi invadido mas sempre conquistado através de um cerco (que privava seus habitantes de suprimentos). Muitos historiadores o consideram 100% inexpugnável.  De longe a atração mais visitada da região (55,000 turistas por ano), a única maneira de chegar lá em cima: à pé (hiking). 
 

O outro incrível castelo no caminho – Schloss Schonbuhel – domina a paisagem com sua beleza incomum. Foi construído por Marchwardus de Schhoenbuchele no século XII no local onde se encontrava uma antiga fortaleza romana. Passou pela mão de várias famílias nobres ao longo dos anos até se tornar um monastério. Nos anos 40 ficou sob domínio dos nazistas e, ao final da 2a Guerra, com a derrota alemã, com os russos. Em 1955 acabou retornando para a custódia dos descendentes de Schhoenbuchele.

 
 
O ponto alto da viagem acontece em Melk, onde o navio fica parado por 45 minutos antes de voltar para Krems. Acredite: esse tempo não dá para nada… O ideal seriam umas 2 a 3 horas. A pequena cidade de aproximadamente 5,000 pessoas abriga uma das mais impressionantes edificações religiosas que vi em minhas viagens, o monastério barroco Beneditino Stift Melk, um dos mais famosos do mundo. Você leu o clássico "O Nome da Rosa" de Humberto Eco? O ajudante do detetive ganhou um sobrenome "Melk" para homenagear o lugar e sua legendária biblioteca (75,000 volumes). Todo o complexo foi construído em 1809 por um nobre austríaco, mas a igreja principal é mais recente, erguida entre 1702 e 1736. Dura na queda, resistiu às guerras napoleônicas e a ocupação nazista (garantia de ser um alvo para o bombardeiro aliado). Por causa da abadia, a cidade de Melk tornou-se em dos grandes centros culturais da Idade Média e, mas tarde, também durante os tempos da Contra Refoma Protestante.
 
 
Depois da viagem de volta cheguei à Krems com uma fome de leão. A comida do navio era um assalto e decidr guardar barriga para um bom restaurante típico austríaco. Escolhi o restaurante Mörwald que não me deixou na mão. Curioso que, apesar da aparência chique, ambiente sofisticado, comida gourmet e excelente serviço, os preços são extremamente acessíveis. Eu comecei minha refeição com uma entrada tradicionalíssima: salsichas apimentadas com molho de mostarda, ou simplesmente Chili Kasekrainer, acompanhadas de uns pãezinhos deliciosos. Como prato principal, um suculento Schweinemedaillons in Speckmantel Pfeffersauce, medalhões grelhados de lombo de porco enrolados em bacon, regados a um molho apimentado e acompanhados de croquetinhos de batata. Matei quem me matava!
 
 
Depois da lauta refeição decidi passear a pé pela pequena cidade de Krems, antes de pegar o trem e voltar para Viena. Se você não se importa com o montão de turistas circulando (não é o meu caso), vai achar a experiência de caminhar pelo centro histórico desta cidade medieval muito revigorante. O lugarejo é excepcionalmente lindo, cheio de vida, barzinhos, flores, muito verde, pequenos restaurantes típicos, ruelas de paralelepípedo, igrejas, estátuas, tudo de bom. Recomendo que o passeio comece pelo principal portal da cidade, Steiner Tor, junto a uma torre construída no século XV. Dentro da cidade, não se pode deixar de visitar a Piaristenkirche, uma igreja gótica construída em 1014. Para fechar tudo com chave de ouro, não esqueça de parar em uma das inúmeras confeitarias para cair de boca nas tentações doces que só a cozinha austríaca pode oferecer.
 

 
É isso.

 

Veja aqui as quase 200 fotos em alta resolução do meu cruzeiro entre as cidades de Krems e Melk, na Áustria. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides.

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