Viena, Austria – Parte 4/6


A Heldenplatz também conta com dois magníficos monumentos de personagens ilustres da Áustria.
A primeira estátua gigantesca localizada na praça homenageia o príncipe Eugen Von Savoyen, nascido francês mas herói austríaco da guerra contra os invasores turcos (1683–1699).  Rejeitado pelo todo poderoso rei Louis XIV da França (o "figura" autor da frase "O Estado sou Eu", também chamado Rei-Sol) para comandar divisões do exército francês, decidiu servir os Habsburgs. Dedicou-se impecavelmente seis décadas de sua vida a três imperadores e ao povo austríaco, com bravura rivalizada por poucos. Sua fama foi sedimentada na épica Batalha de Zenta em setembro de 1697. Comandando um exército inferior em quantidade e em qualidade técnica, utilizou-se de audácia e astúcia para surpreeender o inimigo enquanto este cruzava um rio. Decidindo atacar mesmo contra as ordens expressas de seus superiores em Viena, com o custo de 500 vidas de soldados austríacos matou mais de 30,000 (você leu bem) inimigos após cercá-los completamente. 10,000 deles morreram afogados no rio, tamanho o terror causado pelo massacre em andamento. Essa vitória garantiu a derrota otomana no coração da civilização ocidental e inaugurou uma nova era de domínio dos Habsburgs na Europa Central. Detalhe: Zenta foi a primeira grande batalha da vida dele (tinha 34 anos quando venceu)… Sem nunca temer expor-se ao perigo das linhas de frente,  liderava e inspirava seus homens em batalha a dar o melhor de si, mesmo contra um inimigo "superior". Graças a ele, durante a Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714), a Áustria e seus aliados – Inglaterra e Holanda – frustraram o plano maquiavélico e megalomaníaco de Louis XIV (o mesmo idiota que o dispensou anos atrás) de unir os reinos da França e Espanha em uma única super-poderosa potência capaz de dominar o mundo (da época). Quando descobriu que ele tinha cruzado os Alpes (como Hanibal, durante as Guerras Púnicas) para supreender o até então imbatível exército francês, o imperador Louis enviou uma mensagem ao seu comandante: "Cuidado: esse homem não se atém as regras da guerra convencional…"
Talvez fosse um filho da puta sortudo, mas o fato é que pouquíssimas vezes foi derrotado e, nesses casos, sempre por conta da incompetência de seus aliados. A ponto de ser considerado por muitos (incluindo Napoleão Bonaparte) como um dos melhores estrategistas militares da história da Europa, seu grande diferencial não tinha a ver com inovação, mas com disciplina, lealdade, honestidade e sua capacidade de fazer uma estrutura inadequada funcionar como um relógio. Certamente seria um grande CEO nos dias de hoje. O grande mistério sobre sua vida é saber como conseguiu tudo isso sendo gay naquela época ultra conservadora. 
 

 
A outra estátua da Heldenplatz homenageia o arquiduque Karl (Erzherzog Karl von Österreich), herói austríaco durante as Guerras Napoleônicas e o mais formidável inimigo de Bonaparte. Se você não desperdiçou a grana dos seus pais dormindo durante as aulas de história do cursinho, sabe que Napoleão veio "lá de baixo", tornou-se um dos heróis da Revolução Francesa – uma resposta à opressão das classes mais baixas da sociedade francesa pela mornarquia. Em seguida, "expandiu" os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade para os países fronteiriços com ajuda de seus exércitos para, finalmente, sacanear todo mundo e auto declarar-se Imperador. O comandante Karl já havia ajudado os Habsburgs a defender seus pescoços (afinal, toda monarca europeu estava com o cú na mão depois da degola de Louis XVI em 1789) durante as batalhas da contra-revolução, mas foi contra Napoleão que ele estabeleceu sua reputação de competência e excelência no campo de batalha. O Duque de Wellington ganhou seu lugar na posteridade ao derrotar o imprevisível e genial general corso, mas Karl foi o responsável por todo o trabalho duro que veio antes da vitória final do inglês. O austríaco enfrentou Napoleão diversas vezes em batalha, mais que qualquer outro comandante. Não apenas uma única vez como Wellington. Muitas delas, com poucos recursos contra um dos melhores militares que o mundo já viu. Não fosse por Karl e seus aliados, Napoleão teria feito um estrago muito maior. O sujeito foi um dos dois grandes espinhos no pé do francês. O outro foi o inglês Almirante Nelson. Mas essa história fica para outro dia…
 

 
O Palácio de Hofburg também foi palco em 1814-15 de um grande momento histórico mundial: o Congresso de Viena. Napoleão havia sido derrotado e as potências vencedoras – Inglaterra, Russia e Áustria – somada à derrotada França, buscavam arrumar a casa depois da bagunça feita pelo aventureiro e déspota esclarecido de Córsega. Dois imperadores, quatro reis, inúmeros príncipes e habilidosos embaixadores – os grandes nomes do continente enfim – se reuniram naquela que foi a mais importante e magnífica assembléia do século XVIII. Tinha tanto VIP envolvido que se um meteorito acertasse o palácio naqueles meses, a estabilidade da Europa iria para o vinagre. Muitos pensam que o Congresso não passou de uma sessão plenária prolongada de corte-e-recorte do mapa da Europa, reservada somente às grandes potências, onde territórios passavam de mão em mão para troca como cartas de Yu-Gi-Oh nas mãos de moleques de 12 anos. Ledo engano. O redesenho do mapa aconteceu de fato, mas depois de séculos de guerras religiosas, da famosa Revolução Francesa (1789) e dos anos de dominação napoleônica, o que todos queriam mesmo era a paz e a volta aos tempos do Antigo Regime, onde a monarquia reinava absoluta ao lado da Igreja. O famoso status quochain of being”. Por isso convidaram também a derrotada França, idéia genial do diplomata austríaco Metternich. Não lograram o segundo objetivo – as revoluções tinha vindo para ficar, mas conseguiram uma paz que durou quase um século, até o início da Primeira Guerra Mundial. O Congresso de Viena acabou tornando-se uma inspiração, primeiro para a Liga das Nações e, mas tarde, para a Nações Unidas. O ato final foi assinado em Junho de 1815, alguns dias depois da segunda e decisiva derrota de Napoleão em Waterloo (durante os procedimentos em Viena ele escapou do exílio na ilha de Elba e tentou retomar o poder).

 

 

 

Depois de tanta história, chegou a hora da bóia. Minha recomendação de restaurante na vizinhança do palácio real é o "buraco" frequentado quase que exclusivamente por locais, chamado Immervoll. Um dos preferidos dos dos vienenses, o Gasthaus Immervoll não parece muito luxuoso, mas cobra muito bem: minha conta saiu por salgados 20 Euros, mais a gorjeta da garçonete – uma loira bem jovem que parecia ter saído da Agência Elite. Já que estava em um restaurante típico austríaco, decidi provar o mais famoso de todos os pratos locais: o Wiener Schnitzel – vitela à milaneza – servido com um pedaço de limão e uma salada fria (!?) de batatas cozidas na manteiga. Muito barulho por nada… (veja as fotos). "Cadê os acompanhamentos?", pensei comigo. Gosto OK. Reza a lenda que o prato foi inventado na Itália e "roubado" pelos Habsburgs (sempre eles) para, mais tarde, ser absorvido pela cultura local. Um aviso: não discuta esse tema (do roubo) com um austríaco ou ele/ela pode se alterar…

 



 

Próximo ao complexo do palácio de Hofburg existem duas igrejas que valem uma visita. A primeira, em frente à entrada principal na praça Michaelerplatz, chama-se Michaelerkirche, uma das mais antigas de Viena. A obra Requiem de Mozart foi executada (a parte que estava pronta, já que ele nunca a concluiu) pela primeira vez nessa igreja, em Dezembro de 1791, durante o memorial service do gênio. Construída no século XIII e frequentada por toda a corte dos Habsburg durante séculos, possui arquitetura neoclássica, romanesca e gótica, além da fantástica escultura de Saint Michael derrotando Lúcifer, logo na entrada. O interior, cheio de afrescos do século XIV e contendo um órgão de madeira trabalhada de 1714, aparenta imerso em fumaça de incenso 24 horas por dia, tamanha a quantidade de missas diárias. Curiosamente, a igreja parece o submarino Seaview do seriado de TV setentista "Viagem ao Fundo do Mar": por fora bem pequena e por dentro realmente imensa. O maior destaque dessa igreja encontra-se no altar principal, uma obra decorativa barroca feita em alto relevo na pedra, das mãos do artista italiano Lorenzo Mattielli em 1782, representando a queda de anjos e querubins do Céu. Meu Deus, que coisa linda!
 

 
A outra igreja, na verdade um dos anexos do Palácio de Hofburg, chama-se Augustinerkirche. Trata-se de uma das mais bem preservadas igrejas góticas do século XIV da Áustria. A capela principal contém urnas de prata que preservam os corações de vários membros da dinastia Habsburg. Creepy. A grande atração daqui é a escultura neo-clássica do italiano Antonio Canova, uma procissão de pessoas tristes e um anjo que parecem reais, de tão perfeitos. As estátuas foram encomendadas pelo marido da princesa Maria Christina, com a finalidade de adornar a tumba dela. Conhecida como Mimi, Christina era a filha favorita da legendária imperatriz austríaca Maria Theresa (as duas faziam aniversário no mesmo dia) e irmã da futura degolada Maria Antonieta, rainha da França. Com sua inteligência e lábia de queridinha da mamãe, venceu séculos de tradição de casamentos arranjados dos Habsburgs e convenceu Maria Theresa a dexá-la escolher seu próprio pretendente. Casou com o homem que amava, sujeito fiel que ficou ao seu lado até a sua morte. Suas irmãs, incluindo Maria Antonieta, nunca a perdoaram por seu sucesso no amor, mesmo depois da morte da mãe.
 


 
Pausa para um café. Os locais recomendam o restaurante Martinjak para se deliciar com a segundo doce mais tradicional da Áustria e muitas vezes servido como prato principal no almoço: o Apfelstrudel. Comer esse petisco morninho com café, em um ambiente tranquilo, com vista para a Ringstrasse através de um janelão, deveria ser um experiência obrigatória para todo turista. Para os que não conhecem, apfelstrudel é um tipo de pão doce de massa muito fina enrolado em camadas e recheado com pedaços de maçã cozida com canela, açúcar, nozes moídas, um tiquinho de rum e passas. Um massa de strudel tem como base farinha de trigo, manteiga e sal, preparada de tal modo que sua espessura deve ser bem fina, a ponto da massa parecer translúcida. Sua popularidade cresceu a partir do século XVIII e a receita mais antiga, guardada na biblioteca nacional, datada de 1696. Esse prato nacional austríaco também possui uma versão recheada de ricota, chamado Topfenstrudel, igualmente apreciado e idolatrado no país. Qualquer padaria ou confeitaria da Áustria oferece as duas variedades de strudel. Caminhando pelas ruas de Viena, volta e meia você se pega surpreeendido pelo cheiro dessa peça divina sendo assada.
 

 
Continuando com a exploração do centro histórico de Viena, um teatro notável da cidade que merece uma visita: o Burgtheater. Construído em 1741 é considerado o segundo teatro mais antigo do mundo ainda em funcionamento, depois do francês Comédie Francaise. O prédio todavia não corresponde ao original, destruído por um bombardeio aliado em 1945, mas uma réplica rigorosamente identica ao primeiro. Todas as peças apresentadas aqui rolam somente em Alemão, com preços camaradas (antre 4 e 44 Euros) apesar do luxo inerente ao lugar. Esse teatro é considerado a "casa" da famosa atriz alemã, Susanne Lothar (mais conhecida por sua interpretação perturbadora da primeira versão do filme cássico Funny Games) e do ator austriaco e "monstro sagrado" Klaus Maria Brandauer, que atuou em êxitos de público tais como Out of AfricaThe Hunt for the Red October, além do clássico de 1981, Mephisto. Depois desse último, a experiência de vender a alma ao Diabo em troca de sucesso nunca mais seria a mesma na telona.
 

 
Outra igreja da região que vale uma visita – Maria Treu Kirche – conta com duas elegantes torres e um esplêndido afresco barroco multi-colorido pintado no teto em 1753 pelo grande artista austríaco Fran Anton Maulbertsch. Construída em 1698 pela ordem Piarista (Order of Poor Clerks Regular of the Mother of God of the Pious Schools), tem como obras notáveis um altar da crucificação datado de 1774, também pintado por Maulbertsch e, na pracinha em frente à igreja, uma majestosa estátua de Nossa Senhora à volta de anjos e santos. O pilar onde se encontra esta última foi erguida para celebrar o fim da epidemia de peste negra que assolou a cidade anos antes, em 1679, matando mais de 30,000 vienenses. Se quiser relaxar depois da visita, um café de mesmo nome, super disputado pelos locais para um papão de fim de tarde, fica bem em frente à saída.



 

Os dois principais museus da cidade parecem edificações gêmeas, posicionados um em frente ao outro, separados por uma praça. Um deles chama-se Kunsthistorisches, o maior museu de arte da cidade e que goza de grande prestígio internacional. De tão importante dedicarei uma entrada neste blog só para ele. O outro, Naturhistorisches, Museu de História Natural de Viena, foi inaugurado em 1889 para promover extensas coleções arqueológicas, antropológicas, zoológicas, geológicas e de mineralogia. Não tive tempo de visitá-lo. Uma pena. No centro da praça existe uma estátua da imperatriz Maria Theresa, grande nome da história Austríaca e a única soberana da dinastia Habsburg. Seu pai, o imperador Charles VI, não deixou herdeiros do sexo masculino, mas teve o cuidado de habilmente mudar uma lei tradicionalíssima que proibia o trono real para uma mulher. Como França e a Prússia desejavam tomar conta do imenso império Habsburgo, encontraram o pretexto perfeito para negar a ratificação de Maria Theresa como imperatriz. Isso levou toda a Europa à Guerra de Sucessão Austríaca, de 1740-48. Nas próprias palavras dela: "eu me encontrei sem dinheiro, sem um exército, sem experiência e conhecimento e, finalmente, sem qualquer conselheiro, já que todos esperavam para ver o que iria acontecer…" Porém, a despeito de todas as dificuldades, Maria conquistou poderosos aliados, como Inglaterra e Holanda (os dois já governados por mulheres) e mobilizou seu próprio povo para suportá-la. Mas como convenceu os húngaros – que faziam parte do império austríaco mas eram católicos demais para admitir uma mulher no poder – foi o seu momento mais espetacular. Ela viajou com seus filhos pequenos – sob imenso risco – até a Hungria e, diante dos nobres mais influentes desse país disse, mostrando suas crianças: "Preciso da sua ajuda para garantir o que é, por direito, deles". Uma lição e inspiração para todos que qualificavam mulheres naquele tempo como "fracas". Não ganhou a guerra, mas manteve a coroa. Sob sua tutela, o Império Austro-Húngaro experimentou um longo reinado (1740-80) de serenidade, riqueza e administração sensível e empática às necessidades do povo, mesmo durante tempos de guerra. Reformou as políticas de Educação (como obrigatoriedade escolar para meninos e meninas) e Saúde, trazendo grandes melhorias para seus súditos. No campo dos direitos civis, baniu a pena de morte do código penal austríaco. Declarou tortura e queima de bruxas procedimentos ilegais. Promoveu sobremaneira cultura e artes. Mozart realizou muitas performances para ela, que o adorava. Morreu em 1780, sem passar o desgosto de ver um de seus treze filhos (quatro morreram crianças), Maria Antoinette, ser guilhotinada durante a Revolução Francesa, em 1793.
 


 
Continua…
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