Viena, Austria – Parte 3/6


Para quem curte como eu o dia a dia de uma família real, nada melhor que visitar o coração do Palácio de Hofburg, o Kaiserappartements, conjunto de aposentos da antiga família real austríaca, e também um museu dedicado a Elisabeth of Bavaria famosa imperatriz da Austria e rainha da Hungria. Além de esposa de Franz Joseph, Elisabeth também era sua prima mais nova. Não fique horrorizado. Como você acha que os Habsburgs se mantiveram no poder por séculos? Sisi, como era chamada carinhosamente por todos desde criança, tornou-se um ícone dentro do Império Austro-Húngaro por súditos que a idolatravam e, mas tarde, por toda a Europa. Porque Sisi tornou-se uma "pop star"? Por sua beleza clássica impressionante, seu bom gosto consistente e invejado ao vestir-se, sua habilidade como amazona, sua fluência em múltiplos idiomas (incluindo grego), pelas poesias que escreveu, por sua não conformidade à esnobe etiqueta da corte Habsburg, sua queda pela causa dos rebeldes húngaros, sua coleção de amantes, sua vitória contra a tuberculose no auge de sua juventude, além de sua trágica morte aos 60 anos, vítima da faca de um assassino anarquista que odiava a realeza. Parece um roteiro ponto para a telona, não? E foi exatamante isso que aconteceu: vários filmes, musicais e peças de teatro produzidos ao longo dos anos. Três filmes produzidos nos anos 50, com a atriz adolescente Romy Schneider, tornaram-se sucessos globais, vistos e revistos até hoje. Eu cheguei a ver um deles na Sessão da Tarde. Deus, como sou velho… Os filmes eram tão cheios de sacarina – estilo conto de fadas, que até hoje o adjetivo sissi nos Estados Unidos qualifica um cara afeminado, covarde ou imaturo.  


O setor de Hofburg que abriga um dos mais prestigiados museus de arte do mundo chama-se Albertina. Conta com uma coleção de um milhão de gravuras, 65,000 aquarelas e 70,000 fotografias, todas obras de valor histórico e cultural inestimáveis. Rascunhos de vários artistas famosos encontram-se armazenados aqui: Dürer, Michelangelo, Rubens, Chagall, Degas, Cezanne, Da Vinci, Picasso, Rembrandt, Renoir, Miró, entre outros. Em 1945, assim como outros prédios históricos de Viena, o Albertina sofreu tanto com os bombardeios aliados, que a reforma durou de 1998 a 2003. Outra coisa legal em visitar o lugar é a exploração dos State Rooms dos Habsburgs, abertos para visitação pública muito recentemente, depois de quase 200 anos fechados. Permita-se pelo menos umas duas horas para visitar o museu.


Em minha opinião a mais impressionante seção do Palácio de Hofburg é o Prunksaal der Osterreichischen Nationalbibliothek, o salão principal (State Hall) da biblioteca imperial austríaca, hoje um museu. Construída em 1723, para mim representa um daqueles lugares que jamais esquecerei: o Prunksaal, que significa "splendor hall" ou salão do esplendor. Mais de 200 mil livros impressos entre 1723 e 1726 são guardados aqui. Estantes de livros em madeira trabalhada erguem-se gigantescas e imponentes entre toda a sorte de um maravilhoso e intenso conjunto de obras de artes decorativas: estátuas e colunas em mármore, escadas em espiral, mapas, pinturas barrocas e globos. Não ficaria triste se o Paraíso possuísse um cantinho desses. Os afrescos no teto – representando metáforas de guerra e paz – têm cores tão vivas, que parecem ter sido pintados ontem. Você fica praticamente sem respirar desde o momento em que pisa no chão de mármore, percorre os 154 metros (ida e volta), até o momento de partir. Alías, será um desafio sair dessa atração, tamanho a capacidade dessa bibloteca de hipnotizar o visitante incauto. Tudo isso por apenas 7 Euros…


 
O complexo Hofburg é tão grande, que existe espaço para estábulos e uma escola de equitação espanhola (!?) de classe mundial, a Spanische Hofreitschule, fundada em 1572 pelo imperador Karl VI, ele mesmo um excepcional cavaleiro. Os Habsburgs utilizavam o lugar não só para procriar cavalos de raça de modo controlado, como para elevar o ato de andar a cavalo a uma forma de arte, através de adestramento. Aqui também é a morada dos legendários animais da raça Lipizzaner, uma mescla de genes árabes, espanhóis e norte-africanos: o melhor do melhor. Vigorosos e, ainda assim, cheios de graça, começam a ser treinados aos três anos de idade. Sua especialidade são saltos e manobras acrobáticas. Durante os séculos de existência da escola, somente homens treinaram os cavalos. Isso mudou somente muito recentemente, em 2008, quando duas garotas – um inglesa e uma austríaca – foram admitidas na escola depois de 436 anos de história sem instrutores do sexo femino. A Spanische Hofreitschule funciona até hoje e, se você tiver bala na agulha, pode pagar entre 25 e 115 Euros para assistir um show de 80 minutos nas galerias que circundam uma imensa arena. O espetáculo envolve cavaleiros e seus cavalos ultra bem treinados (infelizmente não são permitidas fotos ou filmagens durante o show). Mas faça a reserva e compre os tíquetes pelo website com meses de antecedência, já que os lugares são limitados e o show, por ser muito bom, é muito concorrido. Tem turista que vem para Viena só por causa desse show…
 

 
Além de abrigar o setor mais recente a fazer parte do complexo Hofburg, Neue Burg (adicionado a partir de 1881 até 1913) hospeda várias coleções de arte. A mais importante é a do herdeiro direto do trono do império austro-húngaro no fim do século XIX, Arquiduque Franz Ferdinand. Lembra dele? O sujeito não teve uma vida particularmente destacada (exceto por ser um exímio caçador nascido do berço de ouro) para justificar sua inclusão nos livros de História. Porém sua morte o fez. Na época dele, a população da Bosnia & Herzegovina nos Balcãs tinha ódio mortal da ocupação austríaca, especialmente os sérvios que viviam lá e que sonhavam com a independência e anexação à Sérvia. Uma organização terrorista, conhecida como “Mão Negra” foi criada em 1911 pregando a separação, ainda que por violência. No verão de 1914, o arquiduque queria viajar para a Bosnia com a finalidade de trazer a paz para a região e mostrar que faria concessões depois que assumisse o trono. Mas a situação estava tão preta, que o embaixador sérvio em Viena, Ljuba Jovanovic, em 5 de Junho, tentou dar uma “deixa” para o ministro de financas austríaco, Dr. Leon von Bilinski, sobre uma possível tentativa de assassinato: “…algum jovem sérvio pode por uma bala em na arma e atirar…”. Polinsk replicou rindo: “Vamos esperar que nada aconteça…”. E nada foi feito. Ninguém foi avisado. Franz Ferdinand viajou com sua esposa, Sofie, para Saravejo, capital da Bosnia. Durante o passeio de carro pelas ruas da cidade, membros do “Mão Negra” tentaram matar o casal real jogando uma bomba dentro do carro. Ferdinand rebateu-a com as mãos evitando o pior. O arquiduque ainda teve tempo de se recuperar do susto e atender uma recepção em sua homenagem. Mas a tentativa de assassinato causou uma confusão danada e alguém esqueceu de comunicar ao motorista que ele deveria continuar a viagem por uma rota alternativa. Na continuação o carro de sua alteza teve que parar em um ponto do percurso, em frente a uma lanchonete onde um dos conspiradores, um jovem sérvio desiludido com o péssimo desfecho do atentado de poucas horas atrás, comprava um sanduíche. Ele provavelmente mal acreditou na sua “sorte” e calmamente caminhou para o automóvel e matou o casal à queima-roupa, a causa imediata da Primeira Guerra Mundial.
 

File:Gavrilloprincip2.jpg
 

Normalmente o exército austríaco não teria problemas em cuidar dos Sérvios e dar-lhes uma boa lição pelo ocorrido. Contudo, por causa do sistema integrado de alianças existente na Europa da época, uma nação atacando outra desencadearia um efeito cascata, como de fato ocorreu: o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia; a Rússia ao Império Austro-Húngaro; os alemães ficaram automaticamente do lado dos austríacos; os alemães invadiram a neutra Bélgica para alcançar a França; os ingleses decidiram interferir e posar como defensores dos belgas; e… pronto! Merda no ventilador. Por causa de um diplomata austríaco idiota que não soube ler nas entrelinhas, a Europa experimentou quatro anos de uma das maiores tragédias da história da humanidade: onze milhões de pessoas mortas; quatro grandes impérios destruídos; e o fim da  civilização ocidental da época. O mais bizarro é que tão logo a Grande Guerra começou, pessoas em Londres, Paris, Viena, Berlim, multidões celebravam nas ruas (!?), cantando seus respectivos hinos. Todos pensavam que seu país era superior a todos os outros (nacionalismo estúpido), que a guerra duraria apenas algumas semanas graças aos avanços tecnológicos da época e que seria “cool” ver em ação todas as novas armas da 2ª Revolução Industrial espalhando o terror. Não esqueça que, graças ao Congresso de Viena, a remota memória coletiva da última grande guerra – contra Napoleão 100 anos antes – evocava somente cavalos, espadas, heroísmo, glória e aventura. Toda uma geração não tinha a mínima idéia do tamanho do problema no qual se metiam. Ironicamente, o obsceno desperdício de vidas humanas em uma guerra que destruiu a civilização européia, começou como um… Big Game.


 
A última parte do complexo de Hofburg que merece uma menção especial é uma praça. Palco de um momento chave da história européia recente. Em Heldenplatz Hitler anunciou a famigerada Anschluss – a anexação da Áustria à Alemanha para dezena de milhares de vienenses exultantes em 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Você deve se perguntar: como os austríacos, potência européia por tantos séculos, loucamente orgulhosos, concordaram com esse absurdo de ceder sua soberania para outrem? Basicamente por dois motivos. Primeiro, pela esperança de resolver os problemas econômicos. Depois da Primeira Grande Guerra a inflação estava nas alturas e o índice de desemprego também (30% em 1939), impensável depois de séculos de prosperidade e poder. Muito duro no bolso e na auto-estima (já abalada com a recente derrota) do povo. A Áustria parecia sofrer de hidrocefalia: Um cabeção (Viena, com 60 milhões de habitantes) para um corpinho (o resto do país). Além disso, nessa época, Hitler – um austríaco (não sabia disso?) – ainda não era o monstro que viria a se tornar, mas um fantástico gênio salvador-da-pátria que tirou a Alemanha da mesmíssima lama na qual os austríacos se encontravam atolados.  Segundo motivo: por causa da herança cultural compartilhada. Por séculos o Holy Roman Empire tinha como máximas estrelas a atual Áustria e a Alemanha (antiga Prússia) e, mesmo depois da dissolução, os dois países volta e meia eram aliados, inclusive companheiros unha e carne na humilhante derrota que se seguiu à Primeira Guerra. Mesmos inimigos, mesmos ódios, mesmo desejo de vingança (para alguns). A Anchluss permitiu aos austríacos fazer parte de um seleto clubinho que tinha a máquina de combate mais letal do planeta, a qual todo o resto do mundo temia. Hitler soube explorar muito bem esses dois pontos – economia e cultura compartilhada – e através de habilidosas maquinações políticas dentro do coração governamental Austríaco e grana por baixo dos panos para o partido Nazista local, conseguiu criar um ambiente favorável para "invadir pacificamente" a Áustria com sua poderosa Wehrmacht (exército alemão). Depois de declarar a Anchluss, realizou um referendo popular. Sem a mídia (devidamente controlada) e opositores austríacos (presos) que alertariam a população sobre esse grande equívoco, com tropas alemães circulando nos pontos de votação, com o impedimento dos judeus de votarem, o resultado oficial deu mais de 99% de aprovação. Historiadores concordam que o resultado não foi manipulado. Bispos da Igreja Católica discursavam para seus fiéis seu apoio e pediam obediência  à nova instituição. Com exceção do México (!?) todos os países acataram a anexação na boa. De imediato, judeus começaram a ser publicamente humilhados e por vezes atacados nas ruas de Viena. Dos 180 mil judeus austríacos, 55 % (visionários e afortunados) deixaram o país, incluindo todos os seus bens para trás. Apenas o começo do processo de imersão no poço de merda que foi a 2a Guerra Mundial. A mega ação de boas vindas na Heldenplatz, para muitos austríacos contemporâneos, marcou a grande degradação moral da nação.
 

 
Continua… 
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