Viena, Austria – Parte 2/6


Uma vez por ano, acontece no Staatsoper um dos eventos mas internacionalmente badalados da Áustria: o Vienna Opera Ball. Caro, opulento, elitista, ultra-conservador e com cobertura extensiva da imprensa européia, o baile de debutantes (em média 100 casais) atrai gente podre de rica, homens de negócio e políticos (incluindo o presidente da Austria) de todo o mundo. Já mencionei que pobre ou gentalha não pode entrar? Uma festa tão glamurosa em Viena só poderia ter uma trilha sonora: a valsa. Um hit em qualquer festa de debutante que se preza no Brasil, a Valsa Vienense – dança nacional da Áustria por séculos – goza de imensa popularidade no mundo graças às composições de Johann Strauss, especialmente o clássico absoluto Danúbio Azul. Ele compôs mais de 500 valsas e é tão idolatrado em Viena, como Mozart em Salzburg, sua cidade natal. As valsas de Strauss eram consideradas a “Marseillaise do coração”, tamanha a mensagem liberal de seus arranjos. Se você não sabe, os franceses usaram a Marseillaise como símbolo de liberdade e união contra os exércitos invasores de países monarquistas, logo após iniciada a Revolução Francesa (1789). Hoje é o hino da França. Retornando à valsa, ela derivou-se de algumas danças folclóricas alemãs, por volta de 1770. Contudo até o final do século XVIII, a valsa era considerada uma dança demasiadamente indecente para meninas solteiras, sendo reservada para mulheres casadas, mesmo assim do povão. Gradativamente, saiu dos guetos para ganhar os grandes salões de palácios, onde virou mania na época do Congresso de Viena, em 1814, onde se tornou uma dança socialmente respeitável. Veja aqui abaixo um vídeo do Wiener Opernball.
 
                                                        
 
Veja aqui as fotos em alta resolução do Teatro de Ópera de Viena: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622820358927/ 


Não dá para falar de Viena sem mencionar seus famosos Cafés.
A reputação internacional deles, tanto por sua importância social (ponto de encontro de intelectuais), tanto pela qualidade da comida ofertada, vem de muito longe. Segundo reza a lenda, tudo começou em 1683, após a Batalha de Viena, quando os turcos bateram em retirada e deixaram para trás sacos e sacos de café. A Áustria apresentou a bebida para a Europa e pequenos estabelecimentos foram criados para apreciar a bebida junto com um pedaço de torta, uns biscoitinhos ou outras comidinhas leves. Rapidamente tornou-se um hábito sentar-se à mesa de um café vienense com amigos para discutir negócios, política, religião, cultura e outros assuntos polêmicos, ou mesmo para um encontro romântico com o objeto do seu afeto. A maioria dos estabelecimentos proporciona até música ambiente de um piano. Muitos escritores austríacos famosos escreviam suas obras imersos na atmosfera proporcionada pelos cafés. Durante meus passeios pela cidade fiquei impressionado com a imensa quantidade deles, espalhados por toda a cidade e sempre cheios, desde muito cedo pela manhã. Alguns destes Cafés estão entre os mas velhos da Europa. Nos que entrei para experimentar alguma coisa, nunca houve pressão para que eu deixasse o estabelecimento. Porém os garçons e garçonetes, vestidos e agindo como lordes, olham para você – turistão – com um certo desprezo. Para a população local, tomar café – sozinho acompanhado – tem a mesma força da tradição do chá da tarde inglês. O café em si pode ser servido em uma infinidade de misturas a base de leite, água (!?), bebidas alcoólicas, chantilly, canela e baunilha. Vários nomes “sofisticados” utilizados pelas coffee houses mundo afora, nasceram em Viena, tais como mokka e melange. Acompanhando seu café, sempre um copo de água, uma taça pequena de leite e o jornal do dia, tudo servido em uma bandeja de prata.


Entre todos, escolhi o legendário Cafe Sacher para provar a especialidade culinária mais famosa da Viena: a Sachertorte original (existem várias cópias no país, igualmente saborosas). Trata-se de uma delíciosa torta de chocolate amargo e nozes, recheada com geléia de damasco servida com um pouco de chantilly, inventada por Franz Sacher em 1832.  Como é um pouco sequinha, implora um café bem gostoso para acompanhá-la. Sua receita é considerada segredo de Estado, dado o valor atual da marca Sacher. A torta Sacher é exportada para todo o mundo. O estabelecimento em si pode ser considerado uma atração, pois fica localizado dentro de um prédio histórico, o cinco-estrelas Hotel Sacher, fundado em 1876 pelo Sr. Eduard Sacher. Quando ele morreu, assumiu a super confeiteira imperial da corte Habsburg e esposa, Anna Sarcher. Sob a gerência dela o hotel transformou-se em um dos melhores do século XIX em todo o mundo! O lugar também tinha a reputação de hospedar nobres e milionários e suas amantes para encontros furtivos… O Cafe Sacher preserva até hoje a atmosfera da Viena do século passado, incluindo uma coleção de arte do século XIX em meio às paredes. A disputa para entrar no Café é grande e a fila de espera também. Não foi barato: sentado do lado de fora, custou-me oito Euros para saborear esse doce dos deuses com uma xícara de café, porém não deiza de ser uma experiência turística obrigatória.

 

Perto dali encontra-se aquela que representa a alma da cidade e uma de suas maiores atrações turísticas: Stephansdom, a igreja de arquitetura romanesca de 800 anos de idade (!!) que mantém os restos mortais de vários membros da poderosa casa Habsburg, como os do imperador Friedrich III. A Catedral foi restaurada e ampliada ao longo de sua vida, mas destacadamente nos séculos XIV e XV, mas ainda mantém vários componentes originais do século XIII, como o altar e a parte frontal contendo duas torres. Não dá para ignorar esse colosso de 136 metros de altura na paisagem Vienense, não importa onde você se encontre na cidade. Quase um quarto de milhão de pequenos azulejos (formando figuras e diagramas) cobrem o alto telhado da igreja. Uma curiosidade: pelas fotos você vai notar que ela está capenga, pois falta a torre Norte. De acordo com a lenda, o mestre de obras encarregado, Hans Puchsbaum, fez um pacto com o Demônio para ajudá-lo a construir rápido a maravilhosa edificação, mas rompeu o acordo ao pronunciar palavras sagradas durante o trabalho. Belzebu então fez com que ele se atirasse da torre para a morte certa. Como resultado, a torre Norte nunca foi concluída. A estátua mais famosa do exterior da catedral é a de Joahanes Capistrano, triunfante e pisando um invasor turco. Na verdade ele foi um padre que corajosamente pregava contra a invasão turca em 1451 e, para a sorte dele, os turcos perderam.

O interior da igreja mãe da arquediocese de Viena é tão espetacular quanto seu exterior. Existe uma coleção de arte gótica de diferentes séculos, espalhadas dentro da imensa nave, com destaque para: as diversas esculturas de santos; o altar principal, elaborado em 1647 para ilustrar o martírio de Saint Stephen; um púlpito todo esculpido em madeira com figuras ilustres do catolicismo da época; a tumba do imperador Friedrich III; e o Wiener Neustädter Altar, construído em 1447, mostrando cenas da vida de Cristo e sua mãe em alto relevo na madeira. Outras atrações do interior da igreja incluem: a visita à torre (boa visão panorâmica da cidade); o sino (Pummerin Bell) da torre – o maior dos 23 existentes, fundido a partir do material dos canhões dos invasores turcos de 1451; e as catacumbas e os seus ossos de sempre. Embora seja permitido, tirar fotos do interior não deixa de ser uma aventura, dada a muvuca de gente que enche a igreja durante todos os dias (turistas e atendentes das missas celebradas) e quantidade de fumaça de incenso onipresente.



Para os apreciadores da beleza artística e do valor cultural e histórico das igrejas, Viena é um prato cheio por dois motivos. Graças ao êxito do movimento de contra-reforma nos países de língua Alemã, a Igreja Católica não só ratificou seu domínio no império Áustro-Húngaro, como ampliou sua influência através da construção de inúmeras obras suntuosas, com pleno suporte financeira dos poderosos Habsburgs. A segunda razão para se encantar com as igrejas de Viena envolve uma característica austríaca: perfeccionismo. Todos os países que visitei até hoje com grande acervo de igrejas, mantém a maioria delas com uma aparência de "velha" e "gasta". Acredito eu para "valorizar" a História da edificação. Bullshit. Muito mas legal entrar em uma igreja impecavelmente limpa, cuidada e, mas importante, com todas as peças e estrutura impecavelmente restauradas. As igrejas vienenses são tão perfeitas, que o visitante tem a impressão de que ela foi recém-inaugurada, porém com o bônus de que a maioria foi construída nos séculos XVII e XVIII.

A algumas quadras da catedral de Stephansdom encontram-se várias delas: Deutschordenskirche (século XII), Dominikanerkirche (1634), Franziskanerkirche (1603), Annakirche (1634), Kirche am Hof (século XIV), Peterskirche (século XII),  Maria am Gestade (1158) e Ruprechtskirche (século XII). Das que tive tempo de visitar, destaco a igreja barroca Jesuitenkirche, concluída em 1705 das mãos de um arquiteto italiano para a odem jesuíta. Seu interior, opulento, colorido e todo trabalhado, revela a grana que rolou para construir essa homenagem à ascenção de Maria e, naturalmente, para espalhar a mensagem de poder dos Jesuítas como força dominante da época. Outras atrações notáveis da igreja: o domo construído de acordo com a técnica trompe l’oeil (que ilude os olhos para dar um efeito 3D); o órgão; os pilares de mármore em formato espiral; todas as pinturas e estátuas sacras; e as catacumbas.


Andar como um louco em Viena dá uma fome do cão. Nada melhor do que relaxar em um lugar com comida típica boa e barata: um Würstelstand, uma das inúmeras barraquinhas espalhadas pela cidade que vende linguiças, salsichões e cachorro-quente. Malandro, que delícia… Existe tanta variedade de gostusuras fritas ou grelhadas, que se você não faz uma pesquisa prévia, ficará indeciso por um bom tempo na hora de pedir. As mais famosas: frankfurter, salsicha defumada de carne de porco e de gado, consumidas desde a Idade Média; bratwurst, linguiça composta de carne de vitela, porco ou gado e "inventada" por volta do ano 1400 na Alemanha; currywurst; käsekrainer, invenção 100% austríaca que vem com pedaços de queijo em seu interior; e a apimentada debreziner. As bichinhas grelhadas ou fritas (com ou sem mini baguete para fazer hot-dog) geralmente vêm acompanhadas de sauerkraut e mostarda. Alíás, uma das primeiras perguntas que o atendente faz durante o seu pedido é "adocicada (süss) ou apimentada (scharf)?", por causa da mostarda. Para acompanhar tudo isso, os estandes vendem garrafinhas de vinho de mesa, refrigerantes e cervejas alemãs e austríacas geladas. Instituição democrática, würstelstands atende todo tipo de gente na rua e é muito engraçado comer ao lado de um cara de terno e uma garota cheia de piercings e tatuagens.


Um dos complexos arquitetônicos mais fascinantes de Viena, o gigantesco e belíssimo Palácio de Hofburg, abriga um sem número de atrações imperdíveis dentro de seus limites, incluindo biblioteca, residências imperiais, capela, igreja, escola de equitação e sala do tesouro. Os escritórios da presidência da Áustria também ficam por aqui. O complexo nasceu a partir de um pequeno forte mais tarde transformado em palácio e, à medida que o tempo passava, expandido pelos Habsburgs até 1918, quando estes perderam o poder. Os séculos de presença da corte Habsburg causou uma influência profunda em toda a vizinhança, já que todos sempre queriam ficar perto da corte imperial. Por isso, até hoje você encontra as melhores coffee houses, as mais sofisticadas lojas e galerias de arte da cidade aqui. Além da Ringstrasse, essa também é uma excelente área para investir em um passeio de carruagem. Vários museus encontram-se dentro do palácio e, infelizmente, não tive tempo de visitar alguns deles como o Ephesos Museum, dedicado às ruínas de uma importante cidade greco-romana, o Sammlung alter Musikinstrumente, uma grande coleção de instrumentos musicais antigos, a Schatzkammer ou sala do tesouro real, e o Hofjagd- und Rüstkammer, uma coleção de armas e armaduras medievais.


Os dois habitantes mais famosos desse palácio de verão foram os Habsburgs Franz Joseph e sua esposa, a Elisabeth of Bavaria. Franz Joseph governou o Império Austro-Húngaro de 1848 a 1916. Graças a sua formação e experiência miilitar, comandou o país com mão de ferro, um dos últimos monarcas absolutistas da Europa que representavam o Antigo Regime. O bicho era tão ruim que em 1853 escapou com vida de um atentado a faca, onde ficou bastante ferido (pescoço) e perdeu muito sangue. Sob sua batuta, a Áustria também experimentou um boom econômico e cultural, atraindo gente rica e talentos de toda parte do império para Viena, assim como comerciantes de todo o mundo. Um de seus legados mais famosos foi a construção da Ringstrasse em Viena. Em 1898 assistiu sua esposa ser assassinada – ironicamente – por uma faca. Desde então tornou-se uma criatura triste e nunca mais se recuperou do baque. Até o dia da sua morte, aos 86 anos, vivia dizendo que nunca pode dizer a ela como a amava. Dois anos depois, o império Austro-Húngaro chegava ao fim, junto com a Primeira Guerra Mundial, e a era dos Habsburgs se encerrava. Detalhes mais adiante…  

Continua…
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