Viena, Austria – Parte 1/6

 
Tendo em mente o arranjo que fiz com minha esposa para conseguir viajar para a Áustria – nada de gastar muito – e que iria passear mais do que "curtir" as amenidades de um hotel, estabeleci um critério básico para minhas férias: somente hotéis sem frescuras (só para descansar à noite), muito baratos, limpos e com café-da-manhã incluído. Em Viena eu elegi o Hotel Pension Bosch, uma pensão administrada por uma velhinha, o qual recomendo a todos (não a velha, o hotel). O hotel-pensão, categoria bed and breakfast, fica próximo (quatro quadras) das principais atrações turísticas da cidade. Por 35 Euros por dia você pode ter um quarto pequeno com cama de solteiro e banheiro privativo, além de um delicioso café-da-manhã estilo buffet, muitíssimo parecido com aqueles servidos em hotéis em Curitiba: café, suco, chá, pãozinho d’água, frios, geléia, bolos e manteiga. A grande curiosidade acerca do quarto era a privada do banheiro – um standard em toda a Áustria – que tinha uma espécie de ressalto antes do buraco de drenagem. Não sei se os austríacos gostam de conferir sua obra de arte – seu totem – depois de libertar Nelson Mandela, ou se meramente trata-se de um dispositivo para evitar o efeito “splash” da água fria e suja nas nádegas. O fato é que eu não consegui parar de rir quando vi o bagulho pela primeira vez. Deslizar um moreno nunca foi tão divertido!
 
 
Por que comecei por Viena? Ela foi a capital do Holy Roman Empire por oito séculos e do Império Austríaco por mais de um século. Também foco cultural e econômico da Europa Central, posto avançado da civilização ocidental antiga às bordas do Império Otomano, além de casa da poderosa dinastia Habsburg por gerações. Precisa falar mais alguma coisa? Para os amantes da História, Viena é uma cidade embrulhada para presente. Além disso é notavelmente segura – uma façanha para uma cidade de 1.7 milhões de habitantes – e de uma limpeza que beira a assepsia.  Dezenas de museus, jardins de flores por toda a parte, obras arquitetônicas ímpares, igrejas saídas de um sonho, inúmeras atrações turísticas, centenas de cafés, grandes eventos culturais de reputação mundial – de concertos e óperas a festivais de música eletrônica, tudo isso constitui Viena. Last, but not least, a cidade foi palco de boa parte dos filmes clássicos Amadeus (sobre a vida de Mozart) e o ultra romântico Before Sunrise. Para explorar a cidade adequadamente calculo uma estada de no mínimo 5 dias.
 


Passear pela cidade é muito fácil, graças ao sistema de transporte coletivo onipresente, eficiente e barato (e, segundo soube, pesadamente subsidiado pelo governo)! Você pode escolher entre baratos bondes, metrô, ônibus ou aluguel de bicicletas. Bondes. metrô e ônibus circulam com precisão, bem… austríaca! Acho que é o único lugar que visitei no mundo no qual alguns minutinhos de atrasos são anunciados (nos dispositivos digitais que existem em cada ponto) acompanhados de um pedido de desculpas! Alias só alguém muito ignorante se perde na cidade, tamanha a quantidade de informação e mapas bilíngües disponíveis em cada ponto. Você compra os bilhetes em quiosques automáticos e só tem que passar pelo leitor de código de barras dentro do veículo. Não existe trocador, já que tudo é baseado na confiança. Confesso que – chuif… – algumas vezes – gulp! – andei em bondes sem pagar. De fato foram várias vezes. Em múltiplos dias. Com algum remorso. Maldita Lei do Gerson em meu DNA…
 

Outro grande meio de transporte muito usual e democrático na Austria é a bicicleta. Por exemplo, em uma cidade de milhões de habitantes como Viena, elas estão por toda a parte e dividem numa boa o espaço com o trânsito regular de veículos da cidade. Famílias inteiras andando nos corredores de asfalto que correm ao lado das ruas e dos trilhos dos bondes. Bicicletas com assentos para bebês e cestinhas de compras adaptados são muito comuns. Até os sinais de trânsito tem um sinalizador especial para ciclistas. As pessoas deixam suas bikes paradas em lugares específicos – estacionamentos para bicicletas – muitas vezes sem cadeado. Existem estacionamentos como esse até dentro das estações de trem e metrô! Como turista, você pode alugar uma bicicleta em pontos dedicados espalhados pela cidade (assim como em Barcelona), somente com algumas moedas de Euros, para mais tarde devolvê-la em outro ponto da cidade. Se não for de bike, outras alternativas são patins,  segways alugados ou, minha predileta: à pé. Afinal, Viena é uma cidade muito compacta e a maioria dos lugares para se visitar ficam contidos dentro de uma área muito pequena.


 
Outra forma de conhecer um pouco de Vienna é pagando um passeio de carruagem. Se você tiver bala na agulha (pode custar até setenta Euros!) e for um romântico incurável, poderá curtir o caminho mais tradicional dentre todos, equivalente a navegar em uma gôndola em Veneza ou em uma biga de gladiador em Roma (dá-lhe clichezão!): circular a cidade na legendária Ringstrasse, um anel feito de boulevards (avenidas cheia de árvores) que abraçam o centro histórico da cidade. Durante o passeio, um desfile de incontáveis obras gigantescas, detalhadas e meticulosamente limpas, todas de inspiração neo-gótica (de raízes medievais), renascentistas e barrocas, tudo construído a partir da segunda metade do século XIX. A UNESCO considera a Ringstrasse e o centro interior desse círculo patrimônios da humanidade. Encare esse passeio como uma aula de arquitetura e história, só que ao vivo e ao ar livre. Se não quiser pagar a carruagem, dá para curtir de bonde (tram number 1), bem baratinho, mas sem qualquer glamour
 

Eu preferi ler esse livro de história que é Viena com os pés. Cara como eu andei…  Mas valeu totamente à pena a coleção de calos conquistada. Em um país tão moderno e avançado em termos sociais e econômicos, Viena representa o supra-sumo, o padrão absoluto em termos de qualidade de vida. Eu moraria lá fácil, fácil. Ano após ano, Viena se encontra entre as quatro melhores cidades do mundo (ao lado de Genebra, Zurique e Vancouver), de acordo com o ranking da prestigiosa revista “The Economist. O que ela oferece em termos de cultura e lazer para seus habitantes está além de qualquer descrição. Levou apenas alguns poucos dias para me apaixonar. Muitos europeus consideram os vienenses arrogantes, narcisistas e pavões. Dá para culpá-los? Hell no! Deixe-me guiá-lo, caro leitor, pelas ruas dessa maravilhosa cidade que em nenhum momento deixa você esquecer o passado.

 

 

Nosso primeiro ponto de parada, o prédio do Parlamento da Áustria. Eele foi construído em estilo neo-clássico, como um templo greco-romano, provavelmente por causa da representação simbólica da democracia. A construção levou dez anos (1874-84), antes de debutar como a legislatura do Império Austro-Húngaro. A função permaneceu até a proclamação da República, logo após a queda da dinastia Habsburg em 1918, quando o parlamento começou a atuar como poder independente. Durante a Segunda Guerra Mundial metade da obra foi destruída e a reconstrução meticulosa durou até 1956. O parlamento austríaco – ramo legislativo do Governo – se compõe de duas casas compostas por representantes das nove províncias do pais. O Österreichisches Parlament destaca-se como a construção mais imponente da Ringstrasse, com estátuas em mármore de preciosa beleza e riqueza de detalhes (marca registrada de tudo em Viena). Na base da escadaria figuras humanas que representam os mais importantes rios da Áustria, circundando a deusa grega da sabedoria Palas-Athena, filha de Zeus mas sem uma mãe, já que saiu direto da cabeça do rei dos deuses. Pequenas estátuas de cupidos cavalgando golfinhos complementam a decoração. Carroças (quadrigas) guiadas pela deusa grega da vitória Nike, todas em bronze e em alto relevo, decoram a parte superior do "templo".


Depois de agendar pela Internet um horário para uma visita guiada (não há opção para língua portuguesa) e pagar 6.50 euros de entrada, conheci a Wiener Staatsoper, o famoso Teatro de Ópera de Viena, uma das jóias da Ringstrasse. Por fora o prédio de arquitetura neo-renacentista impressiona por sua imponência e beleza – como a maioria das obras arquitetônicas da cidade. Dizem os especialistas que a obra orginal, construída entre 1861-69 e destruída pelo bombardeio aliado durante a 2a Guerra Mundial, desbancava de longe a construção atual. Do original sobrou mesmo duas partes. A frente do teatro, que exibe embaixo de arcos de pedra cinco maravilhosas estátuas em bronze simbolizando heroísmo, drama, amor, fantasia e humor. E, logo na entrada, a soberba escadaria em mármore, toda ornamentada com estátuas que representam as setes artes liberais (como Música e Dança, por exemplo). A reconstrução do restante do prédio terminou em 1955. Deve ter sido mesmo o bicho, porque passear pelo interior do teatro "atual" me deu cãimbra no queixo, tamanho o tempo que fiquei de boca aberta. Prepare-se para gastar uma duas horas só conhecendo a Staatsoper


As  três fotos inferiores: Pintura homenageando a ópera cômica; fonte dedicada à lengendária sereia Lorelei, suportada pelas estátuas que representam a Vingança, o Amor e o Luto; A sala de chá do rei Franz Joseph, que ele e sua comitiva usavam durante os intervalos das apresentações.

Um dos teatros mais disputados do mundo, o Staatsoper permanece ocupado quase que todo o ano, produzindo em média 55 óperas e 200 performances, empregando mais de 1,000 pessoas e gastando aproximadamente 100 milhões de Euros nas produções (50% desse dinheiro, bancado pelo governo). Bate exatamente com a política de incentivo a cultura no Brasil… No auditório cabem mais de 2,000 convidados e todos os assentos têm um visor digital para a passagem de mensagens, letras de músicas, programa e legendas. Cantores de ópera são idolatrados como pop stars e só perdem em popularidade para esquiadores consagrados. Nesse palco, atuaram grandes maestros da legendária e popularíssima Orquestra Filarmônica de Viena, como os austríacos Gustav Mahler e Herbert von Karajan. Este último, membro do partido Nazista e bastante ativo durante a 2a Guerra Mundial, oferecendo performances para os oficiais de Hitler. Hmmm. Perfeccionista insano, disparou uma vez uma de minhas frases favoritas: "Those who have achieved all their aims probably set them too low". 
 

 

Continua…
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