Austria para Principiantes – Abril de 2009

 
Quando minha mulher decidiu gastar três meses de férias no Brasil com minhas filhas, resolvi arriscar: “Posso passar uns dias na Áustria, amor?” Sempre quis conhecer o país. Por causa da imensa herança histórica, da beleza natural potencialmente impressionante e, devo confessar, por causa do filme The Sound of Music (“A Noviça Rebelde”), o qual sou fã incondicional. One of my guilty pleasures. OK, ninguém é perfeito… Para conseguir o alvará da minha mulher, as promessas básicas: nada de se engraçar com as austríacas e controle orçamentário visceral. Sem problemas, honey! Planejei ir na Primavera, baixa temporada – odeio multidão de turistas – visitando Viena primeiro à pé, depois alugando carro para fazer uma road trip pela região dos lagos (Salzkammergut) e finalmente explorando a cidade de Salzburg (à pé) e arredores (de carro) alugado. Tudo saiu de acordo com o planejado e só tive um único dia de garoa em Salzburg. Melhor impossível. O resultado da minha viagem encontra-se espalhado pelas próximas entradas nesse blog.
 
 
Uma das amigas adolescentes de minhas filhas – uma americana que cursa a 8a série no advanced level, tão logo soube da minha viagem para a Áustria desejou-me boa sorte, pedindo que eu tirasse a fotos de alguns cangurus… Pelamordedeus, não pise na bola como essa ianque ignorante: eu visitei a Áustria, não a Austrália! O país fica no centro da Europa, em meio aos Alpes, palco de incontáveis eventos históricos desde os tempos dos celtas, por volta de 788 AD. Um dos países mais ricos do mundo, com uma renda per capita de US $ 43 mil/ano, a Áustria conta também com um alto padrão em termos de qualidade de vida e, ano após ano, garante seu lugar entre os quinze países de maiores índices de desenvolvimento humano. O nome do país (Osterreich) significa "Reino do Leste", traduzido do alemão antigo e, depois de se envolver em tantas guerras ao longo dos séculos (mais detalhes adiante), desde 1955 optou por neutralidade e não possui sequer uma base militar estrangeira em seu território. Sua tradição militar desde então limita-se a participar de forças de paz das Nações Unidas (não fazem parte da OTAN) e de missões humanitarias. A vocação para a diplomacia sedimentou-se durante a Guerra Fria, já que a Áustria localizava-se entre os dois blocos, bem no centro. Pilar da economia austríaca, o setor de serviços tem como notáveis geradores de renda a área de finanças (bancos e investimentos) e naturalmente o turismo (durante todo o ano), que corresponde a aproximadamente 40% do GDP. Em média 20 milhões de pessoas visitam o país alpino todos os anos, o que o coloca na lista seleta dos dez mais visitados no mundo. Os produtos e marcas austríacos mais conhecidos no mundo são o Porsche, a Heineken e o Red Bull.
 
 
Quase a todalidade dos 8.3 milhões de austríacos são brancos. Dá para contar nos dedos os negros (provavelmente turistas) que vi durante minha viagem, mesmo em Viena. Não sei se pintou paranóia de minha parte, mas em algumas partes do interior do país, tive a impressão de que me olhavam torto. Afinal, não deve ser comum por lá esbarrar em um negão de 1,80 m tirando fotos com uma Nikkon nas mãos… Como uma taxa de natalidade de 0.052% ao ano, não precisa ser guru para saber que grande parte de população é de coroas (média nacional de 43 anos de idade). Vi poucas crianças em minhas andanças e as que encontrei tirei fotos. O povo austríaco, em sua maioria, professa o catolicismo como religião (74%), mas não a ponto de ir à missa todos os Domingos: somente 7% da população faz isso contra, por exemplo, 40% da população americana. Essa herança cultural leva o típico austríaco a ser bem família, possuindo hábitos como comer em sua própria casa (sem TV Ligada!) mais que fora. Graças à vocação turística do país, em geral o austríaco é bem bacana com estrangeiros, mas – como todo europeu de língua germânica – um pouco grosso, mas com muita educação. Paradoxal, não? Por exemplo, você pergunta para um pedestre: “o senhor sabe onde fica tal lugar?” Se a pessoa souber inglês (trata-se de uma lenda que todo austríaco fala inglês fluente), pode te responder cravando nos seus olhos “Não” e continuar olhando fixamente para você, calado. Só depois que você se despede ou agradece, ele segue o seu caminho. Levei um tempo para me habituar…  Fora de Viena e Salzburg, no interior do país, eu senti essa frieza e indiferença “light” de forma mais intensa. Como boa parte dos Europeus, austríacos falam o que pensam de forma brutal e honesta. Um contraste com a cultura brasileira. Eu particularmente prefiro assim, um dos motivos que me adaptei tão bem à America, um reflexo da cultura européia. As duas únicas coisas que me aborreceram de verdade: o maldito cigarro; e a porquice no banheiro. O austríaco típico fuma pra cacete (aproximadamente 50% da população) e não tem cerimônia de espalhar o “resíduo do seu prazer” na cara de qualquer um, em qualquer lugar, mesmo em locais públicos. Só faltavam rir na minha cara quando pedia para sentar no setor de não fumantes. Máquinas automáticas para venda de cartelas de cigarro encontram-se espalhadas na cidade. Quanto à má educação no banheiro, basicamente pertence ao sexo masculino e trata-se do mesmo mal que aflige os americanos: eles não lavam a mão depois de mijar ou largar um barro. Como agravante, urinam em qualquer lugar, não necessariamente em um mictório. Tem um arbusto perto, então está tudo bem, não importa se tem criança olhando no parquinho. Pense duas vezes antes de apertar a mão de um austríaco ou de comer um cachorro quente feito por mãos sem luvas…
 

 
A Áustria é um dos países mais seguros do mundo, possuindo uma média de pífios 100 assassinatos por ano.  A honestidade impera e um pacto invisível de honra permeia a sociedade: muitas coisas você leva e deixa o pagamento, como comida, jornais e revistas. Como um todo bem desenvolvido em termos de igualdade e justiça social, a mim me pareceu que a Áustria é um país que só tem classe média, quase socialista. Por exemplo, existe uma lei que protege o emprego de uma mulher grávida por até três anos… A educação – bastante generalista e com foco em humanidades – é gratuita (critério: meritocracia) do primário à faculdade, que o pessoal leva séculos para concluir (media de obtenção da primeira graduação como bacharel: 26 anos). Aposenta-se aqui com 60 anos, ou seja, cedo pra cacete se você é um average joe. A infra-estrutura de saúde pública atende a todos também, sem custo. A população tem acesso a cultura a e arte muito baratos ou grátis, graças ao pesado subsídio do governo. Como contrapartida a carga tributária na Áustria é enorme, comparada a outros países europeus. A reduzida carga horário de trabalho abre as portas para diversas formas de lazer, sendo as prediletas da população local jardinagem (não estou brincando…) e a prática de esportes outdoor, como esqui (na neve e aquático), montanhismo, paragliding, ciclismo, mountain biking, hiking e outros. Obesos você encontra somente em Viena, cidade mais cosmopolita longe das incríveis montanhas, bosques, rios e lagos do país. Alguns detratores dizem que os austríacos têm essa disposição toda por ser uma terra de bebedores de café e Red Bull…
 

 
Outra característica legal do austríaco é sua “cuca fresca” no que se refere ao sexo. Não chega a ser uma nação de nudistas, mas eu vi bastante topless perto dos lagos que visitei (ouvi falar em zonas para banho sem roupa), uma quantidade além da média de lojas de lingerie e sex-shops em Viena e Salzburg, além de anúncios em outdoors comparáveis aos brasileiros, expondo legal tanto a nudez masculina quanto a feminina, sem qualquer pudor. Veja vários exemplos aqui. Demonstrações entusiasmadas de afeto e carinho, incluindo beijos e amassos, são muito comuns, especialmente em Viena. Prostituição não é ilegal, mas reservadas às casas de luz vermelha (Viena também tem um Red Light District). Revistas pornográficas são vendidas sem proteção de plástico nas bancas. A maioria esmagadora das saunas públicas e de spas são unisex. Para fechar com chave de ouro, o termo sado-masoquismo foi “inventado” involuntariamente por um austríaco: o conde Leopold von Sacher-Masoch – renomado escritor e jornalista, cuja amante, a baronesa Bogdanoff, submetia seu pobre nobre amante a torturas psicológicas de forma sistemática e gostava de brincar de sinhazinha e escravo. A relação durou seis meses… Como diria uma famosa personagem feminina de uma obras de Nelson Rodrigues: "Bate! Mas bate gostoso…"
 
 
O idioma oficial da Austria é o alemão. Ô linguinha lazarenta. Quando alguém fala alemão contigo parece que está te dando um esporro. Carlos I, eclético rei espanhol da Idade Média, disse uma vez: "Hablo español con Dios, italiano con las mujeres, frances con los hombres y aleman con mi caballo". Não dá para não concordar com sua alteza. Por exemplo, a mãe (mutter) de um hotentote (membro de uma tribo sul-africana) denomina-se hottentottermutter. Se ela tiver um filho tonto e gago, ele se chama stottertrottel. Em alemão, essa probre mulher é uma hottentottenstottertrottelmutter. Se um assassino (attentater) decidir matar-la, ele será chamado de hottentottenstottertrottelmutterattentater. Caramba! As palavras que mais usei durante minha viagem naturalmente foram Bitte (por favor) e Danke (obrigado), já que os austríacos em geral valorizam muito o respeito e a educação. Porém na maioria das vezes, durante a interação com austríacos, eu finalmente entendi como se sente um americano quando eu, minha esposa e as crianças começamos a falar em Português na frente dele. A paranóia é automática: um pensamento onipresente de que estão falando mal ou sacaneando você na tua cara.
 

 
A cozinha austríaca, pelo menos no que se refere aos pratos salgados, me desapontou. Tudo bem que pode ser culpa de ter experimentados pratos fantásticos ao longo de todas as minhas viagens (show off…) ou pela grande expectativa que tinha pela reputação da comida alemã (cultura de grande influência na Áustria) que comia de vez em quando em Curitiba, mas para mim a comida pareceu ordinária, simples (invariavelmente faltavam acompanhamentos decentes e variados aos pratos principais) e não particularmente saborosa, consistentemente OK. Para piorar, as porções eram servidas sempre em quantidades pouco generosas, um crime para um glutão gourmet como eu. A cozinha austríaca recebeu influência de diferentes estilos culinários e etnias durante o que tempo que dominava o centro e o leste Europeu incluindo, mas não limitada, a culinária húngara, tcheca e italiana. Vamos discutir alguns dos pratos típicos mais famosos da Áustria. Um dos favoritos do imperador Franz Joseph I e considerado um dos pratos nacionais, o Wiener Tafelspitz é um bife cozido temperado com cebolinha, alho poró e pimenta do reino, acompanhado de cenouras e cebolas cozidas. Uma curiosidade: pelas regras de etiqueta da corte, ninguém podia comer mais depois que o imperador parasse de comer (e ele era o primeiro a ser servido). Muita gente devia sair com fome da mesa… Outro prato tradicional é o Sauerkraut, chucrute ou ainda "repolho azedo", traduzindo do alemão. Trata-se de repolho cortado em pedaços, depois fermentado para azedar, que acompanha linguiça, porquinho e outros pratos, e considerado um poderoso afrodisíaco e excelente fonte de vitamina C. Antes do limão ser adotado na dieta dos marinheiros da Idade Moderna para prevenir o escorbuto durante longas viagens, o sauerkraut era a a melhor opção, já que durava uma eternidade sem necessitar de cuidados especiais para conservação. Outro prato muito apreciadona Áustria é o Beuschel, um cozido feito de um picadinho pulmões, traqueia (cartilagem) e algumas veias grandes do coração de um bezerrinho, imersos em um molho de leite azedo, louro, manteiga e salsinha. Os locais juram que se trata de um desses pratos com ingredientes nojentos, mas que no final tem um sabor estupendo. Não arrisquei… Ao longo de outras entradas no blog falarei um pouco mais sobre outros pratos salgados típicos, incluindo as famosas wursts (salsichões e linguiças).
 
 

Agora no que se refere a pães e doces, tudo muda de figura. A cozinha austríaca torna-se referencia mundial tanto em qualidade, quanto em inovação, diversidade e sabor. Rigorosamente em todas as padarias, confeitarias e cafés que visitei, minha personalidade formiga tomava conta e, depois da esbórnia açucarada, saía mais que satisfeita. De tão populares muitos locais comem doces como prato principal em um almoço ou jantar. Acredito que só na Áustria acontece isso… Alguns deles: kaiserschmarrn, o mais legendário dos doces austríacos, basicamente uma omelete doce de passas e um pouquinho de baunilha, polvilhada de açúcar; o marillenknödel, uma espécie de "gnocchi" doce feito de semolina e ricota, recheado com damasco e polvilhado por uma mistura de açúcar, canela e pedacinhos de pão; e os clássicos topfenstrudel (recheio de ricota) e apple strudel (recheio de maçã), que de tão especiais, merecem um destaque mais adiante nesse blog. Não perca os próximos capítulos…


Tortas, bolos e pães doces começaram a ser consumidos na corte austríaca a partir do reinado do Imperador Maximiliano I, por volta de 1500, quando os cozinheiros de sua esposa, Maria de Burgundy, começaram a utilizar açúcar – artigo de ultra-luxo – nas receitas. Até a Idade Moderna a galera usava mel para adoçar. A tradição de comer doces requintados na corte aconteceu mesmo durante o século XIX, onde grandes confeiteiros criaram especialidades que sobreviveram até os dias de hoje. Entre os mais famosos: Sacher, Demel, Malakoff, Dobos e Linzer. Algumas das criações dessa geração de confeiteiros: a linzertorte, feita de nozes e avelãs moídas, depois recheada com geléia de ameixa ou framboesa; topfentascherl, um tipo de folhado recheado com queijo e coberto com açúcar; crèmeschnitte, uma mil folhas de creme extremamente delicada; gugelhupf, um bolo fofo de passas, também coberto com açúcar, que leva um pouco de uma cachaça de cereja; mohnkuchen, um bolo absolutamente delicioso elaborado a partir de sementes de papoula; dobostorte, uma torta húngara feita de pão-de-ló em varias camadas, recheadas com chocolate amanteigado e depois coberta com caramelo; e punschkrapferl, o clássico bolinho austríaco de cobertura açucarada de cor rosa, feito de uma massinha de nozes moídas embebida em rum e recheada com geléia de damasco. O lugar mais espetacular para apreciar todas essas delícias em Viena é a popular cadeia de confeitarias Aida Café-Konditorei, boa e "barata". Como dizemos no Rio, eu vou ti dizer uma coisa pra você: eu experimentei todos e dá para vender os filhos por essas delícias.



É isso.

Veja aqui quase 400 fotos em alta resolução da Áustria. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622864797223/

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