Catalunha, Espanha – Abril de 2009 – Parte 3/4

 

Outra atração imperdível de Girona, o Museu d’Art, localizado no antigo palácio episcopal da cidade (construído no século X), conta com uma das maiores coleções de estátuas de Maria segurando o menino Jesus que já vi em todas minhas viagens. Fundado em 1976, o museu sempre possuiu vocação para a exposição de obras sacras e decorativas, especialmente do período medieval, tiradas por motivo de segurança e conservação das mais belas igrejas da Catalunha. Em alguns casos são as únicas coias que restaram de igrejas destruídas por bombardeios durante a guerra civil espanhola. Para ver com calma a imensa quantidade de peças em estilo romântico, gótico, barroco e renascentista, reserve pelo menos duas horas. 



Quando visitei este museu, além da exposição permanente de peças religiosas, tive o prazer de usufruir de uma exposição temporária chamada "Fascinación por Grecia", um dos meus temas artísticos favoritos. As fantásticas obras – pinturas, esculturas e até propagandas do início do século XX – tinham como tema a cultura bucólica Greco-Romana, incluindo suas famosas divindades, todas elaboradas por artistas catalães. Eu selecionei sete obras como favoritas. De Carbonell i Selva, a pintura Musa calmant la tempesta, de 1881. Espetacular. Aparentemente além de inspirarem artistas, as musas também tinham poderes mutantes de controlar tormentas… A outra pintura, um belo cenário bucólico concluído por Sunyer em 1911, chama-se Pastoral. A próxima não passa de uma propaganda para a Feira Internacional de Arte de 1911 em Barcelona, mas ainda assim muito bonita. A quarta, uma escultura em bronze de Jassans criada em 1983: Medusa, em toda sua beleza, antes de ser castigada por Atenas por ter transado (ou sido estuprada) por Poseidon dentro do templo dedicado à Deusa. Minha quinta obra predileta, uma escultura de 1883 por FabregasGirona –  transmite a emoção do suporte trazido por uma musa ao seu artista às portas da morte. A próxima obra, uma escultura do já citado Poseidon (Netuno, para os romanos), deus dos mares. Por último, a pintura Ganimedes arrabasat per Jupiter en forma d’alga, de Villarestan (1834). Júpiter (ou Zeus, nome grego), o garanhão infiel do Olimpo, gostava de se disfarçar de animais belíssimos para iniciar o processo de sedução de mortais virgens, nesse caso, Ganimedes, um… homem (!?). Não sabia que o poderoso Zeus eram um connoisseur of male beauty e que atrasava o patê de alguns de seus amantes.


Veja aqui fotos em alta resolução do Museu d’Art da cidade de Girona: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622805115270/ 

Os Baños Árabes, outra atração da cidade de Girona, foram construídos em estilo romanesco em 1194 com uma estrutura que imitava as casas de banho público muçulmanas, funcionando como um grande centro de vida social – local de higiene corporal, reunião, descanso e relacionamento – até seu fechamento definitivo no século XV. Na antiga Arábia, esses locais também serviam como pontos de purificação religiosa. Usados tanto por homens e mulheres, a “casa” funcionava em turnos desde a madrugada até as primeiras horas da tarde. Os árabes desenvolveram tecnologia naquela época para aquecer a água e gerar vapores aromáticos – protótipos de nossas saunas atuais. Como toda construção árabe, a decoração é cheia de elementos e formas geométricos. O que mais me impressionou durante a visita foi a iluminação indireta proporcionada pela luz do sol que, através de várias pequenas aberturas em pontos estratégicos, funcionava como focos modernos de luz incandescente. Somado à perfeita ventilação (apesar do calor espanhol animal do lado de fora), a casa de banho proporciona até hoje um ambiente de relaxamento total, paz e tranqüilidade.

 

 

Para completar meu passeio por Girona, almoçei naquele que é considerado pelos locais a comida mais gostosa da cidade: o pequeno restaurante Lloret, longe das armadilhas para turistas do outro lado do rio. O próprio dono me serviu, coordenou a confeccção da minha comida (ainda mais depois que me indentifiquei como brasileiro) e cobrou a conta no final. One-man army. Serviço VIP e comida de primeira. O peixe empanado frito estava pefeito, nem muito gorduroso, nem muito seco. Agora, quanto a paella, foi a melhor que comi em todas as minhas viagens para Espanha nos últimos quatro anos. Incrível. O lugar é um buraco escondido… Verdadeira hidden gem.


 
Veja aqui fotos em alta resolução da cidade catalã de Girona: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622674006463/

A partir de Girona, tomei um ônibus em direção à pequena cidade medieval de Besalu (30 minutos de viagem). Trata-se do povoado que contém o conjunto de arquitetura medieval mais relevante e singular da Catalunha.  A pequena população de duas mil e tantas pessoas dedica-se quase que totalmente ao turismo, aglomerando-se em construções muito antigas, espalhadas por ruelas e becos. Uma enorme muralha de pedra cerca toda a cidade, com exceção da entrada principal, onde um magnífico portão de metal dá de frente para a ponte sobre o rio Fluviá. Da forma com que a fortaleza foi construída, somada a sua localização (150 metros acima do nível do mar), podemos ter uma idéia de como os engenherios responsáveis pelo sistema de defesa foram espertos. De fato, única entrada para a cidade fica restrita a uma passagem de aproximadamente três metros de largura sobre a ponte.
 

Toda primeira semana de Setembro, acontece em Besalu um festival medieval que congrega atrações da época, como luta de espadas, gente trajada com roupas da Idade Média, disputas à cavalo, performances ao ar livre e outras. Apesar de toda a celebração, não podemos esquecer que aqueles tempos eram brutais em termos de qualidade de vida. Morar dentro da cidade era mais seguro do que vagar pelas perigosas estradas da época – terra de ninguém – e certamente ajudava a aumentar a sua expectativa de vida, muito baixa (30 anos), graças à insalubridade e medicina primitiva. Mas ganhar a vida não era mole, se você não fosse comerciante, religioso (católico), agricultor ou mestre artesão, e do sexo masculino. A maioria trabalhava por comida, um teto e roupas. As ruas estreitas se encontravam sempre apinhadas de gente, animais (gado, porcos, galinhas, etc.) e mercadores, gerando um tráfego dolorosamente lento, especialmente porque não havia o conceito de dinheiro e as pessoas arrastavam o "pagamento" (carroças com animais vivos ou grãos) pelas mesmas vias de pedestres. Longas filas e um barulho irritante e constante exigiam uma paciência de um monge tibetano. Tudo isso em meio a condições sanitárias risíveis: esgotos à céu aberto; estábulos descarregando dejetos direto nas ruas, gerando montes de esterco; bacias de água das tinturarias cheias de elementos tóxicos jogados pela janelas e derramados nas ruelas; água potável não potável; além da higiene individual inexistente somado ao completo descuido com a disposição de fezes e urina. Os porcos acabam fazendo papel de "lixeiros", já que todo mundo tinha pelo menos um, fonte barata de alimento. Como não existiam hospitais ou postos de saúde, cidadãos sãos caminhavam entre gente doente, com turbeculose, gripe, parasitas intestinais ou mesmo lepra em estágios iniciais. Partos eram uma aventura mortal, uma verdadeira roleta russa para ambos, mãe e bebê. Havia policiamento nas pequenas cidades medievais como Besalu mas, sem um sistema judiciário formal, as punições eram extremas para reduzir a carga de trabalho. Para ladrões por exemplo, forca ou cegueira. Toque de recolher era regra, normalmente por volta das oito da noite. O grande pavor de todo cidadão medieval além da peste, eram os incêndios, virtualmente incontroláveis tanto por falta de infra-estrutura para apagá-lo rapidamente, como pelo jeito que a cidade era construída: uma armadilha claustrofóbica cercada de pedra. Com uma vida de cão como essa, onde somente gente com vigor e sorte sobrevivia, torna-se perfeitamente explicável como o Cristianismo transformou-se em uma potência feita de milhões de seguidores e a Igreja a maior senhora Feudal da Europa. 

Bem no centro histórico da pequena cidade, encontra-se o Monasterio de Sant Pere de Besalú, construído a partir de 977 por um bispo. A igreja de pedras tem o seu charme graças ao excelente estado de conservação. Muito incomum (e perturbador) são os túmulos que servem como piso no chão. Uma pena que boa parte de seu interior original (incluindo mobiliário, esculturas e pinturas do século XVIII) tenha sido queimada durante um incêndio em 1936, em plena guerra civil espanhola. O que chama atenção dentro do templo são as colunas adornadas no topo com esculturas de temática religiosa, como a fuga do Egito e Herodes sendo aconselhado pelo demônio. Outra igreja medieval famosa da cidade, Sant Vicenç de Besalu, construída em estilo gótico no século XII, vale a visita pela qualidade da conservação de seu interior. A capela da igrejinha é dedicada à Vera Creu (he he), sendo Creu o nome catalão para a cruz sagrada onde foi cucificado Jesus Cristo. 


Monasterio de Sant Pere
 

Iglesia de Sant Vicenç 

 

A qualidade de vida em um monastério medieval era superior à da cidade. Desde que, é claro, você não se importasse em fazer os três votos básicos de pobreza, castidade e obediência. Depois disso, o negócio era conviver com pacientes terminais que viviam lá dentro, acordar cedo, manter silêncio e meditar, ler vorazmente, encarar um regime espartano (muito, mais muito trabalho braçal), suportar a ausência de sexo e dedicar-se 100% à religião. Para se ter alguma educação formal em plena Idade das Trevas, esses monastérios eram a melhor (única?) opção existente. Bem decente até, se você curtisse as idéias de Aristóteles, a "autoridade" científica aceita pela Igreja na época. Essas igrejas fortificadas eram auto suficientes e os monges não precisam sair para quase nada. Dentro dos muros do monastério tinha escola, biblioteca, jardins, pequenas plantações, moinhos, "padarias", oficinas, hospital e lavanderia. Para os que não sabem, os monges faziam o papel de máquinas xerox e impressoras, até então inexistentes: copiavam livros e mais livros, tudo manuscrito. Haja saco…

 

Veja aqui fotos em alta resolução da cidade medieval de Besalu: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622798125010/ 

 

Depois de um dia "cansativo", decidi jantar em Barcelona em um dos restaurantes gourmet mas celebrados pelos locais, o Quo Vadis, tradicionalíssimo e especializado em comida catalã. A entrada mais famosa da casa são as Ancas de Rana, perninhas de rã cozida ao molho. O espanhol que me acompanhou se lambuzou todo e disse que tinha gosto de frango… Tempted! but no, thanks. Preferi comer um bacalhauzinho e umas tortinhas de pêssego maravilhosas como sobremesa. Uma curiosidade. O nome do estabelecimento foi inspirado na famosa passagem a vida de São Pedro, quando fugia de Roma e da crucificação líquida e certa, pelo crime de divulgar os ensinamentos de Cristo. Durante a fuga ele cruza com Jesus ressucitado e, atônito, pergunta "Quo Vadis, Dominu?" (Aonde vais, Senhor?). Cristo responde que vai retornar a Roma e ajudar os cristãos que ele abandonou. Pedro ganha coragem e retorna para, eventualmente, tornar-se um mártir ele mesmo (foi crucificado de cabeça para baixo).

 


 

 

Continua…

 
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