Catalunha, Espanha – Abril de 2009 – Parte 2/4

 

Montserrat também possui um museu de arte onde podem ser encontradas obras de Salvador Dali, el Greco e Pablo Picasso. A coleção de mais de 1,300 peças está divida em seções específicas dedicadas a obras sacras, ilustrações de Santa Maria de Montserrat, jóias e objetos litúrgicos, quadros dos séculos XIII ao XVIII, além de pinturas e esculturas modernas. Uma pena que não admitam fotografias no interior do museu… Contudo, os cinco euros da entrada valem cada centavo. Minhas obras prediletas: Joven Decadente, pintura modernista de Ramon Casas finalizada em 1899 – mostrando uma mulher acabada depois da farra em um baile; San Jeronimo Penitente, criada por Caravaggio em 1606 e mostrando o Santo meditando sobre a fugacidade da vida e o inexorável fim de tudo que é terreno; de El Greco, Santa Magdalena Penitente, criado em 1576, apresentando um retrato singelo da ex-prostituta bíblica; Madeleine – l’absenta – obra-prima de Ramon Casas, pintada em 1892, que retrata a profunda melancolia de uma mulher de sociedade fumando e bebendo sozinha em um bar, esperando algo ou alguém que provavelmente nunca virá; pintada por Daura em 1935, o retrato de uma linda menina: Martha amb vestit groc; e finalmente a obra mais sensual de Casas (sujeito talentoso!): L’hora del bany, de 1895.
 

Meu almoço ocorreu aqui aqui mesmo em Montserrat, no restaurante Restaurante Abat Cisneros. O estabelecimento fica dentro do hotel de mesmo nome. Decidi comer dois pratos ultra típicos da Catalunha. Como entrada fria, a Escalivada, um tipo de salada de tomate, queijo feta, cebola, berinjela e azeitona preta, regada a óleo de oliva, que normalmente acompanha aves, arroz ou peixe. A porção servida, deliciosa porém miserável, deixou-me muito frustrado. O prato principal foi Bacalao a la Llauna, assado no forno com uma tempero a base de vinho branco, muito alho picadinho, pimentão vermelho e óleo de oliva. De sobremesa, um sorvetinho artesanal básico como só os espanhóis sabem fazer. Por Baco!


 
Veja aqui fotos em alta resolução do Monastério Catalão de Montserrat: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622798746786/ 

 

À noite jantei em uma das mais populares franquias de restaurantes (quatro no total) de tapas de Barcelona, a Cerveceria Taller de Tapas. O ambiente é muito romântico e perfeito para casais de solteiros e casados. Quanto ao serviço, muito acima da média espanhola: rápido e cortês, para um lugar que vive cheio. Embora não tenha tido o prazer de apreciar as tapas como um verdadeiro catalão – com cerveja gelada ou vinho – esse blogueiro abstêmio por alcool aproveitou os inúmeras tapas disponíveis, entre elas o espetinho de frango spicy com batatas e os Chorizitos a la Sidra Asturia, linguiçinha de porco ao molho de tomate carregado na pimenta. Como sobremesa, uma gostosa Tarta de Almendras ao molho doce de vinho galiciano.   

 

 

A próxima etapa de meu passeio pela Catalunha aconteceu na cidade de Girona, fundada pelos romanos 79 anos antes de Cristo. Para chegar até aqui basta pegar um confortável trem que sai cedinho de Barcelona. Depois de uma hora de viagem, você pode caminhar por umas oito quadras desde a estação de trens até o centro histórico, às margens do Rio Oñar. Na verdade, boa parte dos quase cem mil habitantes dessa formosa cidadezinha fica praticamente debruçada sobre o rio, em edifícios e casas coloridas em tons pastéis. Passear pelas várias pontes de cruzam o rio configura uma obrigação para qualquer turista que se preze. A única ponte de metal da cidade foi construída por Gustave Eiffel em 1876, o mesmo sujeito que construiu a famosa torre na França, país que fica bem pertinho de Girona. Por causa do rio a cidade ganhou seu nome atual. O nome Girona corresponde ao latim Gerunda (he he) que, por sua vez, significa “entre el Undários”.  Undários era o nome romano do rio Oñar…

 


 

Palco de numerosas guerras européias, sua arquitetura ímpar deriva da influência de seus fundadores, da oligarquia visigótica, de anos de ocupação muçulmana (construtores da imensa muralha de pedra que circunda parte da cidade), do reinado de Carlos Magno, administração espanhola e da grande comunidade judia que viveu aqui desde a Idade Média. Caminhar por entre o labirinto de ruelas medievais, principalmente pela manhã de Sábado, quando existem poucas pessoas nas ruas, proporciona um prazer como poucos. Uma das supresas que tive durante minha caminhada, foi esbarrar com um grupo de cidadãos que buscavam assinaturas para um abaixo assinado: a proibição das touradas na Espanha! Eu não sabia que corridas de touros têm sido por anos difíceis de engolir pelo povo catalão. De todas as províncias, somente Barcelona ainda conta com esse tipo de espetáculo sanguinário, mais brevemente touradas serão banidas da Catalunha, graças a um referendo popular.

 


A Catedral de Santa Maria de Girona, construída em estilo romântico/gótico a partir do século XI para consagrar Nossa Senhora, se localiza no ponto mais alto da cidade. O acesso a essa igreja enorme (uma das maiores do mundo) é feito através de uma longa escadaria que dá para um portão saído do filme clássico “O Nome da Rosa”. Boa parte dos vitrais nas paredes, lindamente trabalhados (arte elaborada no século XVI), conta a história da Virgem Maria. Esse cartão postal de Girona é considerado por especialistas um monumento único na história da arquitetura gótica mundial. O ambiente interno é tão amplo, que se você chegar cedinho, quando não tem praticamente ninguém, o eco dos seus próprios passos é ensurdecedor. O principal item de arte dentro desse colosso, o Tapiz de La Creacíon, figura uma peça ímpar de excepcional qualidade técnica e artística. Trata-se de um tapete de lã multicolorido delicadamente bordado à mão, feito no século XI, que conta a história da criação do Cosmos e da Terra pelas mãos de Deus.

Na parte externa da catedral, encontra-se a estátua em pedra de uma bruxa, o único gárgula de forma humana da construção. Chamada de La Bruja de la Catedral, diz a lenda que era uma feiticeira especializada em magia negra que odiava religião e tinha o costume de atirar pedras na igreja. Alguém lá em cima ficou puto e transformou a velha rancorosa em uma estátua de pedra com um bocão em forma de boneca de sex shop, que ao invés de proferir maldições e insultos, passou a jorrar água limpa de chuva. Como dizem os espanhóis, “no creo en las brujas, pero que las hay, las hay”. Outra atração da igreja é o túmulo todo trabalhado em pedra do bispo Bernardo de Pau. Dentro de um santuário que homenageia a Virgem Maria. Vou para o Inferno por essa insinuação… 

Além da Catedral, Girona possui uma linda igreja construída no século IV – durante os primórdios do Cristianismo – como homenagem a São Narciso e a São Felipe (patronos de Girona), a Esglesia de Sant Feliu. A igreja mais antiga da cidade possui arquitetura gótica com elementos barrocos e romanos. Ela abriga uma nave que é um desbunde de tão bela, incluindo obras sacras (estátuas e pinturas) e vários sarcófagos trabalhos com motivos romanos, incrustados nas paredes do altar maior. A grande atração de Sant Feliu é uma escultura gótica de Cristo, feita pelo artista catalão Aloi de Montbrai, considerada uma das jóias da Catalunha.

Continua…

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