Catalunha, Espanha – Abril de 2009 – Parte 1/4

 

Uma vez mais em Barcelona, decidi explorar parte da região da Catalunha, próxima da fronteira entre a Espanha e a França. Além da língua própria (veja meus comentários aqui) – 98% deles falam espanhol e 78% sabem o Catalão – a região é considerada uma comunidade espanhola autônoma, quase como um “país”. Além da língua diferente, os quase oito milhões de catalães se diferem dos outros espanhóis em vários aspectos, gerando uma rivalidade tremenda que muitas vezes beira o ódio. Um político catalão famoso – Antoni Rovira i Virgili – disse uma vez, "Si usted me pregunta si los catalanes odian a España, le diré que no; si me pregunta si aman a España, le diré que tampoco". Por essas e outras muitos defendem a separação da Espanha, especialmente entre a população de Barcelona. Do ponto de vista dos outros espanhóis, os catalães não são um povo trabalhador (estão acima da média espanhola e européia em termos de hora úteis de trabalho por mês, incluindo mulheres), mas sim belicosos, metidos, orgulhosos, antipáticos, ásperos, egoístas, amigos do lucro e ávaros. Alguns madrilenhos vão além e esquecem as regras de boa educação, chamando o povo da Catalunha de uns nacionalistas radicais, racistas, xenófobos, “separatistas de mierda”, "malditos asquerosos", nazis e outros adjetivos impublicáveis (mesmo no meu blog!). O fato é que os catalães têm uma mágoa muito grande do resto da Espanha, devido ao fato da ditadura de Franco ter proibido a língua por décadas durante a sua ditadura de direita. Muito triste castrar todo um povo por decreto. Particularmente não tenho nada contra eles e fui muito bem recebido em toda a parte, mesmo falando em Espanhol. Não são uns doces, mas nenhum espanhol o é… Em minha opinião, do ponto de vista estritamente lógico, a Catalunha seria uma nação, já que compartilham a mesma língua e cultura. Mas quando se trata de uma rivalidade apaixonada como essa, fica difícil usar argumentos óbvios e reacionais como, por exemplo, a notória superioridade dos cariocas sobre os paulistas, em todos os aspectos…

Os homens catalães têm duas grandes obsessões. A primeira é a atriz e apresentadora local de 31 anos Marta Torné, celebrada por todos com que falei como uma “diosa” que "representa a beleza, inteligência e superioridade cultural da mulher catalã". Hmm, hmm. Já escutei isso antes… Mania em toda a região, a mulher está em toda parte: de capa de revistas à programas de variedade na TV. A segunda grande paixão regional é o futebol. Perdi a conta das vezes que recebi um sorriso e um papo sincero de um desconhecido logo depois de me identificar como brasileiro. A devoção é tamanha pelo esporte inglês, que o maior ídolo da história catalã foi um estrangeiro: o holandês Johan Cruyff. Só porque, como jogador e mas tarde técnico do Barcelona, foi o cara quem mais vezes humilhou várias o ultra rival Real Madrid. Veja que trata-se do mesmo Barcelona que já teve Maradona, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho… Aliás o clássico Barcelona x Real Madrid está mais para Brasil x Argentina, do que para Flamengo x Vasco.   

                          

Cheguei à Catalunha na semana na qual se celebrava o dia de San Jorge (Sant Jordi, em catalão), patrono da região – 23 de Abril. A lenda surgiu aqui. Um dragão ferocíssimo, sanguinário e comedor de gente e animais domésticos assolava os arredores de Montblanc (Tarragona) durante a Idade Média. Seu hálito horrível, envenenava todo a ar a ponto de matar quem o respirava (similar ao bafo da minha cadela, Willow). No início o monstro negociou uma trégua com a população, exigindo duas ovelhas por dia para não comer ninguém. Quando acabaram as ovelhas, o povo prometeu sacrificar uma pessoa, escolhida por sorteio, a cada pôr do sol. Até que a linda e jovem filha do rei tornou-se a bola da vez. Muitos se ofereceram para tomar o lugar dela, mas o rei – consciente dos perigos da exceção às regras para a autoridade soberana – mandou sua menina para a morte certa. No meio do caminho ela encontrou um cavaleiro que surgiu do nada, dizendo-se enviado por Deus para matar a temível fera e livrar a cidade da ditadura da besta.  O que aconteceu depois virou o símbolo que representa São Jorge: armadura, cavalo, lança, confiança, fé, dragão subjugado aos seus pés. O rei quis casar a filha com o galante herói, mas ele recusou dizendo que estava em missão divina. Voltou a desaparecer e nunca mais retornou. 

 

Como São Jorge também patrocina o amor e a cultura, no mesmo dia do santo a tradição dita que o homem deve presentear a amada com rosas, enquanto a mulher entrega um livro para seu ente querido. As principais ruas das cidades catalãs ficam cheias de gente, rolando muita música, perfume, cores e um climão de alegria. O principal calçadão de Barcelona, Las Ramblas, em frente ao hotel no qual me hospedei, encheu-se de barraquinhas de venda de livros e flores. A tradição de presentear com rosas vêm do século XV, mas a de livros, bem mais recente, iniciou-se em 1926 quando o dia do livro foi instaurado na Espanha. Curiosamente, trata-se da mesma data da morte de Shakespeare e Cervantes.

Antes de partir para meu primeiro destino, recebi um convite de amigos madrileños para almoçar tapas (maiores detalhes sobre a história desse prato típico aqui) em um dos restaurantes mais populares de Barcelona, o Restaurante Taxidermista. O nome vem de um monte de troféus de caça – cabeças de animais – penduradas nas paredes. Além da gastronomia diferenciada e do ambiente renascentista (o prédio é de 1850), o lugar é um magneto de gente. Estávamos em cinco e decidimos comer em uma das mesas de fora, na Plaza Reial, uma das mais tradicionais de Barcelona. Comemos no melhor estilo espanhol: diversas tapas diferentes espalhadas pela mesa para que todos compatilhassem enquanto discutíamos política, futebol e outras futilidades. Entre as modalidades que experimentei destaco as seguintes porções: pa amb tomàquet ou pãozinho previamente tostado em rodelas embebido em molho frio de tomate, símbolo da cozinha catalã; patatas bravas, batatas fritas em pedaços com molho apimentado de tomate e maionese; jamon iberico, presunto estilo espanhol; 


 

A riquíssima cozinha catalã baseia-se em uma dieta mediterrânea (montanha e mar), e conta com pratos deliciosos e outros tantos meio esquisitos. Os mais tradicionais: sopa de galets y escudella, uma sopa de macarrão com caldo de carne; calçots, um tipo de cebolinha que se assa na brasa para depois descascar e comer inteira; esqueixada, bacalhau quase cru servido como carpaccio, arrematado com tomate ralado, tiras de cebola, azeitonas e uma dose generosa de óleo de oliva e vinagre balsâmico; coca de recapte, uma espécie de pizza italiana com influência árabe, com recheio de tomate, cebola, berinjela, pimentão, sardinha ou anchova – muito comum em padarias catalãs; xató, uma salada de escarola com tiras de bacalhau cru, azeitonas e um molho especial que mistura tomate, pimenta, alho, amêndoas e avelã; Conill a la xocolata, carne de coelho cozida e depois assada, servida com um molho de… chocolate (!?); e o mais escroto de todos os pratos típicos, o Cap-i-pota,  um cozido a base de molho de tomate, feito de cérebro e pata de cordeiro. Ew
 


 
Além dos chocolates de classe mundial, a Catalunha também proporciona diversas delícias típicas para os formiguinhas ou sweet tooth como eu. Precisaria de páginas e mais páginas desse blog para falar de todas. Ficam, portanto, as mais tradicionais. Pan Fruit Secs, um pão doce de massa fina lotado de frutas cristalizadas por dentro e por fora. Panellets, bolinhos assados feitos de uma mistura de amêndoas moídas, açúcar, batata cozida, ovos e casca de limão ralada. Pastis de Formatge, tortinhas feitas de ricota ou qurijo. Orelletes são uma espécie de massa de pastel de vento frito em formato de uma orelha gigante, polvilhado com açúcar e canela, que os catalãs saboreiam com uma taça de vinho. Porém nenhum deles bate o mais famoso de todos, aquele que todo turista deve levar de volta para casa em sua mala: o torrone ou turrón. Uma fortuna no Brasil mas baratíssimos na Espanha, o torrone não passa de uma massa doce retangular (tabletes) obtida a partir do cozimento de mel, açucar e clara de ovos, incorporando amêndoas tostadas. Simples e mortal, provoca vício imediato. A origem do doce remonta o tempo em que os árabes ocupavam a Catalunha, que a partir do século XVI invadiu a residência de nobres e plebeus. A Espanha, maior produtor mundial, exporta em média 1,5 toneladas todo ano desses maravilhosos tabletes. A melhor marca de torrone existente de acordo com os catalãos é o El Almendro que, irônicamente, tem sede em Madrid.
 


Minha primeira parada no tour pela Catalunha foi o Monastèri Benedictino de Montserrat, a quarenta minutos de trem de minha cidade-base, Barcelona. O imenso complexo do Monastério fica localizado a a mais de 700 metros de altitude, incrustado no maçiço de Montserrat, que significa Monte Serrado. Segundo a lenda, uma imagem de Nossa Senhora foi encontrada em uma das cavernas da montanha (chamada agora de Santa Cova) no ano de 880 por um grupo de pastores, sob uma luz intensa, acompanhada de uma bela melodia. O bispo local, ao saber do ocorrido, solicitou a transferência da estátua para uma das igrejas próximas. Vários homens não conseguiram movê-la por causa do seu peso. O bispo concluiu do fato que a Virgem desejava ser honrada ali mesmo. Por isso nesse local sagrado foi construído o Monastério. A estátua de cor negra da Virgem – que se tornou  patrona da Catalunha – gerou um apelido para a santa: "La Moreneta". Não há nenhum contexto racial, todavía. Ela possui essa cor devido à transformação sofrida pela tinta da pintura original da imagem.
 

 
 
Para chegar aqui você pode optar pelo trem e seu sinuoso caminho, pegar um bondinho, guiar um automóvel ou, se tiver disposição e fé, à pé, subindo 3,5 quilômetros morro acima. Em um dia bonito, sem nuvens, o visual é um dos mais espetaculares que já vi em minhas viagens. Algo do nível das Montanhas Rochosas nos EUA e do Cristo Redentor no Rio. Não importa o ponto de vista: de baixo, a partir da estação de trem, durante a subida ou em vários mirantes do topo. Prepare-se para gastar umas seis horas por aqui, pois há muito o que explorar. O conjunto de edifícios que compõem o Monastério possuem funções distintas: a Basílica, as dependências dos monges e estudantes e seus anexos; mais os prédios destinados a atender peregrinos e visitantes, incluindo o hotel, o museu de arte, restaurantes e gift shops. A Basílica de Montserrat, construída a partir do século XVI, impressiona pela qualidade arquitetônica e pela beleza das estátuas externas em alto relevo de Cristo e seus discípulos.
 


 
O monastério de arquitetura totalmente romana conta atualmente com quase cem monges que seguem o credo São Beneditino, utilizando o local para uma vida de meditação, comtemplação, encontro, oração e, sobretudo, leitura: a biblioteca tem mais de 300,000 volumes! O acervo poderia ser muito maior, mas graças a Napoleão em 1811, boa parte do monastério foi destruída e se perdeu a maior parte do acervo bibliográfico. Além dos monges, o monastério também abriga os cinquenta meninos (9 a 14 anos) que compõem a Escolania de Montserrat, fundada no século XIII e considerada a escola de canto mais antiga do ocidente. Depois de um processo rigoroso de aprovação, custa em média 700 Euros por mês para estudar e viver aqui. As crianças viajam o mundo inteiro para relizar apresentações (o famoso coral de meninos), mas investem boa parte do seu tempo diário em ensaios, além da escola (Middle School). Assisti uma das exibições deles durante a missa e – Deus! – cantam como anjos. Veja aqui abaixo uma amostra. Naturalmente não traduz a onda de emoção gerada por uma apresentação ao vivo.
 
 
 

Continua…

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