Sintra, Portugal – Maio de 2009 – Parte 2/2

 
Em seguida, dirigi-me a outro cartão postal de Sintra. Situado à 500 metros de altitude, o Palácio da Pena foi construído por iniciativa do rei D. Fernando II, a partir dos restos de um mosteiro Jerônimo do século XVI, destruído durante o grande terremoto de 1755. Esse castelo “romântico” que mais parece saído de um conto de fadas, fica no topo de uma das montanhas da serra de Sintra e se destaca na paisagem por diversas razões, entre elas por se encontrar totalmente incrustado em rochedos no meio de uma grande mata, por sua arquitetura exótica (uma mistureba de estilos neo-gótico, neo-islâmico, neo-renascentista e neo-manuelino) e pela variedade de cores extravagantes, pouco usuais para uma obra dessa categoria. Assombra qualquer um pelo estilo e pelo interior, que o transformam num estupendo museu de artes decorativas. O palácio foi erguido em louvor à Nossa Senhora da Pena, daí seu nome. Há apenas uma edificação parecida no mundo, o castelo de Neuschwanstein na Baviera, terra natal do rei Fernando.


Um dos lugares mais bacanas para comer em Sintra segundo locais é o restaurante Tacho Real, uma pequena jóia entre as ruelas inclinadas da vila. O restaurante é relativamente novo – inaugurado em 1986 – mas já conta por vários prêmios ela cozinha portuguesa de qualidade. O grande barato aqui é conseguir uma das oucas mesas que ficam do lado de fora, para completar a experiência. Eu devorei um prato de bacalhau à Gomes de Sá com doses generosas de cebola. A canto saiu meio salgada, mas valeu cada Euro.

À volta do palácio encontra-se o verdejante e fulgente Parque da Pena, que muitos especialistas europeus consideram um “museu botânico”, da a quantidade de espécies que só vivem aqui. De dois quilômetros quadrados, abrange uma flora exótica, bela e, por vezes, bem esquisita, como a Tuia Gigante (Western Red Cedar), com galhos e raízes curvas, como que brotando do chão. Todos os caminhos em meio ao bosque são plenos de pontes, pequenos lagos, fontes, bancos de jardim e mini-grutas. Se tiver disposição, o passeio pode se estender até a Cruz Alta, no ponto mais alto do parque e de Sintra, a 527 metros acima do nível do mar. O tamanho da cruz desaponta, depois de tanto sofrimento subindo ladeira acima a pé, mas o visual panorâmico dali de cima não, especialmente por conta do Oceano Atlântico como pano de fundo.


As famílias reais portuguesas utilizavam o castelo como residência de verão até muito recentemente, em 1908, quando o regicídio de Dom Carlos e do seu filho, príncipe real Luis Felipe, praticamente encerrou a monarquia em Portugal. Ambos foram mortos a bordo da carruagem real em uma rua de Lisboa a tiros de carabina, na frente da rainha consorte Amélia de Orleans, que enfrentou o assassino com um ramo de flores, de pé, gritando: “Infames! Infames!”. Só não morreu também porque o assassino foi abatido logo após o segundo tiro no seu filho. Seus dias de desgosto pós-atentado foram gastos no Palácio da Pena, até a revolução de Outubro de 1910, quando teve que se exilar.

[Regicídio+3.jpg]

Bem no coração da vila se encontra o Palácio Nacional de Sintra, ou Palácio da Vila, construído no século XV como a residência de um governador árabe, e mais tarde adaptado ao estilo medieval-gótico-romântico por Dom João I. Posteriormente o complexo foi ampliado e melhorado por Dom Manuel I e considerado a residência oficial de todas as famílias reais portuguesas (e suas respectivas cortes) durante as férias de verão. Faz sentido a escolha, já que Lisboa é um inferno nessa época e Sintra chega a ser vinte graus mais fria por conta da altitude e do vento. A marca registrada do palácio são as duas colossais chaminés cônicas que saem de sua imensa cozinha. A galera real provavelmente comia como glutões! Ao passear pelos pátios, escadas, corredores e galerias, o visitante vislumbra um interior que remete à decoração usada pelos ultra-ricos dos séculos XVI-XVIII, incluindo porcelanas chinesas, espelhos, tapetes persas ricamente decorados, espelhos, castiçais e as famosas peças artísticas feitas de azulejos hispanos-mouriscos que decoram alguns aposentos, uma das marcas registradas de Portugal.



Outro castelo que visitei em Sintra foi o Palácio da Regaleira e seu jardim, a Quinta da Regaleira. Ele foi construído por um italiano antes de 1697 (não se tem documentação adequada antes desse período) em arquitetura romântica, gótica e renascentista. Uma das atrações do castelo é à descida ao poço iniciático dos maçons, em forma de uma escadaria em espiral, tendo ao fundo uma estrela de oito pontas. A Quinta da Regaleira hospedou por décadas a Maçonaria e os templários Rosa-Cruz. Práticas de alquimia aconteciam com frequencia em seus porões. Não, maçom não é um monte de macarrão. Tampouco maçons comem criancinhas. Trata-se de uma irmandade que cultua o humanismo, acredita na imortalidade da alma, prega a fraternidade, defende a igualdade e pratica filosofia. Nada de planos para dominar o mundo e escravizar sua população. Só não posso contar tudo que vi dentro do Palácio da Regaleira porque tenho medo de morrer…

 

O último castelo que visitei em Sintra foi o Palácio de Monserrate, localizado em um lindo parque de mesmo nome. Construído em 1858 pelo arquiteto inglês James Knowles (nenhum parentesco com a cantora Beyonce), o palácio mouro rodeado por um gramado sem fim, lembra demais um cenário das Mil e Uma Noites, só faltando Sherazade contando as suas histórias. O parque parece outro jardim botânico contendo mais de 2,500 espécies foram importadas pelo inglês. Uma coisas mais legais do parque é uma capela medieval em ruínas totalmente envolvida por uma gigantesca árvore Ficus indiana.


Já discutida em outras entradas do meu blog, a gastronomia Portuguesa é assombrosa, tamanho número de quitutes de revirar os olhos. A região de Sintra, por sua vez, conta com suas próprias delícias.  Entre as mais famosas especialidades gastronômicas estão: o cabrito assado; vitela à sintrense, assada no forno depois de temperada com cravo, cebola, louro, alho e vinho branco; açorda de bacalhau, quase um suflê, cujo segredo está na mistura perfeita de fatias finas de pão, cebola, bacalhau desfiado e ovos; o leitão assado de negrais; a carne de porco às mercês, frita em cubinhos depois de temperada com limão, alho, louro e salsa; pasteis regionais chamados "travesseiros", massa folhada polvilhada com açúcar e enrolada em um recheio de doce de ovos e castanhas, que deve ser saboreado quentinho. Porém nada se compara às legendárias queijadas de Sintra – uma combinação mágica de queijo, gema de ovo, coco ralado e canela, vendidas em pacotes cilíndricos que mais parecem aquelas velhas embalagens de serpentinas. Eu perdi a conta da quantidade de queijadinhas que eu comi… Impossível comer uma só!



Descendo em direção ao litoral, buscava um pôr-do-sol para fechar um dos meus dias com chave de ouro. A aldeia de Azenhas do Mar cumpriu a tarefa com nota máxima!  Um dos lugares mais pitorescos que já visitei. Todas as casinhas brancas parecem amontoadas, construídas em uma encosta de dezenas de metros de altura que acaba bruscamente no mar. No sopé da barreira de pedra, uma piscina oceânica natural escavada nas rochas, que propicia um espetáculo à parte quando as ondas batem. Com tudo isso os 800 habitantes devem se sentir uns privilegiados. Tirar as fotos dessa maravilha também foi um desafio perigoso, já que o mirante adjacente, situado na beira de um precipício, estava interditado por conta de desmoronamentos constantes e imprevisíveis, segundo os locais. Esse destemido blogueiro ignorou os avisos e – cagando nas calças, subiu no mirante inclinado, cheio de rachaduras, para tirar algumas fotos inesquecíveis.


É isso.

Veja aqui as mais de de 400 fotos em alta resolução da região de Sintra. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622521651509/

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