Sintra, Portugal – Maio de 2009 – Parte 1/2

 
Mais uma vez de volta a Portugal. Como já conhecia Lisboa e a cidade do Porto, decidi gastar uns dias fazendo uma road trip pela região de Sintra. Aluguei um carro, escolhi como base um hotel bem baratinho em Lisboa e comecei meu passeio rumando cedo para Cascais, uma vila de menos de 34 mil habitantes a alguns minutos de Lisboa e colada com o mar. Passear em meio às duas marinas é a melhor maneira de conhecer esse centro turístico, conhecido no passado pela importância militar (defesa, até o século XIX) e comercial (navegação). A Marina de Cascais, um conhecido ponto de partida de eventos internacionais da vela, pela manhã, parece um sonho de menino, cheio de barcos e lanchas prontos para navegar. Vez por outra aparecem golfinhos nadando tranqüilos entre as embarcações, segundo os pescadores de fim-de-semana com quem falei. O forte construído em pedra junto à marina chama a atenção pela altura das muralhas que envolvem o parque Marechal Carmona. O Casino de Estoril, famoso pelos seus espetáculos e pela celebração de reveillons, fica bem próximo de Cascais.


Em seguida, dirigi-me a um local próximo da vila chamado Boca do Inferno, um conjunto de rochas carbonatadas (seja lá o que for isso) de formato de arco que, em época de ressaca, geram um esporro do cão todas as vezes que as ondas batem. No passado (geologicamente falando: milhares de anos atrás) provavelmente era uma gruta que desmoronou devido à ação impiedosa do mar. Por ser um lugar atraente e perigoso, volta e meio existem pessoas escolhendo a falésia como palco para se matar. Veja o trecho de uma carta do inglês Aleister Crowley para sua amada, antes de um suposto suicídio no local: "Não posso viver sem ti. A outra “Boca do Infierno” apanhar-me-á – não será tão quente como a tua." Por conta da atração que a Boca do Inferno tem por esse tipo de atividade pouco ortodoxa, os portugueses estão pensando em organizar aqui o primeiro campeonato mundial de suicídio ornamental (embora seja difícil para o campeão tentar o bi…)

 

                          

Ao lado da entrada para a Boca do Inferno fica um dos mais tradicionais (30 anos no mercado) e melhores restaurantes de frutos do mar de Portugal: o Restaurante Mar do Inferno. O segredo está na oferta de peixes, crustáceos, mariscos e outras delícias frescas. A entrada da cozinha parece uma peixaria e você pode escolher ali o que vai comer. A esplanada tem uma vista muito legal da Boca do Inferno e do litoral de Cascais, mas fica cheio muito rápido, principalmente no horário que o sol se põe. O sabor do resultado final dos pratos é bem superior que a média de restaurantes desse tipo, justamente porque os ingredientes são frescos. Eu encarei um delicioso linguado grelhado com batatas.


Mas adiante, descendo a rodovia costeira, encontra-se uma das praias mais famosas da região e a favorita do Guga: a Praia do Guincho. São centenas de metros de areias brancas e algumas dunas, grande ponto para surfe, body boarding, kitesurf e windsurf de Portugal devido as altas ondas e forte vento, o que torna um local um desafio para praticantes. As violentas correntezas a uma certa distância da praia impedem que o local seja lá muito propício para um banho inocente de mar (exceto em algumas épocas do ano) e o vento, que não dá trégua, também pode ser um pouco chato, especialmente se você não gosta de correr atrás da barraca de praia. O Guincho conta com uma boa infra-estrutura para os visitantes, como banheiros, bebedouros e espaçosos estacionamentos, tudo gratuito. À noite a vida noturna é intensa, pois a orla é plena de bares e restaurantes, dentre os mais badalados do litoral de Portugal.

 

Seguindo o litoral rumo ao Norte, saí da estrada principal rumo ao Cabo da Roca, o ponto mais ocidental do continente europeu: Latitude, 38º47’ Norte; Longitude, 9º30’ Oeste. Trata-se de um conjunto de penhascos impressionantes por sua beleza e um tanto assustadores pela profundidade – 140 metros – acima do nível do mar. Desaconselhável para os que têm medo de altura. Aqui nestas paragens cresce uma das flores mais raras do mundo, a Armeria Pseudarmeria. O famoso poeta caolho português, Luis de Camões, escreveu em sua obra prima, Os Lusíadas, que o Cabo da Roca era o local “onde a terra se acaba e o mar começa”. Como cheguei bem cedinho, consegui pular a cerca de segurança que circunda o mirante sem ser incomodado e tirar umas fotos espetaculares. Pensando bem, não faria de novo. Puro impulso irracional. Não me admira que a essa visão espetacular do Atlântico – a última fronteira – tenha catapultado tanta gente em busca do desconhecido. Sentimento perfeitamente explicado no poema de Fernando Pessoa, Navegar é preciso. Viver não é preciso, que inspirou o título desse blog.


Retomei a estrada e rumei para uma praia muito freqüentada pelos locais, a Praia da Adraga, uma pequena faixa de areia fofas de 400 metros e mar bravio, circundada por rochas de formatos curiosos, uma delas parecendo uma caverna. Diz a lenda que tritões (criaturas meio homem, mei peixe) de Atlântida vez por outra aparecem nessa praia com o propósito de fecundar virgens incautas, distraindo-as com suas canções. Hmm, não vi nenhuma pegação enquanto estive lá. Talvez porque encontrar virgens hoje em dia é uma tarefa que beira o impossível, mesmo para um semi-deus. Chegar até a praia é uma aventura, já que a estrada morro abaixo é bastante sinuosa e, bem próximo ao destino, só dá para passar um carro de cada vez. O estacionamento para a praia é minúsculo, ou seja, uma verdadeira loteria encontrar uma vaga por aqui. De fato, esse destino turístico deve ser um inferno na alta temporada…

Saindo do litoral subi a Serra de Sintra, rumo ao mosteiro de São Saturnino e a Capela de Nossa Senhora da Penha, mas conhecido como Santuário da Peninha. A caepla fica no topo de um monte agreste e em meio aos rochedos, a 491 metros acima do nível do mar, o que proporciona um impressionante panorama tipo ninho de águia de algumas praias da região de Cascais e Sintra, além do Cabo da Roca e seu farol. O contraste entre a paisagem esplendorosa e a simplicidade da capela feita de pedras só aumenta o sentimento glorioso de estar diante de tamanha vastidão. Todo o clima de isolamento foi quebrado quando circundei a capela e escutei uns ruídos estranhos – um casal transando em um cantinho. Prestando atenção sem me revelar, escutei o cara perguntando à menina: “Ô Maria estás a gozar?”. E ela respondeu: “Não, Manoel, estou levando a sério…


Seguindo uma estrada sinuosa em meio ao Parque Nacional de Sintra, encontrei o remoto Convento dos Capuchos da Serra de Sintra. Ele foi construído por D. Álvaro de Castro em 1560, cumrprindo um voto de seu pai e vice-rei da índia, D. João de Castro, que uma vez perdido em meio a floresta durante uma caçada, recebeu uma visita da Virgem Maria dizendo que ele deveria construir um local santificado ali. Vivendo uma vida sem qualquer luxo, muita auto penitência e sob uma disciplina espartana, diversas comunidades de frades franciscanos curtiram a sua religiosidade em meios a construções feitas de pedra, onde o conceito de pobreza foi levado ao limite. Muitos dos quartos (chamados "celas") pareciam alojamentos Klingon. Não há qualquer decoração ou um mínimo de conforto. Todas as portas são pequenas em altura, de modo a fazer com que os fiéis se curvassem ao entrar (uma lição de humildade, eu suponho…). A arquitetura singela e minimalista está refletida em tudo, mesmo no mini-refeitório e na igrejinha, cujo teto tem formato de abóbada feita da própria rocha, junto com o altar em mármore. O claustro como um todo justifica plenamente o radical emprestado para a palavra claustrofobia. Todos os compartimentos são apertados, frios, pé direito baixo, enfim angustiantes. Se estivesse tocando Damien Rice durante a visita eu me matava, tamanha a depressão inerente ao lugar. Não me admira que muitos jovens franciscanos tenha fugido do local por não segurarem a barra.


 

Finalmente cheguei ao coração de minha road trip: a vila de Sintra que tem uma população de apenas 20 mil almas, mais que quase dobra a cada temporada dada a quantidade de turistas de todo o mundo circulando. Tudo começou aqui com um templo dedicado à lua, erguido pelos Celtas em 308 A.C. Na língua deles, a Lua chamava-se “Cynthia”. Mas tarde os árabes dominaram a região, mas não sabiam pronunciar alguns fonemas da palavra e terminaram usando os nomes “Chintra”. Daí para Sintra foi um pulo. Graças aos anos de ocupação romana, influência árabe, espanhola e por sua identidade portuguesa, Sintra é única em sua oferta de belíssimos palácios, conventos, hortos, bosques, parques, tudo em meio à serra. Por conta de sua beleza ímpar, Sintra foi freqüentemente escolhida pela aristocracia de várias gerações para aqui instalarem seus palácios e mansões, dentro de suas respectivas quintas (um quinto de todo terreno pertencia à coroa portuguesa, daí o nome). A região foi classificada como patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO em 1995.


Infelizmente, em 1348 a região de Sintra foi um dos palcos de uma das maiores catástrofe já experimentadas pela humanidade: a Peste Negra, que no século XIV eliminou um quarto da população européia. A maioria dos historiadores e cientistas atuais acredita na teroria de em uma grande pandemia de peste bubônica, transmitida por uma bactéria que vivia nas pulgas que infestavam ratazanas negras. Pessoas morriam em quantidade tão grande, que não dava tempo para enterrá-las individualmente. Uma vez infectada, a vítima morria entre 2 e 6 meses, uma morte lenta e dolorosa, plena de dores de cabeça, náusea e vômito, que deixava o corpo deformado devido a imensas pústulas que cobriam a pele. Pus e sangue vazavam delas até que se tornavam negras devido à gangrena localizada, daí o nome da peste. Não vai comer mais nada hoje, né? Sorry about that. Condições sociais e econômicas da Europa período 1348-50 – guerra, fome e clima – definitivamente ajudaram a alastrar a peste. A grande vilã era a má nutrição, que deixava o organismo demasiadamente fraco para lutar contra tão formidável inimigo. Se a Peste de fato é um dos quatro cavaleiros do Apocalipse, não quero conhecer os outros três… Outra ironia da época aconteceu quando da perseguição e matança de gatos nos primeiros anos da praga: os bichanos eram associados à bruxaria e ao mau agouro. Mal sabiam os Europeus que exterminavam os maiores predadores potenciais das ratazanas…

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Voltemos ao turismo em Sintra. A primeira grande atração fica isolada no cume de uma das montanhas da vila, o Castelo dos Mouros, também conhecido como Castelo de Sintra. O castelo em si não existe mais, cortesia do grande terremoto de 1755 e do abandono. Permanecem somente as sensacionais muralhas de rocha construídas pelos árabes no século VIII, imponentes como uma coroa de pedras que se ergue da floresta. Uma verdadeira miniatura da muralha da China. À luz do entardecer, nem fotos, nem mesmo mil palavras poderiam descrever esse incrível cenário. O complexo também impressiona pela sua localização estratégica, tipo visão 360 graus de longo alcance de um thundercat até o mar. O clima medieval é tão onipresente, que se eu tivesse 12 anos e todos meus amigos dos anos oitenta comigo, seria o melhor lugar para brincar de todos os tempos. O clímax do passeio é chegar na Torre Real, a mais alta de todas, depois de vencer uma escadaria de 500 degraus. De fato quando estava no topo da muralha, cheguei a enxergar dois ou três dezenas de Orcs se preparando para invadir o castelo. Daí eu puxei meu sabre de luz e gritei: “FREEEDOOOOOOM”. Ok, ok, prometo largar a maconha…


Continua…

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