Trinidad & Tobago – Maio de 2009 – Parte 2/2

 
Toda essa vida dura me deu uma fome de cão. Então, nada melhor do que pedir uma recomendação de um dos locais para comer muito, gostoso e barato. Minha estratégia nunca falhou em todas essas minhas viagens: "Onde você levaria sua família para comer?", pergunto sempre. Aqui em Tobago a grande dica foi o restaurante de fundo de quintal e com o nome "originalíssimo" Tobago Grillers, logo na saída de Bucco Bay. Por apenas US $ 5 eu comi um marmitão de pedaços grelhados de carne, frango e porco, regado a um molho branco muito picante à base de alho e acompanhado de batatas e salada. Malandro, tava bom pacas! Quisera poder replicar esse molho aqui nos EUA. O único problema: não dá para rolar beijinho na amada pelos menos umas 48 horas depois da refeição, principalmente se você é um daqueles tipos que não floss depois do almoço.
 
 
Seguindo em direção ao norte da ilha de Tobago, encontra-se Mt. Ivirne Bay, baía formada por uma série de praias bonitas e de águas claras, muito frequentada por nativos e turistas. A região costumava ser uma grande plantation no passado e hoje, a metade do outro lado da estrada transformou-se no melhor campo de golfe da ilha, pertencente ao Mount Irvine Bay Hotel & Golf Club. Segundo especilistas em culinária, os melhores bake ‘n’ shark do mundo são servidos nas barraquinhas ao longo dessas praias. Infelizmente, eu estava estufado de carne e não pude comprovar. Como Tobago não tem um sistema público de transporte, o pessoal chega aqui de carro, de ônibus alugados (parece mais com ferro-velho) e… pegando carona! Sim, hitchhiking é muito comum na ilha embora o bom senso não recomende. Locais pedem carona até para ir trabalhar na capital Scarborough.
 

 
Continuando minha exploração, levei uns 30 minutos, mesmo com um mapa atualizado em mãos, para achar a praia deserta de Back Bay. Saindo da estrada principal existe um caminho estreito de terra batida e cheia de buracos que leva a segunda praia mais bonita de Tobago (a primeira é Pigeon Point, claro!). Definitivamente, não dá para chegar nela com um carro comum depois de um período de chuva. As praias dessa pequena baía são lindíssimas e, segundo o governo local, ponto de prática de nudismo. Mas eu não vi ninguém (Dammit!)… A única coisa que vi e me deixou preocupado foi um homeless com cara de poucos amigos que parecia morar na praia em uma barraca improvisada. Com câmeras valendo uma fortuna penduradas em meu pescoço, decidi que seria mais sábio tirar as fotos e cair fora.
 
 
Porém, não vá pensando que foi assim fácil, tirar essas belas fotos. Além das dificuldades descritas acima, o próprio acesso à praia deserta é perigoso. Logo na entrada, antes de descer o barranco de 6 metros de altura que possui uns degraus improvisados, existe um aviso ameaçador: cuidado com a Machineel Tree (Hippomane mancinella)! Para chegar à praia você tem que passar a centímetros dos galhos. Eu desci bem devagar, no melhor estilo Missão Impossível. Trata-se de uma das árvores mais venenosas do mundo, cujo tronco, folhas e frutos contém toxinas fortíssimas. Ela secreta um liquido leitoso durante a estação de chuvas que, em contato com a pele, gera imediatamente pústulas enormes. Não é um bom refúgio em caso de tempestade, eu suponho… Para que você tenha uma idéia, em espanhol, a pequena fruta avermelhada dessa árvore chama-se manzanilla de la muerte. Quando a árvore queima por qualquer motivo, a fumaça gerada pode causar cegueira se entrar em contato com os olhos. Nativos originários dessas ilhas costumavam molhar a ponta de suas flechas no líquido secretado por ela e amarravam inimigos no seu tronco, para que tivessem uma morte lenta e dolorosa. Suas folhas também eram usadas para envenenar as fontes de água de tribos adversárias.  
 

 
Continuando na estrada rumo ao Norte, encontra-se outro balneário famoso de Tobago, Grafton Beach. Bonita como algumas praias de Floripa e quase deserta, essa praia é tipicamente frequentada pelos hóspedes do Le Grand Courlan Resort & Spa e do Grafton Beach Resort, este último o melhor hotel da ilha. As águas são calmas e transparentes, ótimas para um banho depois de dirigir um carro sem ar-condicionado por quase meio dia. Uma das grandes atrações dessa praia é uma outra em anexo, chamada Turtle Beach em Black Rock, local onde gigastescas tartarugas marinhas elegeram como ponto para depositar seus ovos na ilha. Infelizmente, somente pode-se vê-las ao entardecer ou à noitinha, durante o período que vai de Abril a Maio. Eu não pude assistir ao espetáculo, mas consegui uma foto na Internet (abaixo) que ilustra o tamanho das bichas.
 

 
Dirigindo-se para a segunda maior cidade da ilha, Plymouth, encontra-se outra atração turística da ilha, o Fort James, construído pelos britânicos em 1768, hoje em ruínas. A localização foi excelente para seu propósito – defender o Norte da ilha – e você consegue ver longe no oceano em mais de 180 graus. Uma das atrações do forte é uma igrejinha de pedra que hospeda a famosa mysterious tombstone, uma lápide que contém a seguinte inscrição: "Within the walls are the bodies of Mrs. Betty Stiven and her child. She was the beloved wife of Alex B. Stiven to the end of his days will deplore her death which happened upon the 25th November 1783 in the 23rd year of her age. What was remarkable of her, she was a mother withouth knowing it and a wife without letting her husband know it except by her kind indulgences to him." – Betty Stiven, 1783. Vá imaginar a vida doméstica da coitada… Agora se você não entendeu, uma pista: os dizeres são do pai dela e ela era amante de um marinheiro…
 

Mysterious tombstone tobago caribbean lesser antilles
 
Um pouco mais adiante, ao longo da highway costeira Northside Road, você desfruta de um visual digno da Rio-Santos. Praias e baías em meio a floresta nativa como paisagem, enquanto você guia o carro por uma estrada sinuosa cheia de curvas fechadas, espremida entre precipícios e montanhas. O primeiro local turístico que visitei nessa região foi King Peter’s Bay, uma linda e remota praia deserta e selvagem de areia escura, cujo acesso se dá através de uma estrada bem estreita de saibro cheia de crateras, em uma esticada 5 quilômetros fora da rodovia costeira, morro abaixo. Se você encontrar outro veículo no caminho para a praia, um dos dois terá que dar uma ré considerável. No final das contas, valeu demais pelo pôr-do-sol, pela sensação de isolamento e por ter a praia só para mim. Só não fiquei mais tempo com medo da La Diablesse (Devil Woman), que a mitologia local descreve como uma mulher muito atraente, perfumada e com um vestido branco, que possui um pé de cabra ao invés de uma perna e gosta de vagar ao entardecer em busca de homens solitários incautos para seduzi-los, levá-los para a mata e fazê-los desaparecer. Os que voltam, reza a lenda, tornam-se loucos da pedra. Ela costumava ser uma escrava que morreu durante um estupro coletivo.
 
 
No dia seguinte acordei cedo para a pegar de novo a Northside Road. Logo após a entrada para a King’s Peter Bay, a próxima gema a ser visitada em Tobago é Castara Bay, uma grande "ferradura" feita de desfiladeiros verdes que parece abraçar o vilarejo de pescadores e a baía de águas azuis brilhantes como diamantes. A praia tem infra-estrutura ok, com banheiros e chuveiros gratuitos. As barraquinhas de comida daqui servem a melhor versão – segundo nativos – de uma das delícias culinárias de Tobago: o roti, uma tortilla mexicana de farinha em versão indiana, que pode ser enrolada e recheada com carne cozida de cabra ou frango, mais pedacinhos de batata cozidas ao molho curry. Chato somente é comer enquanto um bando de vira-latas esqueléticos ficam olhando para você com caras de pidão.
 

 
Mais ao norte de Castara, existe outra gema de Tobago, Englishman’s Bay, um santuário de águas calmas e areia amarela ultra-fofa. A entrada para a praia não está bem sinalizada e fica meio escondida entre às árvores na beira da estrada. Mas uma vez chegando você provavelmente esticará uma rede e não vai querer sair. A última vez que vi uma praia nesse estilo foi na fronteira entre Rio e São Paulo, perto da Ponta de Trindade. Os 800 metros de praia são completamente cercados por mata virgem. Impressionante. A praia tem um único restaurante que, segundo moradores, deve ser evitado a todo custo por conta de problemas sérios com higiene. Eu confesso que o lugar era sujo como o banheiro do primeiro Rock in Rio depois do quinto dia do evento.
 

 
A última praia do litoral Norte de Tobago que vale a pena visitar é Parlatuvier Bay, que fica a 30 minutos de Castara. Esse remanso em forma de meia-lua hospeda outra vila de pescadores e uma praia bem tranquila, cheia de barcos. Tem até um pier de cimento bem pitoresco em direção ao mar, onde cachorros e galinhas passeiam tranquilos. No final do pier as crianças dão saltos acrobáticos em direção da parte mais funda da baía, um espetáculo à parte. A vila tem uma escola primária que deve ser uma das mais legais para se estudar no mundo, com toda aquele vidão à volta. Área bastante valorizada da ilha, um terreno de 1,100 metros quadrados aqui custa em torno de US $ 400,000. Ouch! Nessa praia aconteceu uma pequena tragédia pessoal para esse blogueiro que vos fala: derrubei na areia a lente da minha câmera (para quase 1 mili segundo depois ser coberta pela água do mar), uma Nikon 55-200mm f/4-5.6G ED IF AF-S DX VR [Vibration Reduction] Zoom Nikkor Lens, de R$ 1,100… Duplo Ouch! Na verdade, puta que o pariu!
 

 
Do outro lado da ilha, perto da cidade de Roxborough existe a que considero a última grande atração de Tobago: Argyle Waterfall, uma cachoeira de 54 metros de altura. Logo na saída da estrada você paga US $ 5 pelo ingresso, para estacionar o carro 400 metros depois e enfrentar uma caminhada de 20 minutos até a cachoeira, em meio a floresta equatorial e nuvens de mosquitos sedentos de sangue. Aliás, não se trata de um inseto qualquer, mas do Aedes Albopictus (Asian Tiger Mosquito), ou seja, durante boa parte do caminho você vai parecer uma daquelas focas amestradas de Sea World batendo palminhas. Quanto à segurança da atração, não me pareceu 100% ok ir para lá sozinho, com tanta gente te olhando torto à volta ("guias" que não gostam de levar "não" como resposta), ainda mais munido de equipamento caro de fotografia e filmagem. Porém confiei nos meus 1,80m de altura e na minha cara feia de mau para manter o perigo à distância. No final, acabou valendo à pena, já que as quedas são muito bonitas, embora de difícil acesso: não existem escadas para o topo, tem que ser no trepa-trepa.
 
 
Muitos pensam que Tobago – especificamente as praias próximas ao pequeno aeroporto internacional como Sandy Point – serviram de inspiração e base para o clássico de literatura Robinson Crusoé, escrito por Daniel Defoe em 1719 e que por sua vez foi baseada na história real do náufrago Alexander Selkirk que ficou perdido 28 anos em uma ilha perto da costa da Venezuela. Centenas de versões da história geraram livros (como "A Família Robinson") e filmes adaptados, como Náufrago de Tom Hanks, para citar o mais recente. Dizem que alguns locais, por uma pequena contribuição em dinheiro, podem levar você até à caverna onde viveu o mito…
 
File:Robinson Crusoe and Man Friday Offterdinger.jpg
 
É isso.
 
Veja aqui as mais de 300 fotos em alta resolução de Trinidad & Tobago. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
 
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides.
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