Trinidad & Tobago – Maio de 2009 – Parte 1/2

 
O arquipélago de Trinidad & Tobago fica bem próximo da Venezuela, quase no fim do Mar do Caribe. Descobertas por Colombo em 1498, as ilhas pertenceram aos espanhóis até 1797, quando passaram ao domínio inglês sem o derramamento de uma única gota de sangue: o governador espanhol Chacon era um nádegas flácidas (vulgo bunda mole) e se rendeu sem luta. Entre 1845 e 1917 quase 150 mil indianos foram trazidos pelos ingleses para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar. A imensa população local de negros originalmente traficados por europeus (principalmente espanhóis), influenciada por franceses, administrada por ingleses e misturada com indianos, tornou o Inglês falado nas ilhas um tanto… peculiar. Por exemplo, eu escutei uma palestra de uma hora ministrada por um engenheiro da PETROTRIN e não pesquei uma palavra sequer. No final, eu confessei ao meu colega Texano: “cara, não entendi bulhufas…” E ele me respondeu: “Nem eu…” Veja aqui uma entrevista com um jogador de futebol local. Believe it or not, it’s English…
 
                            
 
O clima das ilhas divide-se em dois tipos: a estação seca, e a molhada – 6 meses cada – e temperaturas variando entre 23 e 32 graus Celsius. Graças a uma posição privilegiada no Caribe, T&T nunca sofreu de verdade por conta de furacões. 46% do território é composto de mata nativa, do mesmo tipo da vegetação existente na região amazônica (equatorial). Apesar da farta vida tropical, não existem cobras venenosas em Tobago. Mas existem ladrões, com certeza. A quantidade de furtos e "pequenos" assaltos nas ilhas torna o turismo uma aventura de certo risco.
 
 
Meus amigos no Brasil dizem que eu sou, disparado, o preto que eles mais gostam dentre todos os outros que conhecem. Porque eu estou bem longe… Sabemos que piadinhas racistas como essa são muito comuns no Brasil e, em sua maior parte, inofensivas e sem grandes pretensões. Agora em Trinidad & Tobago não creio que se levaria numa boa, não… 80% da população é negra ou bem próximo disso. Graças a uma economia forte baseada em Petróleo e Gás, o país é a nação mais rica da América Central e Caribe (em plena crise mundial há uma previsão de crescimento do GDP em 2009). Educação formal e Saúde de qualidade – ambos gratuitos – são norma. Lógico supor que os cidadãos são muito orgulhosos de sua herança africana e de seu país. Contudo, não dá para ser hipócrita: ao visitá-los pela primeira vez, à princípio é estranho ver negros em posições de prestígio tipicamente ocupadas por brancos, tais como médicos, pilotos de avião, professores universitários, executivos de terno e gravata, gerentes de banco, geólogos e engenheiros. Mesmo os outdoors e anúncios de tradicional domínio de modelos brancos e brancas – tais como telefonia, roupas e cerveja – em T & T pertencem aos negros. Na verdade depois de passar algum tempo nesse país você só confirma que o resto do mundo é que está errado… 


 
O povo de Trinidad & Tobago é muito hospitaleiro, prestativo, brincalhão, falante (pelos cotovelos), cara-de-pau (no melhor padrão "carioca" do termo) e adoram uma festa. Em função do clima equatorial e da cultura de liberdade típica dos trópicos, todo mundo usa muito pouca roupa (a não ser quando vão à igreja – 68% da população é católica). Os pais muitas vezes deixam meninas sem a parte de cima e crianças pequenas peladas na praia sem qualquer problema. A última vez que vi esse tipo de comportamento liberado foi durante minha infância, no Rio dos anos setenta. Em relação ao biotipo do morador típico das ilhas, a miscigenação da população negra com indianos, brancos europeus e muitos imigrantes chineses, libaneses, sírios e venezuelanos transformaram 1.3 milhões de nativos em figuras únicas. Por isso T&T them como apelido The Raibow Nation. Muitos dos mais jovens parecem deuses de ébano – homens e mulheres de corpos perfeitos. Tem uma lenda que diz que as inglesas vêm para cá fazer turismo sexual, uma inversão do que acontece no Nordeste brasileiro. Contudo, não se trata de uma boa idéia, já que o número absoluto de mortes por AIDS aqui é um dos maiores da América Latina.
 
 
Ao contrário de outros países tipicamente sexistas da América Latina, em T&T as famílias são matriarcais (ainda que não unidas por casamento formal). Com relação à diversão, o principal ritmo musical originário dessas ilhas, o Calypso, é tocado em toda a parte, como um a trilha sonora onipresente de um filme e dizem, contendo letras picantes e, eventualmente, quase pornográficas. Carnaval também é celebrado aqui, mas em meses diferentes do nosso, em uma grande festança nacional. Os nativos também adoram cricket, o esporte nacional herdado dos ingleses. Trata-se de uma espécie de bets com uma regra mais complicada. Mas eles são mesmo apaixonados por futebol, o que me deu extra créditos para conversar com qualquer um e ter boa receptividade, como brasileiro. Para os que não sabem, em 2001 Trinidad & Tobago sagrou-se campeã mundial Sub-17! Uma verdadeira façanha para um país que tem somente um milhão e tantos mil habitantes.
 
 
A culinária de Trinidad & Tobago é rica e diversificada, graças a influência da cozinha indiana e chinesa no paladar caribenho, concentrando-se em pratos apimentados (sempre) com base em frutos-do-mar, porco e, sobretudo, frango. Aqui nos EUA corre uma piada de que se você quer criar uma gift basket (cesta) racista para dar de presente a um afro-americano, ela tem que conter frango frito e kool aid (nosso ki-suco). Se a sacanagem retrata a realidade, então o povo de T&T cai direitinho no estereótipo do negão estadunidense: nunca vi tanto KFC junto na minha vida! E tem sempre um cheirinho de frango grelhado pelas ruas, aonde quer que você vá. Os pratos mais famosos de galinha são o curry chicken e o frango com molho agridoce de manga. Em restaurantes típicos, você encontra preciosidades como rolinho primavera com recheio de frango desfiado picante.
 
 
Outros destaques vão para o porquinho frito acebolado, tiras de filé ao molho curry e o famoso sanduíche Bake N Shark, uma deliciosa bomba calórica vendida em barraquinhas na beira das praias, feita de massa frita a base de milho (como a do nosso acarajé), recheado com filet de tubarão/cação frito à milanesa ultra bem temperado, acompanhado de molho e pedacinhos de alho, salada de repolho cru, pimentão vermelho e um molho apimentado de manga com tamarindo. Outro destaque dos hábitos alimentares locais é a venda de frutas frescas, feita em toda parte da ilha.
 
 
Minha escapada turística concentrou-se no "paraíso", a irmã menor do par de ilhas. Tobago corresponde somente a 6% da área total do “país” e hospeda 4% da população. Nos séculos XVI e XVII foi um grande centro produtor de tabaco (o nome da ilha deu origem à palavra inglesa "tobacco") e algodão para a Inglaterra imperialista. Para chegar até a ilha você pode voar por 15 minutos desde a cidade de Port of Spain, capital deTrinidad, usando os aviões a hélice da ponte aérea da Caribbean Airlines (aproximadamente US $ 100 round trip) ou por ferry-boat (US $ 20 round trip), para uma viagem de cinco (convencional) ou duas horas (fast ferry) em mar aberto. Leve pilulas para enjôo, se escolher esse último…
 

 
Dirigir em Tobago (e acredito que em Trinidad também) para forasteiros como eu é uma experiência inusitada por duas razões. Primeiro porque alugar um carro nessa ilha é uma temeridade. Nenhuma das grandes companhias (Hertz, Avis, etc.) tem uma filial no pequeuno aeroporto e você tem que confiar seus dados do cartão de crédito a uns caras parecido com gangsters de filme policial B. Todos eles possuem uma pequena frota nos fundos de uma residência que mais se assemelha a um muquifo em um bairro barra pesada de Duque de Caxias. Segunda razão, porque você dirige de acordo com o sistema inglês: motorista no banco da direita e tráfego "ao contrário". Perdi a quantidade de vezes que: tentei entrar pelo lado errado do carro; liguei o limpador de pára-brisas ao invés de dar seta para esquerda/direita;  levei vários minutos para estacionar o carro em uma vaga apertada; fiz uma curva e quase bati o carro de frente na contra-mão. Graças a Deus que aluguei um com câmbio automático, caso contrário seria "divertido" pisar no freio ao invés da embreagem.
 
 
Tobago tem uma única grande estrada que circunda a ilha de 300 quilômetros quadrados e umas poucas outras que interconectam cidades em partes opostas da ilha. As estradas – incluindo a principal – são estreitas, mal conservadas, sem acostamento, usualmente na beira de um precipício e trafegadas por motoristas que pensam que são o Schumacher, só que andando em veículos caindo aos pedaços. Só de passar por caminhões na estrada dá cinquenta tipos diferentes de arrepio, já que eles cruzam por seu carro a poucos centímetros de distância. E, de novo,  você está do lado direito do automóvel… O tráfego é esquizofrênico: hora você guia em meio a uma majestosa floresta tropical absolutamente sozinho (como a famosa Roxborough Parlatuvier Road que liga os dois lados da ilha); hora você fica entalado em um engarrafamento de quilômetros de extensão, já que por aqui ninguém têm pressa (o famoso joie de vivre, de Tobago), o que à vezes dá nos nervos. Frequentemente o trânsito cessa de fluir subitamente por conta de algum imbecil que simplesmente pára o carro sem avisar, a fim de bater um papo com um pedestre amigo – estilo "tô nem aí" ou "caguei!". Animais selvagens e domésticos – vacas, cachorros, galinhas, cabras – passeiam numa boa pelas estradas da ilha. Bizarro! Não bastasse tudo isso, achar um posto de gasolina é mesmo que jogar "onde está o Waldo?", tornando quase impossível devolver o carro alugado de tanque cheio, se você não fizer uma trilha de migalhas de pão desde o último posto mambembe escondido que você encontrou por acidente.
 
 
Minha road trip começou com uma visita cedinho à Store Bay, uma pequena praia de águas calmas e muito frequentada por famílias inteiras de locais (incluindo cachorros), o que me fez lembrar de passeios à ilha de Paquetá, no Rio, com direito à farofa, galinha e famigerados pratinhos de alumínio. A grande diferença é que se trata de uma bela praia caribenha. Esse ponto turístico se torna muito famoso uma vez por ano, como reta final da corrida de powerboats The Carib Great Race – a partir de Trinidad. Store Bay é também o ponto de partida para visitar os famosos bancos de corais de Tobago (Bucco Reef). Você pode alugar uma lancha para te levar até o ponto em alto mar para mergulhar (snorkeling ou autônomo) ou participar de excursões em um barcos que possuem um fundo de "vidro" (na verdade, plexiglass). Em termos de qualidade da experiência, essa última opção é uma loteria, porque você paga o ingresso na praia e não pode escolher o barco. E existem alguns muito velhos, com o tampo de vidro todo riscado. Para concluir o passeio, nada como comprar uma porção de curry crab (uma espécie de ensopadinho de caranguejo ao molho curry) em uma das vendinhas que existem na entrada da praia. Tem aparência de lavagem de porco, mas possui um delicioso sabor.
 

 
Minha próxima parada, Pigeon Point, representa o sonho molhado de qualquer marketeiro da área de turismo. Trata-se de um paraíso onde cartões postais do Caribe são feitos. Por apenas US $ 5, você ganha uma tira de identificação no pulso e pode gastar o dia inteiro nesse pedacinho de céu, de águas azul turquesa cintilantes, coqueiros frondosos, areias brancas e fofas – gostosas de pisar – e uma doca de madeira de cinema, com cabaninha de palha e tudo. A única praia privada de Tobago possui excelente infra-estrutura: chuveiros, banheiros limpos, mesas para pique-nique, seguranças circulando, restaurante, salva-vidas, bar, barcos para alugar e até uma gift shop. Figurinha fácil para casamentos, a praia ao entardecer é como um sonho bom, de tão bonita. Não sou muito de ficar em um só lugar deitado, lagarteando durante minhas férias, mas aqui eu poderia abrir uma exceção.
 


 
Relutante em deixar o paraíso tropical, segui viagem para conhecer Bucco Bay, que hospeda uma vila de pescadores logo na entrada, e uma praia selvagem mais adiante, quase deserta, na qual os locais (e o governo) não aconselham turistas a passear sozinhos, mesmo de dia, por causa do risco de roubo ou pior. Esse bravo blogueiro ignorou os avisos e tirou algumas fotos bem bacanas. À noite aqui acontecem as melhores festas de toda a ilha, regadas a calypso, churrasco, peixinho frito e cerveja. Se você é solteiro, sem dúvida um grande spot para socializar-se com os locais. Essa praia também é local das legendárias corridas de cabras (goat race, evento glamouroso) e de carangueijos (crab race, não tão glamouroso) de Tobago, assunto sério na ilha e onde se aposta muito dinheiro. Bom, pode até ser sério para eles, mas não dá para não se cagar de rir com a idéia das corridas
 

 
Continua…
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