Ouro Preto, Minas Gerais – Junho de 2009

 
Você não pensou que eu iria a Mariana sem passar também por Ouro Preto, pensou? Ela foi fundada em 1711 pela junção de vários arraiais, tornando-se sede de conselho mineiro, com a designação de Vila Rica. Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade desde 1980, Ouro Preto é uma jóia do Brasil Colônia situada a 1,2 km acima do nível do mar, plena de altos e baixos. Você precisa ter uma preparação física digna de um atleta para explorar essa cidade à pé. Porém, a cada parada, uma vista diferente e grandiosa. A cidade conta com aproximadamente 80 mil habitantes, mais parece ter muito mais, dada a quantidade de fantasmas que você tem a impressão de ver rondando as ruas. Sério, mesmo para quem não é um grande fã de História do Brasil, não dá para ignorar a sensação de volta no tempo, graças a atmosfera gerada pelas construções e casas antigas, museus e igrejas bem conservadas, além das ladeiras e do calçamento em pedra.  
 
 
Entre 1707 e 1709, Ouro Preto foi palco de um dos conflitos mas sangrentos da História do Brasil: a Guerra dos Emboabas. O motivo da disputa? Jazidas de ouro recém descobertas. Convém lembrar que as colônias portuguesas não eram tão profícuas em metais preciosos, como as espanholas. Por isso, uma notícia como essa na época deve ter sido uma bomba. De um lado da disputa, bandeirantes paulistas que realizaram a descoberta e que buscavam – legitimamente -exclusividade na exploração. Do outro, um grupo misto de portugueses e gente de outras partes do Brasil (na sua maioria baianos) – os Emboabas – enlouquecidos pela febre do ouro. Emboabas – que em tupi significa "os que invadem, agridem" – era o termo pejorativo dado pelos desvabradores locais aos forasteiros. Os paulistas não deram pro cheiro, graças ao poderio militar e o maior número de emboabas. Depois de várias batalhas perdidas, tentaram uma última manobra desesperada, ao armar uma emboscada contra o exército emboaba liderado pelo português Bento do Amaral Coutinho, em uma "ilha de árvores" (chamado "capão") da região. A estratégia deu certo a princípio, mas o contra-ataque de Coutinho levou os insurgentes a pedirem trégua e a rendição, após dois dias de resistência. O comandante Emboaba jurou pelo Pai-Filho-e-Espírito-Santo que não mataria ninguém, além de prover um salvo conduto para todos saírem de Minas Gerais imediatamente após a rendição e deposição das armas. Desnecessário dizer que todos os 300 paulistas foram executados logo depois da entrega dos seus rifles. A guerra acabou e a metrópole Portuguesa assumiu o controle de todas as jazidas. O episódio ficou conhecido como o Capão da Traição. Esses paulistas não estudaram nada sobre as Guerras Púnicas, romanos versus cartagineses?
 
 
 
Voltemos ao turismo. Uma das características mas espetaculares de Ouro Preto é a abundância de Igrejas.Uma mas linda que a outra. Uma pena que não se possa fotografar seus interiores, devido a uma legislação dos anos setenta, péssima para o turismo internacional. Uma das mais belas é a Igreja São Francisco de Assis, construída em 1766 e que, segundo especialistas, conta com o crème de la crème das obras barrocas dos mestres Athayde e Aleijadinho. Só o lavabo da sacristia, feito em pedra-sabão representando a fé (uma figura de olhos vendados segurando uma placa com os dizeres "este é o caminho que conduz ao céu"), já vale o dinheiro do ingresso. Outra atração é a pintura do teto (forro de madeira) da nave, fruto de um trabalho de dez anos, que mostra a ascenção de Nossa Senhora assistida por um séquito de anjos… mulatos! Ousadia perde… Até Carlos Drummond de Andrade ficou impressionado pela magia barroca dessa igreja, registrado no poema "São Francisco de Assis". Um trecho:
 

Senhor, não mereço isto.

Não creio em vós para vos amar.

Trouxeste-me a São Francisco

e me fazeis vosso escravo.

Não entrarei, senhor, no templo,

seu frontispício me basta.

Vossas flores e querubins

são matéria de muito amar.

Mas entro e, senhor, me perco

na rósea nave triunfal.

Por que tanto baixar o céu?

por que esta nova cilada?

Senhor, os púlpitos mudos

Entretanto me sorriem.

Mais do que vossa igreja, esta

Sabe a voz de me embalar.

Perdão, Senhor, por não amar-vos.

 
 
Bem em frente a igreja existe uma praça que parece concentrar todos os artesãos da cidade. Além de propiciar no parapeito uma vista ímpar de Ouro Preto – especialmente ao entardecer – você se vê em meio a um mar de obras (e barganhas) incríveis, com direito a cumprimentar o artista enquanto este trabalha, incansável. É como uma galeria de arte convertida a uma mega gift shop de artesanato a céu aberto, onde você fica meio perdido sem saber onde ir. Pedidos especiais, tais como dedicatórias na madeira e na pedra, podem ser feitos na hora. Parada obrigatória em se visitando Ouro Preto. Espere gastar no mínimo uma hora se for uma pessoa normal e o dia inteiro, se for mulher.
 

 
 
Não se pode falar de Ouro Preto sem falar do mestre Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa), um dos mais famosos escultores do Brasil e seguramente o maior expoente do Barroco Latinoamericano. A biografia dele é cheia de buracos e mistérios, uma vez que foi baseada em história oral e em um documento escrito mais de quarenta anos após sua morte. Nascido escravo, foi libertado logo após o parto. Era baixinho, mulato e sofria de uma doença degenerativa misteriosa que acabou lhe dando o apelido. Aparentemente sofria dores horríveis, perdeu todos os dentes e teve amputada as extremidades dos pés e das mãos. Seu escravo amarrava o cinzel com o qual esculpia em sua mão. Aos 74 anos ficou totalmente paralítico e morreu dois anos depois, pobre e abandonado. Mais deixou um legado de esculturas literalmente divinas. O Museu Aleijadinho fica ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
 

 
 
Nessa igreja está sepultado o Aleijadinho, em frente ao primeiro altar, aos pés da Nossa Senhora da Boa Morte. No altar mor encontra-se a imagem da Virgem Maria, esculpida em tamanho natural em 1893. Aconstrução da Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi iniciada em 1727 e concluída em 1746. O projeto e a execução ficaram a cargo de Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho, também enterrado nessa igreja. Outra igreja fantástica para se visitar em Ouro Preto, é a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, construída entre 1766 e 1772, cujo projeto também foi do Sr. Manuel. Costumava ser a igreja favorita entre os abastados e aristocratas da cidade.
 

Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo
 

O melhor lugar para comer comida mineira gourmet em Ouro Preto é "O Profeta". Surpreendentemente justo na hora de cobrar, o restaurante tem um ambiente pequeno, intimista e aconchegante. Escutando uma trilha sonora baixinha de milton nascimento, chico buarque e elis regina, você pode saborear aquele que, na minha opinião, foi o melhor combinado de tutu à mineira que comi na vida, com todos os ingredientes tradicionais: arroz branco soltinho, linguiça assada, ovo estrelado com gema mole, couve à mineira e bisteca (sem osso) frita no ponto. Prato simples e perfeito, como a comida da sua avó. Estou com a boca cheia d’água só de escrever ese parágrafo agora…

O Museu da Inconfidência Mineira está localizado bem no centro de Ouro Preto, em um prédio construído entre 1784 e 1846, que costumava hospedar a Casa de Câmara e a cadeia da cidade. Os restos mortais dos inconfidentes repousam dentro do museu. O grande destaque do acervo, além das obras barrocas, são os documentos relacionados com a história de Tiradentes. Apesar de carioca, Joaquim José da Silva Xavier viveu a parte mais importante de sua vida em Ouro Preto, quando defendeu os ideais revolucionários. Para os que faltaram as aulas de história no primário, Tiradentes foi um dos rebeldes da época do Brasil Colônia que defendia a ideia da independência do Brasil em relação a Portugal. Por causa de um traíra, esse dentista insurgente morreu mal pacas, tornando-se um mártir. O lema do movimento “Libertas que Sera Tamen” (liberdade, ainda que tardia), acabou traduzido impagavelmente pelo Casseta e Planeta nos anos oitenta: Liberdade, Ainda que à Tardinha…

Ouro Preto foi palco dessa revolta inspirada na independência das treze colônias americanas do jugo inglês. O elemento motivador da revolta era o mesmo dos colegas americanos: a metrópole queria tirar o couro da colônia em impostos. O fim-da-picada foi o decreto da derrama, artifício “legal” usado pela corôa para a cobrar todos os atrasados, mesmo que isso significasse confiscar toda os bens do devedor. Os revoltosos pretendiam liderar um levante popular, mas foram delatados por uns cabras interessados em salvar o próprio rabo cheio de dívidas, sendo o principal judas o ex-inconfidente e amigo de Tiradentes, Joaquim Silvério dos Reis, que agora deve estar ardendo no nono e último círculo do Inferno. Alias esse sujeito é o único que merecia o termo inconfidente: aquele que trai a confiança.

As autoridades portuguesas got medieval nos rebeldes e os puniram exemplarmente. Como a maioria era parte da alta sociedade da época, sofreram o Diabo, mas não foram executados, porém condenados ao degredo. Joaquim José, por outro lado, era só um alferes. Como na briga do rochedo com o mar quem se fode é o marisco, Tiradentes foi preso e condenado à morte por enforcamento, pena “leve” para um crime qualificado como lesa-majestade (enfiar a mão no bolso do rei). Gente malvada diz que Tiradentes não proferiu suas últimas palavras antes de morrer porque tinha um nó na garganta… Com seu sangue se lavrou a certidão de que estava cumprida a sentença, tendo sido declarados infames a sua memória e os seus descendentes. Seu corpo foi esquartejado, sua cabeça erguida em um poste em Ouro Preto (local da atual Praça Tiradentes) e o resto de suas partes expostas em diversas cidades vizinhas, onde costumava discursar. Demoliram a casa onde morava, jogando sal no terreno para que nada lá germinasse.

 

Tiradentes teve como companheiros outros rebeldes famosos, como Cláudio Manuel da Costa e Tomás António Gonzaga, dois pioneiros do movimento literário “Arcadismo” no Brasil. Tomás nos deixou a obra ultra-romantica “Marília de Dirceu”, que provoca caríes durante a sua leitura, dado a quantidade de açúcar contido nos versos. Ele “Dirceu”, sua amada – a loirinha Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão, a pastora “Marília”. Morreu expatriado na África, depois de passar uns anos na cadeia por conta de seu envolvimento no movimento revolucionário. Nunca mais voltou a ver a sua amada. Detalhes sobre essa clássica tragédia de amor, no imperdível livro de Cecília Meireles, "Romanceiro da Inconfidência".

Os teus olhos espalham luz divina,

A quem a luz do Sol em vão se atreve:

Papoula, ou rosa delicada, e fina,

Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;

Teu lindo corpo bálsamo vapora.

Ah! Não, não fez o Céu, gentil pastora,

Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

A caminho de volta para casa, jantei em um estabelecimento próximo ao aeroporto de Belo Horizonte, o Restaurante Rural, o buffet de comida mineira mais espetacular que conheci em toda a minha vida. Além dos pratos tradicionais da cozinha local disponíveis e no grill cheio de carnes gostosas, supreendeu a quantidade de pratos gourmet oferecidos no buffet, tais como: moqueca de pescada com banana da terra; costelão de boi no cravo e canela (assado com mandioca e queijo parmesão); bolinhos de aimpim recheados com carne seca; pastelada mineira (destaque para os pastéis de fígado acebolado e de carne moída com quiabo); "porquim" à pururuca; atoladinho de carne seca desfiada, grelhada na manteiga, em uma "caminha" de polenta com queijo derretido; e um "franguim" temperado, assado com molho de laranja. Inclúido no preço ainda tinha sobremesas e mais sobremesas: doces de coco, ameixa, de leite e de mamão verde; arroz doce; pudim de leite; e goiabada cascão com queijo minas. Eita trem bão, sô.

 
 

É isso.
 
Veja aqui mais de 100 fotos em alta resolução da cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
 
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda (options, abaixo à direita – marque always show titles) durante a exibição dos slides.

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