Mariana, Minas Gerais – Junho 2009

 
A última vez que estive em Minas Gerais foi nos anos oitenta, quando viajei a convite de um amigo que visitava de férias a sua cidade natal, Carlos Chagas, no interior do Estado. Memorável por diversas razões – incluindo nadar em um rio que mais tarde descobri ser foco de Esquistossomose – o passeio de duas semanas ajudou-me a entender um pouco mais minhas raízes, já que os Monçores originais eram mineiros. Um dos momentos mais curiosos da viagem aconteceu na casa do tio de meu amigo, delegado da cidadezinha. Eu dormia o sono dos justos e resolvi "passear" pela casa, durante uma crise de sonambulismo. Porém, meu parceiro esqueceu de avisar os donos da residência acerca de meu problema peculiar e, para piorar, o tio dele dormia com a arma carregada embaixo do travesseiro, por conta do problema de jagunços na região (jagunço é um Jason Bourne de pobre). No café-da-manhã eu descobri que quase morri, uma vez que ninguém leva na boa um negão peludo de 1,80m só de calção vagando por sua casa de madrugada. Sorte que o tio dele era mineiro e, como todos sabemos, mineiros são prudentes por excelência.
 
 
 
Mais de vinte anos depois estou de volta para conhecer uma das jóias da coroa mineira, a cidade histórica de Mariana, nascida em 1696 de uma Bandeira comandada pelo português Salvador Fernandes Furtado e batizada como Ribeirão do Carmo. O motivo? Ouro, muito ouro naquelas terras. Em 1720, a Vila Real Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo foi rebatizada para Mariana, a primeira capital do Estado de Minas. Hoje a cidade tem hoje 50 mil habitantes e parece congelada no tempo: inúmeras igrejas e casas multicoloridas de arquitetura colonial e ruas de paralelepípedo. Mariana fica a 110 quilômetros de Belo Horizonte e chegar de carro aqui é uma aventura, já que o tráfego é pesado e a rodovia de duas pistas em mão dupla encontra-se em péssimo estado de conservação. Em compensação você curte as paisagens do sertão mineiro ao longo da estrada esburacada.
 

 
Cartão postal da cidade, a Praça Minas Gerais reune quatro ícones de Mariana: as igrejas do Carmo e São Francisco; o pelourinho; e a Casa de Câmara. Porque duas igrejas estupendas uma tão perto da outra? Competição. Por estar muito distante da administração católica central, além de abrigar uma quantidade incomum de padres que se ocupavam mais em encher o rabo de dinheiro do que converter almas pagãs, Mariana possuia inúmeras confrarias e irmandades independentes como instituições civis, que competiam ferozmente entre si. Cada qual almejava construír a igreja mais bela, mais suntuosa, que representasse a sua grandiosidade e prestígio. O climax, um tanto ridículo e absolutamente incomum, aconteceu nesta praça: duas igrejas católicas de irmandade de brancos rivais, uma a metros da outra. Muito cacique para pouco índio… A Casa de Câmara, construída na segunda metade do século XVIII, hospedava a legislatura municipal e o quartel dos Dragões (a famosa "milícia"), guarda particular dos governadores da capitania que promovia a ordem pelo terror. Como ferramentas de trabalho contavam com a prisão no andar térreo e o pelourinho, no centro da praça. Este último um dos dois únicos exemplares existentes no Brasil. Coluna de pedra usada para acorrentar, castigar e torturar criminosos e escravos rebeldes, simbolizava o poder opressor local, incluindo bispos.
 
 
Construida em 1763, a Igreja de São Francisco de Assis possui um interior perturbadoramente antigo, simples, porém belo, muito belo. O piso em madeira chama atenção de cara por causa das tampas numeradas dos túmulos alinhados no chão, literamente a um palmo de distância um do outro. Aqui repousam os restos mortais do mestre Ataíde, nascido em Mariana e responsável pelas pinturas no teto da parte central da igreja, assim como da Sacristia, além de três imagens da Paixão de Cristo. Os púlpitos – todos em pedra-sabão, saíram das mãos do mestre Alejadinho. Impressiona a qualidade das esculturas barrocas em madeira que se encontram espalhadas pela igreja.
 

 
No ponto mais alto da cidade de Mariana, encontra-se outra igreja, construida na segunda metade do século XVIII por uma confraria de negros: São Pedro dos Clérigos. Trata-se da única na cidade com influências arquitetônicas italianas. O altar foi cuidadosamente trabalhado em madeira de cedro e hospeda um dos maiores santos-do-pau-oco de Minas Gerais. Este tipo de santo era construído especialmente para esconder ouro e evitar o recolhimento do famoso e famigerado quinto, imposto da coroa portuguesa que cobrava 1/5 da riqueza produzida/extraída na região. Por cinco reais você pode subir até o topo da torre dos sinos e usufruir de uma vista espetacular da cidade.
 

 
Os mineiros também são conhecidos por sua generosidade à mesa. Na primeira manhã da minha estada em Carlos Chagas, eu lembro que babava e devorava um café-da-manhã caseiro, delicioso e variado, enquanto meu amigo quase não tocava na comida divina de sua tia e, estranhamente, ficava rindo sozinho. Ao final da lauta refeição ele me disse que iríamos dar uma volta pela vizinhança e conhecer os seus parentes na cidade. Daí entendi porque ele ría. Das 7:30 às 10:00 da manhã, visitamos três famílias e eu tive que tomar um café-da-manhã nababesco por mais três vezes, ou os mineiros ficariam bem ofendidos com a insolência… "Como assim já comeu?", perguntavam-me em tom ameaçador. Mariana não foge à tradição da boa e farta mesa e você pode comer comida mineira de qualidade no melhor buffet da cidade, o do Restaurante Rancho. Por apenas 10 reais saboreia-se um sem número de pratos típicos, tais como: farofa de ovo, torresminho, galinha ao molho pardo, linguiçinha fatiada com cebola, bisteca frita, aimpim e, naturalmente, couve à mineira – tudo feito no forno à lenha. Bárbaro…
 

 
Dentro da área histórica e na entrada da cidade, perto da rodovia principal, pode-se fazer a festa com compras de artesanato. Ao contrário de outros países que visitei, aqui tudo realmente é feito a mão, uma peça ligeiramente diferente uma da outra – nada de made in China. Os preços são supreendentemente baixos para obras tão espetaculares em madeira talhada, cerâmica, cobre (as famosas panelas mineiras) e pedra sabão (na verdade talco, um minério de baixa dureza abundante na região). Só encontrei algo semelhante na Venezuela. A inspiração para as obras varia, mas basicamente gira em torno da religião, humor e da sensualidade. Alias, as lojinhas são um paraíso para meninos adolescentes com tesão: a maioria das peças são insinuantes, voluptuosas e com curvas generossíssimas.
 

 
 

É isso.
 
Veja aqui quase 200 fotos em alta resolução da cidade de Mariana, em Minas Gerais. Não necessita fazer nada, basta clicar aqui:
 
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda (options, abaixo à direita – marque always show titles) durante a exibição dos slides.

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One Response to Mariana, Minas Gerais – Junho 2009

  1. Claudia says:

    Amor,A descricao do seu passeio em Mariana faz a gente ficar com vontade de ir tambem. Voce sabe que igrejas sao uma fascinacao para mim e comidinha de fogao a lenha e’ coisa rara hoje em dia, principalmente onde moramos.Quem sabe na proxima vez que nossa vinda ao Brasil coincidir, a gente da um jeito de escapar ate Mariana juntinho…Adorei o artigo!beijoca

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