Bogota, Colombia – April 2009 – Parte 1/2

 
Existe uma história de que uma famosa tribo de índios colombianos, habitantes da selva amazônica, tem um interessante método para escolher o seu líder. Quando o atual se encontra muito idoso, o conselho tribal convoca dez dos mais sábios adultos do grupo para ficarem sentados em círculo à volta de uma fogueira. Então a virgem mais bonita da tribo dança completamente despida uma dança bem erótica no meio da rodinha. O último indío a ter uma ereção ganha o cargo de líder, graças ao tremendo controle sobre si mesmo. Mesmo validando essa história em uma reportagem da National Geographic e com alguns locais quando estive em Medelin, só dá para levar como piada. E isso sim, bate com a caraterística definitiva do povo colombiano: gozador e sem grandes preocupações. O que vai perfeitamente ao encontro do resultado da última pesquisa realizada pela New Economics Foundation, que considera a Colombia o segundo lugar mais feliz do Planeta Terra. Um amigo colombiano disse que líderes dos cartéis de droga estão querendo contratar e enviar mercenários para exterminar a população de Vanuatu, o primeiro lugar…
 
 
Assim como os cariocas, rir-se de si próprio e das mazelas da vida é uma maneira de lidar com as vicissitudes sem enlouquecer. O comércio da droga e os guerrilheiros da FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia) trouxerem um nível de violência e insegurança para a sociedade colombiana por décadas e, só recentemente, os dois problemas foram apropriadamente controlados. Atualmente o governo democrático do presidente eleito Uribe, muito respeitado pela população, produziu políticas de saúde e educação que estão sendo adequadamente trabalhadas para que forneçam resultados em uma ou duas gerações. Mais de 92% da população é alfabetizada e a economia vai muito bem, obrigado. O policiamento feito por militares e guardas civis é ostensivo e, por vezes, um pouco exagerado, mas fornece uma sensação de segurança permanente onde quer que você vá (ao menos em Bogotá). A política é chamada "Seguridad Democrática", bastante efetiva já que a criminalidade caiu drasticamente e não há atentados a bomba na cidade há anos.
 
 
Os cartéis da droga colombianos atingiram seu auge nos anos oitenta, com o famoso bandido Pablo Escobar, que vivia em uma mansão luxuosíssima onde todos os corrimões e maçanetas eram feitos de ouro maçiço. Ele controlou a cidade de Medellin com mão de ferro por anos e fez fortuna vendendo toneladas de cocaína para o mercado norte-americano. Os cartéis eram conhecidos por sua extrema violência, dentro e fora da Colômbia. Sua marca registrada, aplicada impiedosamente sobre seus inimigos – políticos, mídia e força policial – era a de que não matavam e torturavam seus desafetos, mas a família do mesmo… Pablo Escobar uma vez abateu um avião da AVIANCA com 200 pessoas à bordo (míssil terra-ar) apenas para matar um único oponente. A influência dos carteís se sentiu até na paixão nacional, o futebol: lembra do zagueiro Escobar que marcou um gol contra na copa e foi assassinado depois que voltou à Colômbia? Pois bem, depois de uma longa e sangrenta guerra com os senhores do narcotráfico, o governo colombiano, com ajuda do dinheiro, armas e dos serviços de inteligência estadunidenses, acabou desbaratando os quatro maiores carteís do país e hoje a situação está mais controlada. Mas não significa que acabou. Uma das criativas formas de colocar toneladas de cocaína nos EUA atualmente, utiliza mini-submarinos semi-submersíveis caseiros feitos à mão nas selvas colombianos, praticamente invisíveis aos radares da guarda costeira da Flórida. Custam muito barato – 500 mil dólares em média – e levam apenas 3 meses para serem construídos, podendo transportar até 10 toneladas de droga, que podem ser vendida por US $ 196 milhões. Os bichinhos vêm equipados com GPS e são descartados depois da entrega.
 
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Parece uma grande brincadeira divina de mau gosto, mas os colombianos também tiveram (e ainda têm) que conviver com sequestros, atentados terrorristas e guerra civil, cortesia dos radicais da FARC, uma organização perdida no tempo que visa tomar o controle do governo à força e transformar a Colômbia em uma República Comunista. Muito original… Além de adultos provenientes da população mais ignorantes, a FARC recruta (e por vezes rapta) mulheres e crianças para viver na selva e para treiná-los como "soldados da libertação". O financiamento vem do tráfico de drogas e de alguns políticos débeis mentais, como o Sr. Hugo Chavez, da Venezuela. Explodiram bombas, mataram inocentes, sequestraram pais e mães de família, tudo isso por sede ilimitada de poder. Uma minoria intelectual de esquerda controlando uma horda de pessoas sem educação formal. Dá vergonha de pertencer à humanidade… Nos últimos 5 anos o governo colombiano fez um grande trabalho e liquidou com boa parte da liderança da FARC, além de libertar vários prisioneiros que estavam há anos em cativeiro. Com ajuda financeira e militar dos EUA, é claro. Você precisa ver a quantidade de helicópteros Huey (aqueles da guerra do Vietnã) pousando e decolando do Aeroporto de Bogotá… O mais recente e espetacular êxito que tiveram foi o resgaste da ex-candidata a presidente, Ingrid Betancourt, e dois norte-americanos (que cairam de avião na hora errado e no lugar errado anos atrás), sem derramar uma única gota de sangue, apenas utilizando ações de inteligência. Os otários da FARC encarregados de guardar os reféns foram levados a crer que o helicóptero de resgaste era da resistência, quando na verdade pertencia aos militares colombianos. 
 
 
Agora que ofereci provas de que a Colombia está mais segura, falemos de turismo. Bogotá é uma cidade cercada por montanhas (Cordilheira dos Andes), limpa e muito bonita. Sua população de mais de 6.7 milhões de pessoas usufrui de uma quantidade pouco usual de museus, teatros e bibliotecas (comparado a outros países da América Latina), a ponto de levar a UNESCO a outorgar à capital da Colômbia o título de Capital Mundial do Livro em 2007. A mais famosa é a Biblioteca Luis Angel Arango, que hospeda o original do clássico e um dos meus livros favoritos de todos os tempos, Cem Anos de Solidão, escrito pelo colombiano Gabriel Garcia Marques,  prêmio Nobel de Literatura justamente por essa obra-prima do realismo fantástico. O livro conta na história da saga da família Buendia na cidade de Macondo ao longo de várias gerações. Daria uma fantástica, sexy e emocionante mini série na TV…
 

ARACATA MACONDO, CIEN AÑOS DE SOLEDAD, GABRIEL GARCIA MARQUEZREMEDIOS LA BELLA, CIEN AÑOS DE SOLEDAD ARACATACA MACONDO
 
O primeiro grande programa em Bogotá é uma visita à Cerro de Monserrate, o ponto mais alto de uma cidade que já fica no alto: 2,6 km acima do nível do mar. Para chegar até lá você paga uma mixaria e sobe de teléferico (ou trem funicular) até um pátio com uma vista panorâmica incrível da cidade. Em meio à mata e flora que mais pertence a uma floresta equatorial, você pode assistir à missa na basílica construída em 1640, que fica no topo da montanha, e depois passear pelas inúmeras trilhas existentes, em meio a muito verde e flores multicoloridas. Se for beato e tiver disposição, pode subir até Monserrate pelas escadarias, ao invés de usar o bondinho…
 

 
O melhor restaurante de comida típica de Bogotá, de acordo com os locais, é o Casa Vieja que, como o próprio nome indica, se localiza dentro de um complexo de várias casas de estilo colonial interligadas. Eu pedi como entrada um misto de quitutes locais para aperitivo: linguiçinha, bacon e aipim fritos, mais empanaditas bogotanas (como um risolis). Só de olhar para o prato engorda. O "prato do dia" delicioso que recomendo é o porco frito com batatas cozidas ao creme de alho, regado a um molho agridoce superapimentado. A sobremesa mais parece saída de um retaurante mineiro: queijo branco com doce de uma compota feita com uma fruta local tipo azedinho-doce (lembrou-me tamarindo). Aviso aos navegantes que o lugar, apesar de servir comida caseira colombiana, cobra preços norte-americanos, ou seja, é caro para cacete.
 

 
Um passeio pelo centro histórico da cidade vai lhe dar uma oportunidade de curtir arquitetura colonial – especialmente das inúmeras igrejas e prédios públicos, ver gente e experimentar quitutes de rua como plátano (um tipo de banana verde) frito ou assado, waffles com recheio de geléia picante, além de linguiças e bolinhos de aipim grelhados. Tudo muito gostoso e barato, algo como US $ 2 a porção (bem generosa) em média. O clima de montanha na região dos trópicos gera uma temparatura média anual de 13 graus celsius, perfeita para caminhadas longas, o meio mais barato e eficaz de conhecer o centro colonial.
 


 
A mais famosa praça da cidade, Plaza de Bolivar, reune ao final da tarde dezenas de estudantes vestidas com uniformes classicos da rede pública brasileira nos anos setenta (incluindo a indefectível saia plissada), provavelmente ali para paquerar, ver e serem vistas. Ao redor da praça encontram-se: o Palacio de Justicia, de arquitetura modernista e construído em 1960, palco da famosa tentativa de golpe militar de 1985 pelo grupo guerrilheiro M-19 (financiado pelo narcotraficante Pablo Escobar) que resultou no assassinato de 11 magistrados reféns; a Capilla del Sagrario de la Catedral de Bogotá, construída entre 1660 e 1700, que abriga obras de inspiração biblicas do pintor Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos, mas não permite fotografias em seu interior; e a Casa de Los Comuneros, edifício colonial construído em 1654.
 

 
A principal atração da praça é a Catedral Primada de Colombia, ou Catedral Basílica Metropolitana de la Inmaculada Concepción, construída em 1538 em arquitetura neoclássica. Trata-se de um dos cartões postais da cidade e o local de descanso final do fundador de Bogotá, Gonzalo Jiménez de Quesada, que apesar de ser um grande conquistador espanhol, terminou sua carreira de forma tão desastrada e insana, que muitos historiadores conjecturam que ele foi utilizado como modelo por Cervantes, quando escreveu sua obra-prima Dom Quixote de La Mancha. Sua obsessão foi encontrar o mítico Eldorado, o reino legendário no qual abundavam ouro e pedras preciosas, de acordo com a lenda. Em 1569 partiu de Bogotá com 400 espanhóis, 1,500 nativos, 1,100 cavalos e 8 sacerdotes, uma das mais caras expedições de seu tempo, para encontrar El Dorado. Vencido pela selva, pelos Andes, pela fome e doença, regressou três anos depois com as mãos abanando e com uma tropa em farrapos de 64 espanhóis, 4 nativos, 18 cavalos e dois sacerdotes. Morreu de lepra, pobre e sozinho, sete anos depois de sua aventura. Irônico que Gonzalo tem perdido sua batalha contra seus "moinhos" pessoais, mas que a Colômbia seja hoje a maior produtora de esmeraldas do mundo e uma das maiores de ouro…
 

 
Continua…
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