Santa Cruz, Bolivia – Junho de 2009

 
Se você vive endividado e seus companheiros de todas as horas são os credores, deixando você a ponto de fazer coisas como: usar o papel higiênico dos dois lados; colocar pilha na geladeira para tentar estender sua vida útil; fazer macumba com knorr para economizar galinha; secar tênis atras da geladeira; ou guardar cueca velha para passar cera no carro. Se a sua filha nunca te respeita e a última vez que falou contigo foi depois do Vestibular: "Pai, sabe da última? Sou eu!"… Se sua mulher berra e reclama contigo continuamente e o único momento de silêncio precioso acontece durante 15 minutos de sexo oral que você recebe apenas uma vez por ano. Enfim, se você anda pensando que se chovesse pétalas de rosa no mundo o único lugar que choveria estrume seria na sua cabeça, então chegou a hora de visitar a Bolívia. Você vai descobrir que tudo poderia ser bem pior…
 
 
A Bolívia é um dos países mais pobres da América Latina e Santa Cruz de la Sierra, sua cidade mais "nobre" (infinitamente superior a sua rival histórica, La Paz) de dois milhões e meio de habitantes, encontra-se claramente divida em duas partes: a maior, incrivelmente miserável e outro bem pequena, a área nobre da cidade, com seus poucos cidadãos privilegiados "não indígenas" de ascendência espanhola e suas pajeros 4×4 – uma mania da "elite local" – provavelmente por causa da imensa quantidade de ruas sem qualquer pavimento. O centro da cidade é sujo, fedido e feio além de qualquer descrição. Basta sair um pouco do centro e o que se vê é poeira, poeira e mais poeira avermelhada, em um cenário plano, desolado, seco, sem vida e triste. Não há muito muito o que fazer além de "turismo social", uma reflexão de como sua vida não é uma merda tão grande afinal de contas.
 

Quase 90% dos bolivianos possuem os traços da população índia originalmente nativa, los pueblos indígenas ou originários. Foram eles que elegeram em dezembro de 2005, com 54% dos votos, o líder de extrema esquerda Evo Morales que, teoricamente deveria estar trabalhado para reduzir a distância abismal entre os  miseráveis e os ricos, mas acabou se enrolando com ações populistas anacrônicas da década de 60 e 70, trazendo um socialismo à la Chavez a uma nação já muito castigada por décadas de ingerência. Ao contrário de Chavez, que é um filho da puta, porém inteligente, o Sr. Morales é burro como uma porta, graças ao descaso com a sua própria educação e, consequentemente, com a de seu povo. Um exemplo típico é o Gás Natural, única riqueza boliviana abundante. Antes de Evo, o país se encontrava muito próximo de se entupir de dinheiro como praticamente único fornecedor de gás para a América Latina, incluindo os mercados consumidores gigantes e economicamente estáveis do Brasil, Argentina e Chile. Até um mega gasoduto com o Brasil já havia sido construído. Contudo, por picuinhas imbecis do queridão Morales, a Bolívia deixou seus clientes na mão, levando-os a buscar, naturalmente, outras alternativas de fornecimento. A Bolivia acabou perdendo uma grana federal garantidaça pelas próximas décadas. Pois é, mas mudar a constituição para declarar 36 línguas nativas "oficiais", nacionalizar todas as companhias estrangeiras e permitir que o presidente agora fique mais de 5 anos na presidêencia, ah isso ele conseguiu. Por essas e outras, a Bolivia continua muito mal e sua reputação internacional de produtor e exportador de cocaína provavelmente vai persistir, merecidamente e desafortunadamente, por muitos anos…

 
 
O boliviano em geral é bastante gente fina, embora pareçam preguiçosos e indolentes, fruto da má nutrição, falta de educação formal e, consequentemente, perspectiva na vida. Entre a população mais pobre, se fala mais Quechua (da época dos Incas) do que Espanhol. Este último alíás é bastante complicado de se entender por lá, provavelmente por conta da influência das línguas indígenas… Bolivianos compartilham nossa paixão por futebol e têm muito, mais muito orgulho mesmo de sua seleção. Dirigem automóveis, motos e ônibus como drogados e as ruas parecem um manicômio. Não existem "leis de trânsito", na concepção do termo, mais apenas "general guidelines": você obedece se quiser. Durante minha viagem, eu testemunhei varias motos 250cc muito velhas carregando familias inteiras, tipo casal com duas crianças pequenas, todos sem capacete, andando em alta velocidade na estrada. Falando de veículos, uma das coisas mais curiosas acerca de bolivianos se refere ao seu gosto duvidoso em relação a decoração interior. Como algumas figuraças dos subúrbios brasileiros, esse grupo decora suas kombis, variantes, brasilias, karmanguias e fuscas saídos dos anos sessenta e setenta com acessórios paraíbas como: pará-barro para os pneus; siri luminoso no câmbio; pelêgo multicolorido nos bancos; mãozinha pendurada no espelho retrovisor; e a variação em espanhol do adesivo "a inveja é um merda". Porém as únicas coisas que mancham a reputação dos bolivianos como povo gente boa e da paz, foram os assassinatos do Che Guevara e da dupla Butch Cassidy and Sundance Kid pelo exército. Pensando bem, Che Guevara era Argentino, então eles estão parcialmente desculpados…
 

 
Como o câmbio local se encontra em 7:1 em relação ao dólar, comer na Bolívia atualmente é ridiculamente barato. Não que isso seja uma vantagem significativa a ponto de se fazer turismo culinário, pois a comida boliviana não é assim tão gostosa, variada ou particularmente notável. Mas dá para visitar alguns poucos restaurantes de comida internacional frequentados pela elite local, a preço de banana. Os dois melhores exemplos são o Restaurante La Suisse, que serve comida gourmet bem razoável e o Makhassan, especializado em pratos japoneses e chineses "chiques".
 
 
A única atração turística da cidade de Santa Cruz que recomendo é o Biocentro Güembé, um complexo de atrações a poucos quilômetros do centro da cidade. Um verdadeiro oásis de prosperidade e beleza em meio a um deserto de pobreza.Você paga meros US $ 10 para ter acesso a todas as atividades e às instalações espalhadas em 24 hectares de gramados, nata nativa, riachos, piscinas naturais, flora e fauna locais. Você pode passear por todo o parque à pé ou de bicicleta (eles alugam se você não possuir uma). A primera atração é o Mariposario, uma gaiola gigante semelhante a uma estufa, onde são cultivadas flores e plantas específicas para criação em cativeiro de borboletas e mariposas raras e nativas (mais de 180 espécies diferentes). A primeira sensação que se tem ao entrar no meio do habitat natural dos lepidópteros é que se está invadindo uma casa alheia: uma nuvem de borboletas voa sem parar por toda a parte, dando a impressão que ficam a sua volta a dizer "vá embora". Uma vez que você se acostuma com o ambiente quase alienígena, a experiência é incrível: algo próximo a entrar dentro de um livro de conto de fadas. Inspirador. Pensei na hora que eu era a pessoa errada para estar ali. Devia ter levado um poeta comigo para me ajudar depois na descrição.
 
 
A segunda grande atração é o Aviário, uma gaiola gigante de 2,500 metros quadrados de 30 metros de altura e dois "andares" que abriga não só passáros exóticos como araras, tucanos, pavões, periquitos e outras aves canoras, como também mamíferos como macacos e, pasmem, bichos-preguiça. A sensação é que você está em um zoológico, só que na parte de dentro de uma jaula gigante. O interessante é que você pode chegar BEM perto de cada animal por sua conta e risco. Eu sei que para tirar algumas fotos eu fui muito abusado e talvez tenha me acercado mais dos bichinhos, muito mais do que o bom senso recomendaria.  Um dos micos quase me mordeu, o que poderia ter me transformado em um zumbi assassino, como no clássico gore do diretor Peter Jackson, Fome Animal (Dead Alive). Voltando ao tema principal, existe também um mirante no ponto mais alto do aviário, acessível por uma escada espiral interminável, que proporciona um bom visual 360 graus da cidade de Santa Cruz, muito legal para quem gosta de ver um mar de mata verde e barro vermelho.
 
 
Depois de curtir toda essa natureza – uma média de 3 horas para cobrir as duas atrações, mas a caminhada pelas trilhas do complexo – nada melhor que puxar um rango no restaurante local, um lugar rústico e aconchegante, especializado em comidas típicas bolivianas e com sabor caseiro. Por aproximadamente cinco dólares, incluindo bebida, você pode ter uma entrada de pãezinhos quentes com três tipo de molhos diferentes, trutas grelhadas como prato principal e torta gelada tres leches como sobremesa. Uma delícia, completamente fora dos padrões da comida boliviana servida no centro de Santa Cruz.
 
 
Bem no meio do complexo existe um lago de algumas calmas e esverdeadas, no qual você pode andar de caiaque (incluso no preço da entrada) por quanto tempo desejar ou simplemente caminhar, correr, andar à cavalo ou pedalar ao redor da ciclovia que circunda o lago. Se desejar relaxar e ficar mais tempo curtindo a natureza, pode alugar uma das cabanas disponíveis no Biocentro, com espaço para uma família de até seis pessoas. Para os que amam uma bebidinha regando um bom papo, há dois bares na beira do lago, um deles estratégicamente situado no meio dele, como em uma ponte larga ligando duas margens opostas. Grande visual.
 
 
A melhor atração do Biocentro são as piscinas naturais, de águas geladas mas convidativas – um alívio bem-vindo para o calor infernal onipresente em Santa Cruz. São dez piscinas de vários tamanhos, profundidade e altura relativa, todas interconectadas umas às outras, formando mini-cachoeiras que deixam todo o conjunto uma verdadeira jóia. Sombras estratégicas deixam você com vontade de dar uns mergulhos e lagartear durante todo o dia, já que os funcionários trazem tudo na boquinha, de aperitivos a bebidas. Dá para voltar a ser criança fácil, fácil. Dá uma puta dor na cosciência também saber que você está na Bolívia e que a maior parte da população não tem acesso ao complexo por falta de grana e/ou pela dificuldade de acesso.
 
 
Ao voar de volta para os EUA, passei por cima do Lago Titicaca, o mais alto (e navegável) lago de água doce do mundo. A experiência foi interessante, já que desde a 4a série, quando ouvi falar pela primeira vez dele, tinha curiosidade de ver como parecia de verdade o maior lago em extensão da América do Sul. Localizado entre Perú e Bolívia, suas águas são fascinantemente azuis, graças à altitude de 3,800 metros acima do nível do mar. De acordo com as lendas locais, os patriarcas Manco Cápac e Mama Ocllo saíram de suas águas para fundar o império Inca. A marinha boliviana faz exercícios de guerra nesse lago. Eu sei, parece piada ou absurdo, mas de fato a Bolivia tem uma Marinha de Guerra…
 
 

É isso.
 
Veja aqui quase 270 fotos em alta resolução da cidade de Santa Cruz. Não necessita fazer nada, basta clicar os links abaixo:
 
 
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda (options, abaixo à direita – marque always show titles) durante a exibição dos slides.
 
Aqui você encontra fotos Profissionais do fotógrafo americano Daniel Beams: http://www.pbase.com/beamsclan/bolivia. Ele ama o país de verdade…

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