Rocky Mountain National Park, Colorado – Setembro de 2008

 
Existem alguns momentos ímpares na vida que de tão especiais são muitos difíceis de descrever em palavras, dada a intensidade do sentimento associado àquelas memórias. O primeiro beijo, o momento do "sim" no altar, nascimento de uma filha… Ver as montanhas do Rocky Mountain National Park, no Colorado, pela primeira vez, ao lado da minha esposa, chegou perto de um desses momentos únicos: nada precisava ser dito ou explicado entre nós, aquela beleza indizível se bastava e alimentava as nossas almas. O impacto das cores, formas, cheiros, sons, o vento no rosto, riachos gloriosos, picos nevados, vales luxuriantes, lagos magníficos, tudo isso só leva a um resultado possivel: amor à primeira vista e lágrimas nos olhos. Se é verdade que a beleza comove mesmo os mais duros, ao ver a imagem da minha mulher rodeada por tudo aquilo, a mim me pareceu, ainda que por um breve momento, que Deus existe.
 
 
Depois de compartilhar com você um milésimo do meu sentimento, voltemos ao objetivo desse blog: tentar descrever o indescritível. Além de viajar para o Colorado, você precisa basicamente de quatro coisas para explorar essa maravilha: alugar um carro (incluindo um GPS), roupas de frio (não importa a época da visita), dois barris de protetor solar, e tempo, muito tempo (algo como uma semana) para cobrir as partes mais notáveis dos 1,075 quilômetros quadrados de parque e suas distintas zonas ecológicas. À medida que você circula pela estrada principal cheia de curvas e precipícios, os cenários vão mudando drasticamente em função das abruptas diferença de altitude, que seguem acontecendo de tempos em tempos durante o passeio, às vezes em alguns poucos quilômetros. Por exemplo, entre 2,200 e 2,700 metros de altitude (pois é, a falta de ar não se deve somente à beleza dos cenários), você encontra animais aos montes, florestas de pinheiros (ponderosa pines) e zimbros (juniper cloaks), flores selvagens, lagos e flora associada ao clima temperado. À partir de 3,500 metros – e 1/3 do parque se encontra nessa altitude – a paisagem é de tundra: rochas, neve – muito parecido com o que você encontra no Ártico.
 
 
Muitas das estradas do parque permanecem fechadas durante o Inverno, incluindo a principal que circula à volta dele, em seu trecho alpino, a mais de 3,600 metros – a rodovia pavimentada mais alta dos EUA. Os park rangers tem uma obsessão com segurança, pleanamente justificável: embora belo, o lugar é selvagem e a natureza, a senhora toda poderosa. Por isso recomendo a visita no Outono (como nós fizemos). Vale lembrar também que por mais que você queira se manter no carro e fechar o passeio em 2 dias, não há como: o tempo todo você será tentado a dar uma paradinha para ver algo espetacular de forma mais demorada.
 
 
Não tem muito mistério para acessar o parque. US $ 20 pagos na entrada (por carro) cobrem 1 semana. Ou você sai de Denver à caminho de Boulder, dirigindo-se para Estes Park (eu experimentei essa opção com a minha familia) ou você faz um caminho mais longo a partir de Golden pela Highway 40 (fiz esse sozinho). Esse último proporciona uma viagem inesquecível em meio as montanhas, especialmente se você sair de Golden por volta de 5:00am. O Clima em Setembro é tão agradável, que eu estava de calção, camiseta e tênis em trechos cobertos de neve! Outra maneira de explorar o parque é à pé com uma mochila nas costas (hiking) e na sela de um cavalo, duas maneiras efetivas de evitar as multidões que vêm visitar o parque todo ano, tipicamente no verão. Ele conta com quase 570 quilômetros de trilhas bem cuidadas, então opções diferentes não faltam.
 
 
O parque possui inúmeros locais espetaculares – tipicamente próximo a lagos – para piqueniques. Nós fizemos o nosso em Sprague Lake, com infra-estrutura completa: estacionamento, banheiros, água corrente, mesas e cadeiras rústicas, trilhas por volta do lago e nos bosques ao redor… Uma maravilha. Os patos e esquilos à volta, loucos por um rango grátis (proibido!), dão um toque especial. Para quem gosta, pescaria também é permitida.
 
 
Impressiona a quantidade abundante de vida animal e, às vezes, a impressão que se tem é que se passeia por um zoológico à céu aberto. Nós tivemos oportunidades de encontrar patos selvagens, marmotas, veados, alces (e seus respectivos haréns), esquilos, além de passáros e mais passáros. Um ornitólogo certamente terá orgasmos múltiplos ao visitar o parque. Infelizmente, por conta do tempo, sorte ou época do ano, não vimos outras figurinhas carimbadas da região como raposas, cabras montês, doninhas, lontras e porco-espinhos. Até ursos e o leão da montanha podem ser encontrados. A frase que eu escrevia de manhãzinha no quadro da minha sala-de-aula da quarta série – "Não Alimente os Professores", aqui tem um significado especial e importante: se você alimentar os animais eles podem morrer atropelados mais tarde por se aproximarem demais da rodovia ou mesmo perecer no inverno por não terem armazenado a quantidade de gordura adequada em seus corpos para enfrentar baxíssimas temperaturas. Isso sem contar o risco para o próprio turista desavisado que muitas vezes esquece que está se aproximando de um animal selvagem, imprevisível e potencialmente um vetor para doenças brabas como peste bubônica e raiva.
 
 
Não dá para falar das Montanhas Rochosas sem falar da intrépida inglesa Isabella Lucy Bird. Ela gastou 3 meses explorando as montanhas – em sua maior parte à pé, em uma época (1873) em que "lugar de mulher" era, de fato, na cozinha. Foi a primeira mulher a alcançar o topo do Longs Peak, a 4,400 metros de altitude. Interessante que realizou tudo isso a despeito da solidão, da ameaça de ataque de índios, do frio e da neve implacáveis e, sobretudo, após ter sobrevivido à remoção de um tumor na espinha 23 anos antes. Ela afirmava que todo o esforço e sofrimento eram justificados, para usufruir daquele que ela considerava o lugar mais romântico da mundo. E veja que Isabella já havia explorado antes a Nova Zelândia (terra onde a trilogia do Senhor dos Anéis foi filmada) e o Hawaii, entre outros locais estupendos… Maiores detalhes da incrível jornada que ela viveu, no livro "A Lady’s Life in the Rocky Mountains". Leitura obrigatória, especialmente para meninas.
  
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"It was something at last to stand upon the storm-rent crown of this lonely sentinel of the Rocky Range. Uplifted above love and hate and storms of passion, calm amidst the eternal silences,  fanned by zephyrs and bathed in living blue, peace rested of that one bright day on the Peak…" Lucy Bird
 
Existem dois restaurantes especializados em comida da montanha que eu recomendo quando visitar o parque. O primeiro fica na beira do Lake Granby: o Grand Elk Restaurant, especializado em lanches rápidos e pratos com base em peixes do lago, como a truta. A localização é privilegida, já que fica à beira de um mini-barranco porporcionando um visual bacana das mesas próximas às janelas. Além disso a comida é barata (para padrões americanos).
 
 
Outro restaurante muito bom é o Fontenot, especializado em comida Cajun, que fica na entrada da cidade de Winter Park, um popular resort de esportes de inverno, principalmente esqui. O hamburguer de carne de búfalo é acima da média (classificação excelente, vindo de um "texano") e a sobremesa de pudim de pão com molho doce caramelizado ao rum (mais uma bola se sorvete de baunilha) é supimpa. Pena que cobrem um pouco demais pelos pratos…
 
 
Não sei quando, mas sinto que um dia nos mudaremos para Denver, Colorado Springs ou Boulder. Só por causa das montanhas. Mesmo porque é bem mais factível que mudar para o Hawaii. Aliás, depois dessa entrada no blog, espero que você tenha mais um item na sua lista de coisas a fazer antes de morrer.
 
É isso.
 
Veja aqui mais de 200 fotos em alta resolução do parque nacional mais espetacular do Colorado. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
 
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda (options, abaixo à direita – marque always show titles) durante a exibição dos slides.
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One Response to Rocky Mountain National Park, Colorado – Setembro de 2008

  1. Claudia says:

    Tudo que vivo ao seu lado eh unico, eh nosso, eh o que faz nossa historia, nossa vida.Eu te amo e idolatro.Deus existe e, eu sei que vamos morar no Colorado.Lindo artigo amor!

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