Setembro de 2008 – Golden, Colorado

 
Imagine uma pequena cidade do Velho Oeste americano que você conhece de filmes antigos da TV. Agora imagine que a cidade sobreviveu até os dias de hoje sem crescer. Bem, essa é a definição de Golden, no Estado do Colorado, onde passei uma semana em um treinamento de imersão. Lema da cidade: "Where the West Lives!" Bonita, aconhegante e hospitaleira, Golden fez parte da famosa era da corrida do ouro, época em que foi fundada, em 1860. A herança é tão forte que a Universidade de Engenharia de Minas de melhor reputação nos EUA tem sede aqui: a Colorado School of Mines. Hoje com 17 mil habitantes, Golden vive basicamente da indústria de cerveja, do turismo e das visitas regulares dos amantes do alpinismo, trekking e esportes de inverno. Golden também é o local de descanso final do famoso Buffalo Bill e a sede do NEIC, National Earthquake Information Center, o cão de guarda americano para terremotos.
 
 
Golden é a terra da popular Cerveja Coors, uma "lenda" desde 1873 e que provavelmente vai existir por mais algumas centenas de anos, já que consumo de cerveja é à prova de crise econômica. A unidade fabril de Golden é a maior planta de fabricação de cerveja do mundo e produz cerca de 6 milhões de litros por dia. A empresa sobreviveu até à famosa crise de 1929 e da Lei Seca, quando inovou lançando uma das primeiras cervejas não alcóolicas, uma "near-beer", inventada pelo filho do fundador. Este último, alías, achava que o produto criado pelo filho tinha cor de cerveja, cheiro de cerveja, mas gosto de merda… Comentário fino e elegante, digno de integrantes das comunidades do Orkut: "Cerveja em copo de plástico, porra?"; "Chuto a macumba e bebo a pinga"; "Eu bebo quarqué trem"; "Larguei a bebida, nao sei onde" e "Eu bebo! Foda-se quem não bebe!"
 
 
O hotel onde fiquei, The Golden Hotel, tem sua própria história e uma decoração que fascina por seus motivos e artefatos do velho oeste. Parecia que eu estava hospedado em um salloon saído do seriado Deadwood: só faltaram as putas viciadas, o bandidão dono da cidade e o xerife honesto. O restaurante do hotel, assim como todos os outros da cidade, oferecia uma comida supreendentemente caseira, coisa pouco comum aqui nos EUA onde a comida é mais ou menos igual onde quer que você vá por causa do monopólio que grandes empresas fazem dos ingredientes básicos da cozinha do dia-a-dia, como molho de tomate. O Hotel fica no centro histórico da cidade e bem ao lado de um riacho chamado Clear Creek, uma beleza.
 
 
Um dos grandes baratos ao se visitar a cidade é um passeio pelo coração dela, a Washington Avenue. Praticamente todos os prédios são construções históricas bem antigas (século XIX) e fazendo parte da National Register of Historic Places. A única coisa chata é que as lojas funcionam de 10 da manhã até as 4 da tarde, fechando para almoço. Inúmeras estátuas feitas de bronze ou madeira, decoram a cidade. Cheias de vida, o tema da corrida do ouro e do velho oeste é recorrente.
 

 
O tipo de loja mais comum da cidade é aquela especializada em materiais e suprimentos para alpinistas. Aqui você encontra de tudo, do mais barato ao mais sofisticado. Além da proximidade das Montanhas Rochosas, Golden tem como símbolo um dos grandes objetos de desejo dos praticantes do esporte: a Table Mountain. A montanha é uma mesa (por causa do seu formato), feita de rocha basáltica criada por antigos jorros de lava. A única coisa creepy a respeito da montanha é que nos anos vinte ela foi palco de rituais de iniciação da Ku Klux Klan
 

 
Dois lugares muito bons para comer em Golden são o Woody’s Pizza e o Grappa Mediterranean Bistro & Cafe. Na pizzaria você pode curtir à noite os locais assistindo aos jogos de beisebol e futebol americano na TV, enquanto se serve de fatias de pizza (buffet: come até explodir) regadas a cerveja (Coors, é claro…). As pizzas feitas em um forno à lenha não são lá uma Bastemp (como a maioria daquelas feitas aqui no Texas), mas o climão do quase-bar e os americanos torcendo valem a visita. Já o bistrô é um lugar mais sofisticado, mais ainda assim com um surpreendente sabor de comida homemade (para padrões americanos: não é comida da sua avó). Se você tiver sorte de pegar um mesa com vista para o rio, a experiência será completa e satisfatória. Depois de uma saladinha para enganar minha consciência – em eterna vigilância enjoada por conta de uma suposta dieta – fui de um bife de alcatra (creio que é a definição de corte de carne que mais se aproxima de um New York Strip) com bastante pimenta. Impecável.
 
 
Outra atração da cidade é o Lions Park – também chamado Clear Creek White Water Park – construído pelo Lyons Club em 1960. Essa área verde feita para caminhar, correr ou andar de bicicleta, acompanha boa parte da extensão do rio principal da cidade, o Clear Creek, que enche bastante no inverno (por causa da neve derretida que vem das montanhas) e que serve de matéria prima para cerveja Coors. Atividades outdoors comuns para os visitantes são a pesca e a canoagem, esta última bem difícil por causa das águas turbulentas em alguns trechos. Ao longo do rio, existem áreas para concertos, onde imagino que recitais e shows intimistas devam acontecer, tanto à noite quanto durante os fins-de-semana. Diversas obras de arte – estátuas feitas em bronze – doadas por artistas locais e de Denver, decoram a trilha que circunda o rio.
 
 

Bem perto do parque encontra-se outra famosa atração turística, o Clear Creek History Park, uma área de 12 mil metros quadrados que abriga construções originais do anos 1870, época da colonização do centro americano, tais como cabanas feitas de tronco de madeira (log cabins), celeiros (barns), casas de ferreiros (blacksmiths shops) e até uma escola. Durante duas horas de caminhada, você pode interagir com atores que incorporam personagens da época, dar comida para as galinhas, ordenhar uma vaca e até estourar a sua mão tentando marretar uma ferradura em uma bigorna!
 
 
O restaurante/grill do hotel Table Mountain Inn é outra opção para jantar aqui em Golden. O hotel em si é uma atração não só pela sua arquitetura única de origem espanhola, mas tambem pela sua idade: 80 anos (no século XIX se chamava Holland House). O serviço é excelente e a comida também. Recomendo como aperitivo as flautas de camarão (um prato mexicano frito e, portanto, delicioso) e o bife de picanha, mas sem a gordura (top sirloin), servido com um mini-bolo de batata e cebolinha assado (potato cake), servido com molho agri-doce. 
 
 
Mas o mais espetacular passeio que temos disponível ao visitar Golden fica a apenas 30 minutos de distância, na cidade de Idaho Springs: a subida de carro até o topo do Mount Evans, na rodovia pavimentada mais alta do mundo. Só o passeio de carro pela Highway 103 no meio das montanhas já valeria a esticada, mas tudo começa mesmo a gerar Aahhhhs e Ohhhhs a partir da área verde que fica ao sopé da montanha, o Echo Lake Park. Local perfeito para pique-niques e um churrasquinho com a família e amigos, o lugar oferece uma vista embasbacante de um imenso lago, além do visual imponente ao fundo do Mount Evans. Inúmeras trilhas são oferecidas para os aventureiros e, com a devida autorização do governo da cidade, você pode até acampar. Como a maioria dos parques americanos, esse aqui conta com banheiros, água corrente potável e lixeiras espalhadas por pontos estratégicos.
 
 
Depois de pagar um pedágio de US $ 10 dólares e receber orientações do park ranger encarregado (especialmente sobre as condições da estrada), você parte de 2,700 metros acima do nível do mar, em direção ao cume, à 4,400 metros. A estrada estava vazia (era dia de semana) e a sensação de curtir aquele passeio sozinho, eu e o meu carro alugado com o sonzinho ligado, foi ao mesmo tempo emocionante e meio apavorante (coisa de viado mesmo). Mesmo no Outono, havia bastante neve (foi a primeira vez que vi neve na vida). A Mt Evans Highway começa com uma largura decente, mais rapidamente fica estreita pra cacete, e a excitação de dirigir em pista escorregadia sem guard-rails, na beira de (vários) precipícios é foda. Tinha uma parte do meu corpo que estava tão apertado que não passava nem ventinho.  Mas valeu à pena cada minuto, graças ao espetáculo visual a cada curva (e foram muitas!). A única coisa chata foi culpa desse jegue que vos fala: eu rasguei os ligamentos da minha perna direita ao tentar correr para posar para uma foto temporizada. Era uma subida íngreme, cheia de neve, um frio de trincar os bagos (+4oC), eu de tênis e calção (sem agasalho), gordo, lento, velho, marquei 15 segundos cravados para subir a ribanceira e dar um sorriso colgate. E o pior de tudo é que eu fotografei o exato momento da minha estupid…, digo, acidente! (veja o link com as fotos da viagem mais abaixo). Pois é, não foi um dos meus melhores momentos… Muito legal mesmo visitar o E.R. de Denver no meio das minhas férias, e passear pelo museu mais importante da cidade mancando. Mas isso é outra história…
 
 
Um encontro bizarro aconteceu quando eu estava "descendo a serra", em direção a Golden, no cair do dia. A estrada estava completamente deserta e eu curtia o pôr-do-sol nas montanhas de dentro do carro, quando vi um imenso veado parado na beira da highway. Imediatamente diminui a velocidade até parar bem perto do animal, no acostamento. O bicho, imóvel. Preparei a minha câmera e já estava ficando decepcionado, pensando que o suposto veado era na verdade uma enorme estátua. Foi quando o animal bufou e saiu aquela fumacinha de vapor condensado das narinas dele. Enquanto meu cérebro processava a informação (eu estava mais perto do que o bom senso recomendaria), um sujeito surge do nada me dá um tapinha nas costas. Cara, eu quase mijei nas calças ali mesmo… Mas era só um park ranger avisando que: (a) eu não deveria ficar tão perto de animais selvagens (Sua anta manca!); e (b) era perigoso deixar um carro estacionado no acostamento de uma estrada estreita, escura e… na curva! Mas um americano que vai pensar que todo brasileiro é um shit-head… A próposito, o veado não se mexeu durante todo o tempo e cagou para gente.
 
 
É isso.
 
Veja aqui todas as fotos (mais de 200) em alta resolução de Golden, no Colorado.
Para visualizá-las (slide show) é necessário um cadastro no yahoo.com ou yahoo.com.br, ou direto no flickr.com
Não esqueça de incluir a legenda (options, abaixo à direita – marque always show titles) durante a exibição dos slides. Todas as fotos podem ser baixadas/em altíssima resolução.
 
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