Setembro de 2008 – Colorado Springs, CO

 
Paisagens de beleza magnífica e um clima muito agradável (especialmente no outono) fazem de Colorado Springs outra jóia do famoso Estado do Colorado. A cidade e seus arrabaldes são tão belos que desde o século XIX a economia local tem sido sedimentada em torno de turismo, não na mineração como seus vizinhos. Até a origem da cidade está ligada à essa indústria. Ela foi fundada de forma indireta, em 1871, ano da inauguração de um resort que tinha sua própria estrada de ferro de acesso, chamado… Colorado Springs! Springs, por causa da imensa quantidade de fontes de águas minerais quentes que se encontram por aqui. A região também é uma das áreas mais atingidas por raios em todo os Estados Unidos. Até o famoso cientista (maluco?) Nikola Tesla – pai da corrente alternada – considerou o local como excelente ponto para construir seu laboratório de estudos de eletricidade.
 
 
Em 1806, o Lieutenant do exército Zebulon Pike liderou uma companhia de soldados para uma exploração ao redor da base de uma enorme montanha na região de Colorado Springs que hoje leva o seu nome, Pikes Peak. Mas na época ela a chamou de "Grand Peak", a declarou inconquistável e seguiu adiante. Wussy! A montanha de 4,300 metros já foi tantas vezes conquistada depois dele, que construíram até uma rodovia e uma ferrovia que leva turistas até o pico… A rodovia, Pikes Peak Highway, foi concluída entre 1913-15 por um astuto investidor chamado Spencer Penrose, que pagou na época
US $ 250,000 do próprio bolso para construí-la. O sucesso foi enorme e o investimento obteve um grande retorno para o Mr. Penrose. Subir até o pico de carro pela estrada, dizem, é uma aventura imperdível, que certamente vamos experimentar na próxima vez que voltarmos. Dessa vez optamos por passear de trem, pela Pike’s Peak Cog Railway, que utiliza um trem de tecnologia suiça desde 1989. Tanto a subida como a descida de 1 hora e meia cada (14 quilômetros até o topo) valem cada penny dos US $ 31 por cabeça: as paisagens espetaculares são deixar qualquer um, por mais blasé que seja, boquiaberto. No caminho, um mar verde de florestas e vida selvagem. Estima-se que algumas árvores tenham mais de 2,000 anos de idade. As janelas do trem são enormes e permitem uma visão 100% clara do que se passsa lá fora, ótima bocada para fotografias.
 
 
 
Passear no topo do Pikes Peak vale todo o sofrimento. Ao desembarcar do trem você enfrenta um frio do cacete, ventania, falta de ar (somente 50% do oxigênio que respiramos ao nível do mar), vontade de vomitar e uma dor-de-cabeça monumental. Mas tudo isso fica em segundo plano com o desbunde das paisagems alucinantes. As fotos em alta resolução estão um primor, mas não se comparam com a realidade. A companhia de trem oferece 40 minutos para que apreciemos o cume antes de rertornar. A preocupação com o horário é grande: esteja no trem pontualmente ou a descida à pé será loooonga. Por falar nisso, alguns malucos por hiking sobem o pico à pé. Uau! Definitivamente não é para os fracos de coração…
 

 
 
No sopé de Pikes Peak fica localizada a pequena cidade de Manitou Springs, outra jóia do Colorado nas montanhas. Personalidade essa cidadezinha de somente 5,000 habitantes tem de sobra, oferecendo paz e sossego para uma caminhada pitoresca, acompanhada por visitas às inúmeras lojinhas de arquitetura vitoriana em madeira. Manitou em língua indígena significa "Grande Espírito", por que os índios acreditavam que Ele assoprou nas fontes de água da cidade, para que elas ficassem mais quentinhas… A cidade conta com mais de 15 fontes termais e foi uma pena que não tivéssemos tempo de visitar ao menos uma. No século XIX a cidade era um grande magneto de pacientes com tuberculose por causa da altitude e das suas águas naturais, ideais segundo médicos da época para uma recuperação.
 
 
Almoçamos aqui mesmo, nesta cidade, no popular restaurante quase-vegetariano (healthy foodAdam’s Mountain Cafe, que serve pratos gourmet da cozinha da montanha desde 1994. As porções não são para dividir e o preço é justo pelo sabor surpreendente. O ambiente é muito agradável, o serviço, excelente, e o lugar bem decorado e próximo a um riacho. Todos os pratos que pedimos estavam deliciosos, com exceção do hamburguer de soja da minha filha mais nova (isso segundo ela: a coitada não sabia do lance vegê…). Minha esposa pediu umas enchiladas e eu fettuccine, ambos de salmão.
 
 

Depois do almoço visitamos um dos cartões postais da cidade, o

Garden of the Gods, um sítio geológico de vários quilômetros de extensão, conhecido por suas formações rochosas gigantescas de arenito vermelho (sandstone), esculpidas pelo vento e pela chuva por milhões de anos. Com sua visão única para o turismo profissional, os americanos construiram uma infra-estrutura impecável para curtir o parque de carro, ônibus (do próprio parque), de bicicleta, cadeira de rodas (sério) ou à pé, nossa opção. Caminhar é seguro desde que você fique na trilha, por causa de uma ou outra cascavel (especialmente ativas no verão). Existe um Visitor Center que, além da indefectível Gift Shop, proporciona aos turistas mapas, dicas e uma apresentação multimídia tipo geology for dummies: "How Did Those Red Rocks Get There?". Excelente para crianças. O pessoal encarregado de Vila Velha (PR) deveria ter um estágio por aqui… As trilhas são tão extensas que mesmo entre centenas de visitantes você se sente isolado, como se o parque fosse só seu. Além da oportunidade óbvia de passear só para admirar essa maravilha da natureza, muitos optam por escaladas (rock climbing), pique-niques, dog walking, celebração de casamentos e fotografia. Toda essa região antes da colonização americana pertencia ao "povo da montanha" – os Ute – e aos búfalos – centenas de manadas. O preço do "progresso" foi alto e ambos foram "caçados" até quase seu extermínio. Enquanto os índios usavam virtualmente cada parte dos bufálos abatidos, as caravanas os matavam na maioria das vezes por puro prazer, deixando as carcaças para apodrecer na padraria.


 
Durante a Primeira Guerra Mundial, a um custo de US $ 2 milhões de dólares Spencer Penrose (sim, ele de novo) construiu aquele que representa o que todo hotel cinco estrelas deveria ser em termos de beleza, qualidade e luxo: o Broadmoor Hotel, aos pés da Cheyenne Mountain. Viver como uma família de classe média nos EUA nos abriu oportunidades de acesso a coisas que na América Latina são reservados ao ricos. Mas sempre tivemos uma curiosidade: como vivem os ultra ricos estadunidenses? Parte da resposta foi respondida visitando esse hotel luxuossísimo cuja diária varia de US $ 750 a 3,500. São 13 quilômetros quadrados de jardins floridos, um grande lago privado (Cheyene Lake), um complexo de piscinas que mais parece uma extensão do lago, campos e montanhas ao fundo, assim como prédios construídos em estilo italiano renascentista e cuidadosamente mantidos. O interior é de cair o queixo: escadas em mármore, corrimões trabalhados à mão, candelabros, azulejos, tetos ornamentados, cerâmicas da dinastia Ming, fontes, pinturas de artistas famosos, tudo inspira luxo. O hotel ainda conta com doze restaurantes, um campo de golfe de categoria internacional e nove quadras de tênis climatizadas. Ele tem uma média de dois empregados para cada hóspede…. Minha esposa quis me matar por levar a família para o tour pelas instalações do hotel vestidos como jecas, todos com caras de cansados, ao final de um longo dia de turismo na cidade. O que posso dizer em minha defesa (além do tradicional "pobre-é-uma-merda")? As fotos de paisagens sempre ficam mais bonitas ao por-do-sol…
 

 
Por falar em Cheyenne Mountain, vale à pena mencionar aquele que dificilmente pode ser considerado um lugar turístico (mas é: tem até Gift Shop). Essa montanha abriga o Cheyenne Mountain Complex, central de comando do North American Aerospace Defense Command (NORAD), construído em 1966. Lembra do filme dos anos oitenta "War Games"? Foi parcialmente filmado aqui. Desde a Guerra Fria até hoje, essas instalações subterrâneas (600 metros dentro da montanha) – teoricamente à prova de ataques nucleares – coletam dados do sistema de satélites em órbita, radares e outros sensores, para processar dados estratégicos em tempo real.  Soldados americanos e canadenses em grupos de cinco se revezam em turnos de 12 horas, com uma só missão: distinguir quais são os lançamentos de mísseis rotineiros daqueles em direção ao solo americano, que significariam o fim do mundo tal qual o conhecemos. Tudo bem que hoje em dia eles devem monitorar mais testes de mísseis no Irã e na Coréia do que um ataque soviético surpresa, mas deve ser meio estressante trabalhar por aqui… Afinal, ainda existem milhares de silos nucleares ativos dos dois lados e a chance de um Armageddon acidental ainda persiste, infelizmente. Todos os que servem aqui nessa base sabem que em caso de guerra, eles serão primeiro alvo e que Cheyenne Mountain vai acabar se tornando Cheyenne Valley
 
 
A cidade também é a terra da famosa U.S. Air Force Academy, inaugurada em 1958 ao custo de US $ 200 milhões de dólares. Por causa da grande quantidade de instalações militares presentes na região, acredito que a população americana local (81% de brancos) seja bastante conservadora e, definitivamente, republicana.
 
Downtown Colorado Springs é muito aconchegante e tranquila, algo supreendente para uma cidade que tem em torno de 380,000 habitantes e mais de meio milhão na região metropolitana. O mais legal é o climão de uma cidade moderna com ares de uma pequena Western town, como nos filmes. Lojas e restaurantes de todos os preços e gostos têm de montão. Passear pela cidade ao cair da tarde, principalmente no fim-de-semana, não deixe de ser um programão, exceto pelo problema onipresente da falta de ar: como Colorado Springs fica a 1,800 metros de altitude, somente conseguimos respirar 2/3 do oxigênio encontrado no nível do mar. 
 
 
Para encerrar o dia jantamos naquele que, segundo os locais, é considerado o melhor restaurante Mexicano da cidade: o Amanda’s Fonda. O restaurante é bastante tradicional e tem sido gerenciado pela mesma família de origem mexicana já há cinco gerações. Além dos pratos típicos você pode curtir a decoração multi-colorida estilo México e o show de danças típicas. As porções foram, como sempre por aqui no Colorado, just OK. Pedimos a tradicionalíssima fajitas de carne e frango grelhados, com os acompanhamentos tradicionais: arroz e frijolles (feijão manteiga) mexicano, pico de gallo (um tipo de vinagrete temperado com cilantro), guacamole (pasta de abacate salgado) e tortillas quentinhas de farinha. Good deal!
 
 
 
Colorado Springs foi eleita a "melhor cidade grande para se viver" nos EUA, pela revista Money (atualmente pertencente à CNN) em 2006. Eu particularmente, concordo 100% com a opinião do General Wiliam J. Palmer, fundador da cidade (1871): "Could one live in constant view of these grand mountains without being elevated by them into a lofty plane of thought and purpose?" Não, eu não poderia. Certamente vamos voltar. Talvez para morar.
 
Veja aqui todas as fotos (quase 280) em alta resolução de Colorado Springs.

Para visualizá-las (slide show) é necessário um cadastro no yahoo.com ou yahoo.com.br, ou direto no flickr.com

Não esqueça de incluir a legenda (options, abaixo à direita – marque always show titles) durante a exibição dos slides. Todas as fotos podem ser baixadas/em altíssima resolução.
 
É isso.
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