Janeiro de 2009 – Quito, Equador – Parte 1/2

 
Quito fica em um lugar alto pra cacete. Quase 3,000 metros de altitude, no topo da cordilheira dos Andes. Mais de dois milhões de pessoas se espremem entre as montanhas nevadas e vulcões. O aeroporto da cidade, de altíssima rotatividade por causa dos turistas que vêm para visitar Galápagos, é uma zona. Construído nos anos 60, hoje é um ovinho esprimido por todos os lados por áreas residenciais. Muito, muito pior que a situação de Congonhas (dê uma espidada na foto abaixo…). Os aviões parecem que dão rasantes bem próximo às casas, com uma periodicidade inquietante.
 

 
O nome da cidade vem da população original da região em 1,400 A.C. – Los Quitus. Quito já foi uma importante cidade Inca, mas todas as construções originais foram arrasadas pelos espanhóis. A partir de suas bases, os conquistadores construíram igrejas, conventos e palácios. O nome do país, Equador, vem do círculo imaginário (latitude 0) que divide o planeta pela metade. Sei que parece óbvio, mas existem uns anormais desatentos compulsivos como eu, que levam anos (eu falei anos) para descobrir que o Pentágono tem esse nome porque o prédio do departamento de Defesa americano tem o formato de um… pentágono. Por falar em Estados Unidos, a moeda do Ecuador é o dólar americano, o que faz o país um destino popular de imigrantes provenientes da Colombia e Perú. Ironicamente, há uma quantidade enorme de comunidades de imigrantes equatorianos nos EUA e na Espanha (aproximadamente 20% da população total). O custo de vida é baixo, especialmente alimentos, gasolina e taxi. Eu paguei por uma corrida de 15 minutos 65 cents! (não existe a famosa "bandeirada" por aqui…)
 
 
Os quiteños são gente muito boa, abertos a estranhos e excelentes na prestação de serviços, sempre rápidos e eficientes. Por conta da forte herança católica (95% da população) e o relativo isolamento de décadas nas montanhas, os quiteños são tradicionalistas e bem família. Querer morar sozinho aqui é considerado estranho e, de certa forma, uma aberração anti-social. Eles gostam de brasileiros, especialmente por causa da paixão compartilhada pelo futebol. A única bronca deles é com Colombianos, que são vistos como espertalhões que vêm para o Ecuador ganhar dinheiro mole e roubar empregos dos locais. Caso típico são as prostitutas: as equatorianas confessam que as suas rivais são mais bonitas e as acusam de "roubar seus maridos e companheiros". A realidade é que existem vários esquemas de prostituição operando no país que mantém colombianas como escravas… 77% da população é mestiça, com alguma herança indígena visível em seus traços. Devido a séculos de uma dieta pobre em proteínas e o componente genético, o equatariano médio é baixinho. Quase não vi negros em Quito e aparentemente os poucios que existem vivem no litoral do Pacífico, em cidades como Guayaquil. A sociedade equatoriana é reconhecidamente desunida, provavelmente resultado de traumas antigos, provenientes da época da colonização espanhola, quando os invasores tentavam escravizar os indígenas e quando conseguiam, desprezavam-nos por serem "preguiçosos". O racismo ainda existe e pode se o motivo da citada desuinião. 2/3 da população equatoriana vive abaixo da linha de probreza, de acordo com a UNICEF. Last but not least. O machismo é um problema pior aqui do que em todo o resto da América Latina. De acordo com estatísticas governamentais, 80% das mulheres vivendo dentro uma relação afetiva já sofreram algum tipo de violência. Em Quito, uma média de 70 casos de abuso doméstico são reportados diariamente.
 

 
A cidade de San Francisco de Quito foi fundada em 1534 por Sebastián de Belalcázar, um mané que pensava que a região escondia a maior parte do tesouro do recém assassinado Atahualpa (veja a história completa desta barbárie aqui). Quito é a capital mais antiga da América Latina e a parte antiga da cidade é uma jóia que pôde conservar seu traçado original e sua arquitetura colonial, enriquecida pelas novas edificações dos séculos XIX e XX. A UNESCO declarou Quito patrimônio cultural da humanidade em 1978. O policiamento na cidade velha é ostensivo e os agentes municipais são bilingues e treinados para servir de guias. Fazer turismo a pé na cidade não é para os fracos de coração: um sobe e desce de ladeiras muito íngremes, sem a recompensa de uma boa inspirada de oxigênio no final de cada rampa. Sério, às vezes parece que você vai literalmente morrer de falta de ar. Outra dificuldade para ese tipo de turismo de pobre é que o tempo não ajuda: Grande altitude + Clima Equatorial = Frio de trincar as bolas, chuva, vento e calorão, tudo no mesmo dia.
 
 
Se vende de tudo nas ruas do centro da cidade. Especialmente comida e artigos religiosos. Mas nada se compara à indústria ilegal perfeitamente formalizada da pirataria. É descarado. Não existem lojas "normais" de CDs e DVDs, somente "estabelecimentos" de venda de artigos piratas, empregando mais de 5,000 pessoas somente em Quito. Cada filme ou CD se vende por um dólar, sendo o custo das "distribuidoras" de US $ 0,40 cada. Em um ano, 70 milhões de CDs/DVDs virgens entram no país. A categoria de "vendedores" tem sua própia associação estabelecida e luta para "legalizar a venda de produtos piratas". Adoro piada pronta.
 
 
No centro do centro histórico encontra-se a Plaza de la Independencia – também chamada de Plaza Grande – que conta com um monumento central feito em bronze e mármore que honra os caídos na guerra de independência e celebra sua vitória. A praça se encontra rodeada por grandes atrações: o Palacio Carondelet, sede da presidência da República; o Palacio de Arzobispo, residência do bispo desde o século XVI, atualmente transformado em um mini-shopping; e a Catedral Metropolitana de arquitetura com influências mouras, finalizada em 1565 e atualmente a mais antiga igreja católica da América do Sul, lugar de descanso de governantes e heróis de equatorianos (são dois grupos distintos…). Só não aconselho a provar do vinho da missa. Um padre foi assinado aqui anos atrás, em plena cerimônia, depois que o vinho cerimonial foi "batizado" com estricnina. Provavelmente algum menino buscando revanche… (OK, prometo não fazer piadas de baixo calão e gosto duvidoso até a próxima entrada no meu blog!).
 

 
A igreja mais impressionante de Quito é a Basílica del Voto Nacional ou Catedral Consagrasión de Jesús. Edificado em 1873, esse templo religioso de arquitetura neogótica homenageia a consagração do Estado equatoriano ao Sagrado Coração de Jesus. Uma das coisas que a torna única são seus supreendentes gárgulas inspirados na fauna local como tatus, iguanas e tartarugas das ilhas Galápagos.  A melhor hora para visitá-la é cedo pela manhã, quando o sol nascente entra pelos vitrais nas paredes e gera um efeito quase mágico no gigantesco interior, de 115 metros de altura e 24 capelas internas. Os referidos vitrais coloridos contam a história da vida adulta de Jesus.
 

 
 
Outras três igrejas de visita obrigatória são: La Iglesia de La Compañia de Jesus (ou simplesmente La Compañia), de estilo barroco, concluída em 1765 depois de 163 anos de trabalho; Monasterio de San Francisco, finalizado em 1580 como uma igreja em estilo neoclássico; La Iglesia de La Merced, concluída em 1736; e La Iglesia de San Agustin, de 1669. 
 



 
Na Iglesia de La Compañia de Jesus encontra-se os restos mortais da Padroeira de Quito, Mariana de Jesus. Em 1645, uma combinação de uma epidemia de sarampo e difteria, somado a um terremoto, matou cerca e 14,000 pessoas na cidade. Nesse mesmo ano, a jovem Mariana de 26 anos, órfã de uma família abastada e aristocrática da cidade, que já havia doado toda a sua fortuna para os pobres, começou milagrosamente a curar doentes. Diz a lenda que ela fez um acordo com Deus, oferecendo sua vida em troca da salvação de todas as outras pessoas da cidade. Após a barganha ela caiu doente quase que imediatamente, morrendo em pouco tempo. Logo após a sua morte as pragas que assolavam a cidade subitamente acabaram e não houve mais terremotos. Curiosamente, pouco antes de sua morte, como era costume na época, os médicos tiraram seu sangue e jogaram no jardim de sua casa. Lírios cresceram nos pontos onde seu sangue tocou o chão. Por essa razão, quando o papa canonizou Mariana, chamou-a de "O Lírio de Quito".
 
 
Existem dois restaurantes que eu recomendo no centro histórico. O primeiro é o restaurante "chique" Mea Culpa, localizado no segundo piso do Palacio de Arzobispo, que serve comida internacional. Unanimidade entre os locais, não pude deixar de seguir a sugestão de amigos e experimentar a famosa corvina assada ao forno. O outro restaurante é típico e baratinho, bem ao lado do Monasterio de San Francisco: El Tianguez. Depois de uma entrada popular no país – empanadas fritas com recheio de carne e ricota – provei o famoso PF típico do país. Os componentes básicos do plato típico são: plátano, um tipo de banana verde frita (o Equador é o maior exportador de bananas do mundo); porquinho assado (pode ser frango também); avocado (fatias de abacate temperado); llapingacho, um bolinho de batata baroa (não é mandioquinha, nem batata salsa, criatura ignorante!) recheado com queijo derretido e cebola picada; vinagrete; e milho cozido sem casca.
 

 
 
Continua…
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3 Responses to Janeiro de 2009 – Quito, Equador – Parte 1/2

  1. Flavio says:

    Grande Paulo!!! Depois de um longo e tenebroso inverno, consegui finalmente um tempinho para passear no seu Blog. Muito legal, diga-se de passagem. É uma perfeita falta do que fazer, escrever este tantão, eihn? kkkkk. Acho muito legal suas fotos de comida, pois só um glutão como você poderia fazer. Mas pelo jeito, você está finalmente aprendendo a comer bem, com qualidade. Mas, deixando as brincadeiras, meu amigo, parabéns pelo blog. Seu blog é deveras inspirador e sou seu plagiador número 1 (menos as fotos de comida).Grande abraço.

  2. Paulo says:

    Legal. Um sujeito chamado "No name" acaba de me fazer um elogio que mais parece um insulto e eu não sei quem é… 8-))) Por favor identifique-se!

  3. JOSY says:

    PARABÉNS!! ADOREI , QUERO IR A QUITO AINDA ESSE ANOS,VEJO QUE É UMA CIDADE GOSTOSA COM BELAS PASSAGENS E UM CLIMA MARAVILHOSO, BELO TRABALHO,UM ABRAÇO,JOSY RODRIGUES

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