Maio de 2008 – Lima, Peru – Parte 2/3

 
Voltemos à descrição da Lima colonial. Outra grande atração da região é o Monasterio de San Francisco e suas catacumbas, uma verdadeira jóia da cidade. Mesmo se você não é fã de igrejas, não perca esse programa. A fachada já impressiona pela majestade, assim como a quantidade significativa de pombos, quase um "tapete". As crianças pequenas adoram correr atrás deles, mas eu já mantenho uma distância segura já que os considero ratazanas com asas… O monastério contem uma exposição permantente de pintores famosos (como Rubens e Zurbaran). O interior da igreja, toda decorada em motivos geométricos mouros, foi construido em 1625 e nunca sofreu grandes danos, graças às sólidas bases proporcionadas pelas suas catacumbas. Elas costumavam ser o principal cemitério de Lima até 1810. A imensa rede de túneis sob o solo é aberta ao público e gera um passeio de no mínimo 2 horas. Muito legal andar sobre cadáveres – ossos e crânios semi-enterrados no chão – e imaginar como seria se houvesse repentinamente algum problema com as luzes que iluminam pifiamente o interior das catacumbas. São centenas de prateleiras cheias de ossadas. How cool is that? Conta a lenda que esses túneis se estendem por todo o subterrâneo da cidade, mas eu comprovei somente uma passagem secreta para o Palacio do Governador. Coisa de filme, não? Pena que ele proibem fotos no interior das catacumbas…
 

Próximo da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte (uma igrejinha colonial bem velha, suja e mal conservada da redondeza), se encontra aquele que é um dos melhores restaurantes de Lima, segundo os locais: La Buena Muerte. Mas o nome é merecido por outro motivo, além da proximidade da dita igreja: você pode morrer feliz de tanto comer… A cozinha peruana já surpreende pelas misturas supreeendentes e sabores incríveis, mas esse restaurante eleva a experiência de comer fora a níveis transcendentais. O lugar é um buraco muito, mais muito feio e simples, porém limpo e com comida farta, barata, deliciosa e, de quebra, som ao vivo com boleros da melhor qualidade. A bang for your buck. O couvert é por conta da casa: um onipresente prato típico Peruano, feito de milho (quase como pipoca com casca) e chips de batata doce. Os pratos que recomendo são: o Anticuho de Pescado, uma corvina celestial com molho agridoce de pêssegos – um dos melhores pratos que já provei na vida; a Causa de Atun e Aceituna, outro prato frio típico peruano,  um tipo de bolo de batata recheado com a tum e azeitonas que não vai ao forno; o Risotto de Frutos del Mar; e o fantástico Saltado de Pescado, o mesmo que o Lomo Saltado (veja a descrição aqui), só que com tiras de filé corvina empanada, ao invés de tiras de carne. Tudo isso regado a Inka Cola, o refrigerante mais consumido do país, semelhante às tubaínas brasileiras.


Outra grande atração da Lima Colonial é o Museo de La Inquisicion criado em 1968 e que funciona no antigo prédio do Senado Nacional. A Inquisição espanhola, conhecida também como Tribunal del Santo Ofício de la Inquisicion foi uma instituição criada em 1478 pelos reis católicos teoricamente para manter os cristãos na linha, mas na prática se tornou um dos cápitulos mais tenebrosos e intolerantes da Igreja Católica, juntamente com a Idade das Trevas e o silêncio deliberado diante das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. A Inquisição se tornou um instrumento de tortura, pretexto barato para perseguição aos judeus, repressão ao protestantismo, censura deslavada e moralismo sexual usando terror. Ela só tinha competência sobre cristãos batizados, mas estendeu suas garras negras para virtualmente qualquer "infiel" que cometesse uma "heresia". Penas duríssimas se aplicavam para quase qualquer coisa que conviesse aos inquisidores, incluindo adultério feminino, amizades ilícitas (!?), homossexualismo (sodomia), crença religiosa diferente da Católica, pensamento liberal e bigamia. Uma mulher muito inteligente, independente ou empreendedora (como parteiras, que apresentavam concorrência aos médicos homens) eram sumariamente julgadas por bruxaria. Ou elas morriam por decorrência das torturas por não confessarem que eram bruxas, ou morriam queimadas em uma fogueira, por confessarem que eram bruxas! Oficialmente mais de 1,500 "súditos" do rei da espanha perderam a vida nas mãos da inquisição no período 1700-1750, mas é um número ridículo perto do banho de sangue que de fato ocorreu.



Inquisidores eram como "faxineiros" encarregados da limpeza da fé católica, que muito frequentemente abusavam de seu poder. Ninguém se atrevia a falar, pensar ou respirar um pouco diferente. Se o suspeito era mais abastado, poderia "confessar" sua heresia e "pagar" a Igreja como penitência por seus pecados, muitas vezes com toda a sua fortuna e bens. As técnicas e instrumentos de torturas usados pelos inquisidores eram diabolicamente habilidosos para provocar a maior dor possível, sem deixar o torturado desmaiar. Por vezes duas formas de torturas eram superpostas, como o caso do potro, onde o suspeito era amararrado pelas extremidades e por meio de engrenagens se puxava todas as cordas de uma só vez, lentamente. Quando a vítima estava bem "esticadinha", os inquisidores aplicavam o castigo del agua, onde água era vertida diretamente dentro da boca, produzindo uma sensação de afogamento "regulável".

 

Outro excelente museu que existe no centro histórico da cidade é o Museo Banco Central de Reserva del Peru, inaugurado em 1980 e que conta com uma exposição de arqueologia pre-colombiana, história e arte peruanos. Por apenas dois dólares você têm acesso: a uma impressionante coleção de artesanato inca feito em ouro maçiço, estocados em um cofre enorme no subsolo do prédio; uma exposição numismática (coleção de dinheiro – notas e moedas); pinturas – arte moderna – peruana, de muito boa qualidade; algumas peças feitas pelos indígenas da amazônia peruana; e uma infinidade de fatos históricos acerca do país.


Bem próxima ao museu se encontra a obra colonial barroca Iglesia de San Pedro, também conhecida como Basílica y Convento de San Pedro e edificado pela Companhia de Jesus (ela mesma!) a partir do século XVI. Durante décadas foi o templo da aristocracia de Lima, local ondes acordos e casamentos entre famílias importantes eram selados.


Outra igreja clássica e famosa da Lima Colonial é a Basílica y Convento de Santo Domingo, que levou cinco anos para ser construída e foi concluída no século XVI. Por 1 dólar você pode conhecer o belíssimo claustro do complexo, cujas paredes são decoradas com azulejos espanhóis do século XVI. Dá até direito à visita claustrofóbica à tumba de Santa Rosa de Lima.

 

A Convento e Iglesia de La Merced ou Basílica de Nuestra Señora de la Merced, situada nesta região colonial de Lima, também merece uma visita. Construída em 1535, depois do terremoto de 1746 foi parcialmente restaurada. Todo 24 de setembro ocorre uma procissão militar/religiosa nas ruas de Lima, ocasião onde a imagem da Santa –  Nossa Senhora das Mercedes, protetora dos militares – desfila junto com a parada. Fray Pedro Urraca, cujos restos se encontram no subsolo da igreja, representou uma das grandes figuras religiosas do Perú por sua grande obra orientada à caridade. Quando ainda era um rico comerciante, conta-se que o navio em que viajava desde a Espanha estava a ponto de naufragar por conta de uma tempestade. Pedro Urraca ofereceu sua vida à Virgem se conseguisse salvar-se. De pronto o mar serenou e ele continuou sua viagem até Quito. Pedro cumpiru sua promessa, fez seu noviciado no Equador, para depois ser enviado para Lima. Pois é, promessas desse tipo são perigosas, como desmontrou o escritor britânico Graham Greene no clássico imperdível (mais tarde transformado em filme) "The End of Affair".

  

Um grande restaurante nessa região de Lima é o Tanta, que serve um dos melhores Lomo Saltado do Perú, segundo locais, com a vantagem de ser bem pertinho da Plaza de Armas, próximo à pedra fundamental da cidade. Os Taquitos, aperitivos fritos recheados com lombo de porco (como um mil folhas salgado enroladinho) para serem mergulhados em um molho de queijo picante, são irresistíveis. As sobremas, tortas, bombas e folhados, divinas…


Continua…

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