Maio de 2008 – Lima, Peru – Parte 1/3

 
Eu aprendi a andar com 2 meses de idade. Sério. Eu era tão feio que ninguém queria chegar perto para me alimentar. Daí a aprender a andar sozinho até a geladeira para pegar o meu mamá foi um pulo. Digo isso para comprovar minha autoridade sobre o tema, já que venho me olhando no espelho todos os dias nos últimos quarenta anos. Por causa dessa certificação, posso afirmar com toda propriedade que Lima tem o povo mais feio da América Latina. Aparentemente todos os obstetras da cidade são míopes e depois do parto sistematicamente jogam as crianças no lixo e entregam as placentas para as mães criarem…
 
 
Boa parte da cidade é tão feia quanto seus habitantes. Em geral, tudo é muito cinza: o céu, os prédios, o ar e mesmo a água. Herman Melville (o famoso autor de Moby Dick) afirmou uma vez que Lima era a cidade mais triste do planeta Terra. A maioria dos locais não é tão gentil e simplesmente diz: "Lima é horrivel". Ela lembra muito a maior cidade do interior do mundo, São Paulo. Só que não tão grande – são 9 milhões de pessoas – e definivamente não é "o avesso do avesso, do avesso do avesso". Praticamente não chove o ano inteiro e a poluição do ar é de matar, agravada por uma frota de veículos enorme e muito velha e por 7,000 fábricas jogando porcaria no ar. As praias são cinzentas e as águas do pacífico são extremamente frias. Embora não seja um excelente local para um resort, Lima tem uma indústria de pesca fortíssima. Um peruano me disse que você não existe pesca industrial em águas paradisíacas, pobres em alimentos para peixes de consumo de massa.
 
 
O povo peruano, como tive oportunidade de dizer aqui é muito amável e carinhoso para com visitantes. O serviço em geral – restaurantes, atrações turísticas, hotelaria – é excelente, muito acima do padrão latino. Gostam muito de futebol, mas as grande paixões esportivas são o frontón, um jogo de raquetes muito parecido com o squash e o golfe, mesmo entre a classe média. Como em todos os países da América latina, a desigualdade social é grande. 1/3 da população não tem acesso a saúde pública e confia suas vidas a curandeiros, especialistas em remédios espirituais e "naturais". A sociedade peruana é predominantemente machista e um homem casado ter várias amantes e quase normal. Divórcio não é incomum, mas muito difícil de ser obtido.
 
 
Os locais dizem que o trânsito de Lima é "pesado". Caos é a palavra mais adequada que me vêm à mente. Ceder à passagem para outro veículo é considerado uma heresia tão grande quanto imaginar qual seria o símbolo do Cristianismo se Jesus tivesse sido enforcado e não crucificado. Com uma frota estilo sucata ambulante, ruas estreitas, planejamento urbano inexistente, péssima sinalização, ausência de policiamento e um desrespeito sistemático por tudo que se move e não é automóvel, ônibus ou caminhão, o trânsito de Lima é uma grande piada de mau gosto. A população é transportada por kombis e pequenos ônibus velhos – caindo aos pedaços mesmo – configurando uma indústrial 100% informal. É como se todo o transporte público de São Paulo fosse feito pelos perueiros e motoboys. Os taxis rotos existem em quantidade, mas como saber se são seguros ou não? Além disso, ai de de você se não negociar a tarifa antes de partir para o seu destino final: vai ser roubado na conta seguramente (não se utiliza taxímetro em Lima).
 
 
A primeira impressão de Lima é logo posta a escanteio quando se conhece um pouco melhor a cidade. A grande atração turística da cidade é a área colonial, localizada em uma parte segura do Centro, muito colorida e bem conservada. Trata-se de uma pérola que se destaca do cenário permanentemente nublado e melancólico, monotonamente cinza, causado pelo fenômeno da Inversão Térmica. Francisco Pizarro, El Conquistador, projetou a cidade em 117 quarteirões (13 x 9 ruas), em cima de um grande vilarejo indígena existente às margens do rio Rimac, cujo nome derivado acabou batizando a cidade. Por dois séculos depois de sua fundação, Lima foi a capital política, comercial e eclesiástica da América Espanhola. O centro da Lima colonial – considerada patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO – era a Plaza Mayor (conhecida anteriormente como Plaza de Armas), cercada pela catedral da cidade, o palácio do governo e outros prédios notáveis. No centro dela encontra-se uma fonte muito linda, feita toda em bronze no século XVII.
 
 
La Catedral de Lima foi reconstruída desde os tempos de Pizarro várias vezes por causa dos terremotos que assolaram o Perú em 1609, 1687, 1690 e 1746. A versão atual foi concluída no século XVII. Entrar na catedral é como voltar aos tempos coloniais, tudo impecavelmente bem conservado – dos bancos para fiéis até as estátuas do altar – boa parte em ouro e pedras preciosas. À direita da entrada há uma capela dedicada ao açougueiro "herói" Pizarro, onde o seu corpo repousa dentro de um caixão selado de madeira. Espero que a sua alma esteja curtindo um tour eterno através dos vários círculos do Inferno de Dante…
 

 
 
Próximo à catedral se encontra o Palácio del Arzobispo, reconstruído em 1920 e expondo uma linda fachada de madeira. Marca registrada da Lima Colonial, esse tipo de fachada se espalha por várias edificações da região. A reforma e manutenção de cada uma delas é responsabilidade de uma empresa peruana ou multinacional, sua "mãe" adotiva. Outra construção notável na Plaza Mayor é a Municipalidad de Lima, construída em 1940 depois que um incêndio destruiu o prédio original da prefeitura da cidade.
 
 
No lado norte da Plaza Mayor fica o Palacio de Gobierno, construído em 1938 no local onde se encontrava o palácio de Francisco Pizarro e o lugar onde ele foi assassinado em 1541, caracterizando o primeiro de incontáveis golpes de Estado na América Latina. No pátio principal brota uma figueira que, conta a lenda, tem quatro séculos e meio de idade. Seguindo a tradição militar peruana, o palácio hoje é defendido por homens armados e tanques (!?) O edifício atual ainda mantém muito do palácio de Pizarro, uma das criaturas mais perversas, amorais e desprovida de princípios que já caminhou no planeta. 
 
 

Quando Pizarro chegou ao Perú em 1532, na cidade de Cajamarca, o Império Inca era o mais avançado e poderoso Estado do Novo Mundo. Pizarro possuía somente 168 soldados (62 à cavalo), não conhecia o terreno, estava totalmente isolado de outros espanhóis (longe de reforços) e era completamente ignorante da cultura e habitantes locais. O imperador Atahualpa que rumava para encontrar Pizarro pessoalmente, contava com um exército de 80,000 índios, todos bem sucedidos de uma campanha de guerra vencida recentemente contra outras tribos. No dia anterior ao encontro dos dois líderes, os homens de Pizarro literalmente mijaram nas calças (nas palavras escritas pelos próprios espanhóis) ao ver o tamanho do exército Inca, enquanto esperavam a chegada de Atahualpa para a emboscada preparada por Pizarro. Ele jogou todas as cartas nessa tentativa de sequestro logo no primeiro contato! Tudo porque seus soldados e ele viram uma fortuna incalculável em ouro e metais preciosos por toda a parte. Ironicamente, o imperador Inca esperava recebê-lo como "irmão e amigo". O resto é História. Em uma manobra vil e torpe, Pizarro matou toda a comitiva de Atahualpa e o sequestrou, na fuça de milhares de soldados que, embasbacados, não fizeram nada. Ao cabo de um par de dias, os 168 soldados de Pizarro – munidos de armas de fogo e cavalos – massacraram de uma só vez aproximadamente 7,000 incas que praticamente não ofereceram resistência. Nenhum soldado espanhol foi ferido ou morto. Nenhum. Ao final do banho de sangue, Pizarro discursou para seus homens que esse tamanho êxito devia-se a ajuda da graça de Deus… 

 

De posse do valioso refém, Pizarro exigiu aquele que foi o maior resgate da história: ouro suficiente para encher uma sala de 7 x 6 x 3 metros até o teto. Manteve o nobre prisioneiro por 8 meses, com a promessa solene de que iria libertá-lo tão logo recebesse o resgate. Os incas obedeciam o seu imperador mesmo cativo porque era um "Sun God", com suprema autoridade sobre todos os assuntos do Estado Inca. Quando Pizarro recebeu todo o ouro pedido, simplesmente executou publicamente o "infiel". A Igreja e a monarquia européia estavam tão cegos e ensandecidos pela perspectiva do fluxo de ouro que descaradamente ignoraram o enforcamento de um imperador e chefe de Estado por um bando de soldados! Quando a guerra começou, os espanhóis já eram um inimigo formidável graças aos meses obtidos de forma desprezível para: conhecer o terreno, ganhar reforços vindos do Panamá e consolidar a tecnologia superior. Armas de fogo, espadas e armaduras de aço, cavalos que proporcionavam um ataque veloz, manobrável e do alto, somados a anos de experiência militar, trouxeram uma sólida vantagem aos invasores.

Não se pode culpar somente Pizarro, Cortés e outros "Conquistadores" e seus homens pela obliteração da população sulamericana original. Outros exploradores do novo mundo também trouxeram doenças infecciosas (especialmente sarampo) desconhecidas para os habitantes do Novo Mundo que decididamente ajudaram com o extermínio. Mas suas ações baseadas unicamente na sede de poder e dinheiro, 100% apoiados pela Igreja Católica, foram indizívelmente covardes e imperdoáveis.

 


Continua…
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