Abril de 2008 – De volta a Caracas, Venezuela

 
Como prometi anteriormente, finalmente tive tempo para escrever uma entrada mais decente sobre a Venezuela. Caracas fica em um vale entre uma cadeia de montanhas e o Mar do Caribe, aonde se espremem 5 milhões de pessoas morando em altos prédios de edifício, casas ou favelas. Você perde de 45 minutos a 1 hora, dependendo do trânsito, para chegar à capital: o aeroporto fica no litoral (vá entender…) A cidade ganhou seu nome da tribo que habitava o "Valle de los Caracas". A temperatura é agradável durante todo ano (25 graus, em média) e um dos grandes programas dos locais no Verão é "descer a serra" e curtir as delícias do litoral, especialmente a famosa Isla de Margarita, um paraíso caribenho. A cidade já sofreu vários terremotos ao longo de sua história, sendo que no maior deles, em 1812, foi quase totalmente destruída, matando mais de 10,000 pessoas.
 
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Por causa da expansão absurda da cidade ao longo de décadas sem qualquer planificação, o trânsito de Caracas é infernal: mais de 40 % dos habitantes passam ao menos duas horas por dia dentro dos seus carros por causa de mega engarrafamentos e outros 40% têm, pelo menos, uma hora perdida. Buzinas deveriam ser deixadas permanentemente ligadas, já que todos a usam o tempo todo, mesmo sabendo que não vai fazer os carros se moverem mais rápido. Devido ao baixo preço da gasolina e do alto preço dos automóveis (todos importados – não há uma simples montadora na Venezuela), existem uma imensa frota de carros e ônibus velhos de doer, que além de foderem com o já caótico trânsito devido a freqüente "quebras", poluem massivamente o ar da capital.
 
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O ditador com delírios de grandeza (não seria um pleonasmo?) Hugo Chavez, "senhor absoluto" da Venezuela, tornou-se uma "celebridade mundial" por seu estilo populista e arrogante de governar. Além do povo que o elegeu, é o responsável direto pelo estado lamentável que se encontra o país em termos de indicadores sociais e econômicos. Com toda a grana recebida pela exportação de petróleo a um preço recorde nos últimos anos, ele poderia ter bancado investimento em educação, saúde e infra-estrutura, reduzindo drasticamente a desigualdade social no longo prazo, além de colocar o país no trilho rumo ao desenvolvimento. Mas, não, ele preferiu brincar de Todo-Poderoso revoltado, fazendo o que loucos revanchistas em sua posição fazem: matando e usando violência contra adversários; reformando o curriculo da educação básica para que formem futuros "vermelhinhos medíocres"; quebrando contratos internacionais legítimos e com isso mantendo investimentos externos longe da Venezuela; fazendo propaganda política de si mesmo sempre que possível; destruindo a livre imprensa e controlando com mão de ferro todos os meios de comunicação; distribuindo arroz e milho para os pobres ao mesmo tempo que promete o impossível; discursando que os Estados Unidos é o Império do Mal; mantendo a paridade com o dólar artificialmente enquanto deixa a inflação e o mercado negro correrem soltos; financiando terroristas e sequestradores; sustentando governos totalitários em países miseráveis como Equador e Bolívia; afirmando que existe um plano secreto da CIA para matá-lo; brincando de ciranda com os presidentes de Cuba, Irã, China e Russía, só para fazer pirracinha para o Titio Sam; pensando seriamente que as teorias economicas socialistas ainda são viáveis no século XXI… A lista de absurdos vai longe. Sem dúvida, graças a esse tipo de comportamento que posso dizer categoricamente: Chavez é o sujeito mais necessitado de uma trepada que conheci em 40 anos. Se um babacômetro chegasse perto desse populista energúmeno, o ponteiro iria direto para o vermelho. O problema da Venezuela é que a festa do barril de petróleo a US $ 160 acabou e com ela toda a pompa e munição desse populista mentalmente instável. Desgraçadamente não há mais tempo para transformar o país como só ele poderia. Doenças, analfabetismo, má nutrição e pobreza: esses deveriam ser os inimigos a combater sem trégua. Irônico saber que o homem que nasceu e passou sua infância miserável convivendo com essas mazelas sociais, tenha se tornado um tirano mimado vestido de Falcon. As palavras de Lord Acton caem como uma luva: "Power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely". O pior é que os venezuelanos de baixa renda, acostumados a receber o peixe ao invés de aprender a pescá-lo, provavelmente vão deixar essa polemista de botequim no poder por mais alguns anos… Bem, pelo menos até que a lenda urbana se concretize e a CIA faça Chavez comer capim pela raiz …
 
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Semelhante ao brasileiro, o povo venezuelano foi formado pela mescla de europeus, índios e negros caribenhos ao longo dos séculos. É muito difícil definir um venezuelano só batendo os olhos: parece que cada um é completamente diferente do outro. Outro perfil típico: povo católico e urbanizado. 87% dos seus 26 milhões de habitantes vivem nas cidades (maior índice da América Latina), embora a maioria mantenha uma vida essencialmente rural. Um paradoxo não? Por causa das sucessivas más gestões do governo federal existe muita pobreza ostensiva, incluindo gente vivendo em favelas. Ao contrário do Brasil a Venezuela é um país pequeno, consequentemente mais fácil de ser administrado. Sua abundância de riquezas – petroléo, gas, pedras preciosas e turismo – faz da miséria um conceito que simplesmente não faz sentido.
 
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Não se pode falar de Venezuela, sem falar de beleza. E não se pode falar de beleza sem discutir as diferenças entre os pontos de vista masculino e feminino. São duas visões distintas. Ana Paula Arósio de acordo com as mulheres tem uma beleza "clássica". Ela chega em uma festa e as outras mulheres têm vontade de ir ao banheiro cortar os pulsos. Para um homem ela é OK, enquanto que digamos, a Ellen Roche dá de dez a zero. Mas para a maioria das mulheres a Ellen Roche usando um pouco de colônia Conturré e bota branca fica igualzinha a uma prostituta de baixo provento. Felizmente para os venezuelanos, não há esse tipo de discórdia: a mulher venezuelana é, em geral, muito bonita, acertando em cheio critérios de homens e mulheres. Como a indústria da Beleza (incluindo os famosos concursos de misses) é uma realidade na Venezuela, a impressão que se tem é que todas as mulheres, desde a infância, aprendem a andar com a elegância de uma miss, bem como se vestir e se pintar como uma pro. As venezuelanas estão entre as maiores consumidoras per capita de cosméticos e cuidado pessoal do planeta. Isso sendo um pais de terceiro mundo! Ganhar o Miss Venezuela significa ter uma carreira garantida na TV, como cantora ou no Show Biz. A Venezuela já esteve em mais de 35 finais do Miss Universo!
 
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Para piorar o estereótipo do eterno-ode-à-beleza, o país é muito machista. Quase todas as mulheres andam muito arrumadas e maquiadas em qualquer lugar. Por exemplo, durante a última feira anual de Petróleo e Gás na cidade de Maracaibo, não só os vasos (aquelas mulheres contratadas para "enfeitar" os estandes) vão no capricho, como também mulheres comuns de todas as idades. Elas se vestem como se fossem caçar! Isso faz sentido em um evento frequentado em sua maioria por engenheiros e técnicos de petróleo?! Pra que? Resposta dos locais: para impressionar outras mulheres e "achar" marido… Como no Rio de Janeiro, elas usam blusas e calças duas vezes menores em tamanho do que o seu número real. Algumas delas devem pular de uma altura de dois metros só para cair e caber dentro da calça jeans. Deus é justo, mas as calças que algumas delas usam… Outra coisa engraçada de acordo com locais: uma mulher "roubar" o marido da outra faz parte da cultura popular, quase como um esporte. Perfeitamente perdoável. Boa parte dos venezuelanos de mais de 30 anos já está no segundo casamento e trata o tema sem qualquer pudor. A parte chata dessa cultura de mulher-objeto resulta na visão incomum de venezuelanas em posições de poder, prestígio e liderança, o que será fatal para o país em duas ou três gerações. Elas também não valorizam muito educação formal, especialmente superior. Com tudo isso, a Venezuela é um verdadeiro pesadelo feminista.
 
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Por conta da influência espanhola, os venezuelanos são fãs de touradas e, o templo do esporte (!?), o Nuevo Circo, uma Plaza de Toros com capacidade para 9,000 pessoas. Entre outras paixões esportivas, encontram-se: o futebol, com os brasileiros sendo admirados e considerados disparado os melhores do mundo; o voleibol (mais recentemente); e a maior paixão de todas, o beisebol. O vício foi desenvolvido pelos americanos, expatriados que vieram com as suas famílias morar na Venezuela na década de quarenta e que jogavam nas horas livres dentro dos campos petrolíferos. Daí para se popularizar entre os locais foi um pulo. O país é um grande exportador de talentos para a liga profissional estadunidense.
 
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O cozinha venezuelana não é fantástica, mas proporciona alguns pratos típicos interessantes e gostosos. Os caraquenhos são fanáticos por comer fora: Caracas é a cidade que tem mais restaurantes per capita do que qualquer outra na Ámerica Latina. Carne e frutos do mar em geral são muito bons aonde quer que você vá. Os pratos de destaque são: a deliciosa Cachapa, um super panqueca grossa e doce feita de milho, recheada com queijo branco (com sabor parecido ao do queijo minas); a Arepa, um sanduíche baratinho feito de pão de farinha de milho com diversos tipos de recheio a escolher – queijo e presunto, carne moída, frango, atum, pernil e polvo; o Pabellón Criollo, considerado o mais famoso prato típico nacional, feito com arroz branco, feijão preto, carne assada de vitela desfiada e fatias finas de banana verde frita; e o aperitivo Tequeño, uma massa feita de farinha de trigo enrolada em queijo branco e depois frita. Uma perdição…
 
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Fazer turismo em Caracas é possivel, embora não seja uma das tarefas mais fáceis. A parte histórica da cidade – o centro – está bastante maltratado, perigoso (se comparado com outras capitais sulamericanas) e, principalmente, excessivamente pintado com as cores da bandeira venezuelana. E, cá entre nós, amarelo, vermelho e azul não formam exatamente uma grande combinação de cores. Alguns prédios históricos (em processo de reforma) que valem uma visita são: o Capitolio Nacional, criado em 1874, sede do congresso venezuelano e defendido por uma multidão de soldados (para uma eventual ação da CIA, você sabe…) – só me deixaram tirar fotos depois que eu disse que era brasileiro; o Concejo Municipal, erguido em 1696; o Correo de Carmelitas, prédio construído em 1781; a Corte Suprema de Justicia; e o Palacio Arzobispal, de mais de 350 anos de idade.
 
Capitolio Nacional 3Concejo Municipal 1Correo de Carmelitas
Corte Suprema de Justicia 1Palacio Arzobispal - Interior 2
 
A Plaza Bolivar, batizada em homenagem ao libertador Simon Bolivar, foi o centro comercial e social desde 1567 até os princípios do século XIX, sendo palco de debates políticos, concertos, mercados, touradas e até execuções públicas.  O Panteon Nacional foi um monumento-tumúlo construído em 1874 (o original de 1744 foi destruído por um terremoto) para homenagear e guardar os restos de alguns heróis venezuelanos, incluindo o sarcófago de Mr. Bolivar. Venezuelano de reputação e reconhecimento internacional, juntamente com seu colega militar argentino San Martin, Simon Bolivar foi uma das figuras mais destacadas no processo de libertação dos países sulamericanos do jugo espanhol. A importância do "Libertador" foi tanta que em alguns países tornou-se objeto de adoração nacionalista (vide o "ideal" Boliviariano de Chavez), e acabou emprestando o seu nome a um dos países libertados, a Bolívia. Seu maior sonho nunca concretizado: a unificação dos países recém libertados e formação da maior nação do mundo. Sem dúvida um grande estrategista, embora nunca tivesse obtido educação teórica específica nesse tema, e um notável líder, que inspirava em seus comandados confiança em situações desfavoráveis que aconteceram em quase todas as batalhas contra o exército espanhol. A ironia é que morreu miserável e muito doente. Seu país natal foi o que mais sofreu com as guerras de libertação. A Venezuela, antiga jóia colonial espanhola, foi reduzida a escombros logo após a guerra mais longa (quase 30 anos) e sangrenta (150 mil venezuelanos perderam a vida) de todo o processo de independência sulamericano.
 
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Caracas possui três igrejas históricas dignas de uma visita. A primeira, o Convento de San Francisco, construído em 1756. A segunda naturalmente é a Catedral da cidade, construída em 1665 (a original de 1567 foi destruída por um terremoto). O destaque vai para a Capilla de la Santísima Trinidad, uma capela com um túmulo esculpido com grande sentimento pelo espanhol Victorio Macho e representa a alma do libertador Bolivar diante de seus pais e esposa, enterrados ali.
 
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A terceira é última é a Santa Capilla, igreja construida em 1883 (a original de 1567 foi destruída por um incêndio e a reconstrução de 1665 foi derrubada por um terremoto). Apesar do descuido com o exterior, por dentro você pode encontrar peças artísticas lindas de grande valor histórico. Várias figuras importantes da Venezuela estão enterradas no subsolo da igreja.
 
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Um dos programas mais legais de Caracas é usufruir do Sistema Teleferico Warairarepano, inaugurado em 1955. Os bondinhos com capacidade de até quatro pessoas levam em média 20 minutos para levar você por cima da floresta tropical, até o ponto mais alto da cidade, Cerro el Avila (2,100 metros de altura). Todavia a viagem não é para os fracos do coração ou para aqueles que têm medo de altura: o troço se movimenta à uma altura inacreditável e balança algumas vezes repentinamente por causa do vento. A melhor hora para andar no bondinho (e tirar fotos) é ao entardecer: as cores da cidade e do céu vão mudando à medida que você sobre e quase não há ruído. Casais andando sozinhos no bondinhos não vão resisitir – vinte minutos, climão romântico, privacidade proporcionada pela escuridão progressiva…
 
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Ao final do passeio chega-se ao Parque Avila Magica, no topo da montanha mais alta de Caracas. A vista da cidade é espetacular, de dia ou à noite, seja de qualquer um dos vários mirantes disponíveis. Outra excelente pedida é terminar a noite lá em cima, antes de descer, jantando no excelente restaurante Avila Fondue. A inspiração é suiça e o prato principal naturalmente são as famosas carnes que você mesmo frita, embebidas em diferentes tipos de molho. Great stuff! Mas uma bomba calórica…
 
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Imperdível mesmo em Caracas é a visita a mega-ultra-loja de lembranças, artigos de decoração e presentes feitos à mão, o famoso Hannsi Centro Artesanal, que conta com quase 3,000 metros quadrados. São várias salas repletas de trabalhos impecáveis de arte popular, incluindo barcos de madeira, bonecas, esculturas, jogos de jantar e café-da-manhã, móveis, velas aromáticas, redes, tapeçarias, souvenirs, artigos religiosos, cerâmica, móbiles, cestas, utensílios de cozinha, lâmpadas, máscaras, marionetes, bijoux, miniaturas (perfeitas!), carrilhões, bolsas, instrumentos musicais e pinturas. Ao final do frenesi de compras (acredite: você não consegue sair de mãos vazias), um agradável café cheio de salgados e doces típicos o espera. Se você ainda não tem o cadastro no Flickr, só a chance de olhar as fotos em alta resolução que tirei dessa loja valem o tempo e o esforço para o registro.
 
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Existem dois restaurantes que recomendo para uma visita em Caracas. O primeiro serve pratos típicos e carnes assadas de grande qualidade e sabor: o Belle Vue, que ainda proporciona uma bela vista panorâmica da cidade, pois se localiza no alto de uma das muitas montanhas de Caracas. O segundo é especializado em frutos do mar, o Restaurante Ocêanico, que também oferece um excelente panorama da parte nobre da cidade. É caro, para padrões latino americanos e servem uma miséria, mas a comida é absolutamente deliciosa. Gourmet food, como dizem por aí.
 
Restaurant Belle Vue 1Restaurant Belle Vue 3
Restaurante Oceanico 1Restaurante Oceanico 4
Restaurante Oceanico 3Restaurante Oceanico 5 

 
Veja aqui todas as fotos (quase 300) em alta resolução da cidade de Caracas.
Para visualizá-las (slide show) é necessário um cadastro no yahoo.com ou yahoo.com.br, ou direto no flickr.com
Não esqueça de incluir a legenda (options, abaixo à direita – marque always show titles) durante a exibição dos slides. Todas as fotos podem ser baixadas/downloaded em altíssima resolução.
 
É isso.
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