Salzkammergut, Austria – Abril de 2009 – Parte 1/3

 
Um dos meus objetivos ao visitar a Áustria – além de visitar Viena – foi realizar uma road trip em meio aos Alpes. A região escolhida, Salzkammergut ou Country Lake, combina o que há de melhor em termos de cenário idílico em um clima perfeito: imensas montanhas, muito verde, neve, flores deslumbrantes, cidadezinhas típicas e, naturalmente, lindíssimos lagos. Tudo isso na Primavera! O plano original, viajar de Viena à Salzburg cruzando esse cenário de sonhos, funcionou como um relógio. Nada deu errado e o tempo cooperou por três dias. Essa conjunção de fatores proporcionou algumas das mais belas fotos que tirei em toda minha vida. Material para a revista Geográfica Universal mesmo. Bem, com toda essa matéria-prima à minha disposição e uma Nikon D40 à tira-colo, não fiz mais que a obrigação…
 

Se você quiser seguir meus passos – objetivo 100% válido antes de morrer – você precisará de três itens fundamentais. O primeiro, um par de botas decentes para hiking. Recomendo a marca Vasque por trazer a melhor combinação bom-e-barato. Acredite em mim quando digo que outras marcas podem chegar a centenas de dólares. As botas servirão para você enfrentar caminhadas em terreno selvagem,  morro acima e em terreno acidentado – muitas vezes coberto de neve (ok, fui na primavera, mas não esqueça da combinação altitude + latitude alta). Você precisará de conforto, isolamento térmico e solado especial. O segundo componente essencial para a aventura: um GPS. Detesto guias turísticos. O GPS proporciona independência e segurança. Durante toda a viagem em nenhum momento me senti apavorado ou perdido, mesmo quando explorava lugares completamente ermos, sem uma única alma viva à volta. Depois de testar algumas marcas, minha predileta acabou sendo a Garmin – mapas confiáveis e fácil de usar e carregar. O terceiro e último item da road trip tem que ser obviamente um carro. Alugar um 4 x4 não é necessario para navegar pela região de Salzkammergut, já que todas as estradas – mesmo as secundárias e "terciárias" – são asfaltadas. Primeiro mundo perde… No meu caso, para economizar, tinha reservado um modelo subcompacto e standard para recolher no aeroporto de Viena. O atendente da Hertz não conseguiu encontrar minha reserva, feita com 4 meses de antecedência pela Internet. Eu estava prestes a explodir em fúria, quando ele me disse: "Sinto muito senhor, mas podemos compensar todo o trouble causado com esse modelo aqui…" E então o sujeito da locadora me entregou as chaves de um… Audi A4. Minha mulher vive dizendo que sou um sortudo miserável…

 
 
Dirigir na Áustria é uma experiêcia que proporciona prazeres multiorgásmicos. E não falo somente do já citado "tapete" de asfalto onde quer que você vá, mas também: por causa dos motoristas habilidosos e ultra educados; pistas de alta velocidade onde você pode manejar a quase 150 kilômetros por hora dentro da lei; sinalização impecável; convivência harmoniosa de carros, pedestres e ciclistas; ausência de polícia e radares (se existem, se escondem bem pra cacete); inexistência de pedágios caça-níqueis;  e cenários alpinos diante do pára-brisa 100% do tempo, todos um desbunde só. Civilização, enfim. Para quem já experimentou como eu as ruas do Rio, Curitiba, Salvador, São Paulo, Lima e Cidade do México, a pergunta recorrente em sua cabeça enquanto dirige na Áustria acaba sendo: "Será que eu morri e fui para o Céu?"
 
 
Salzkammergut em alemão significa "terra dos depósitos de sal", nome plenamente justificado pela imensa quantidade de minas de sal da região, fonte de riqueza para os reis da dinastia Habsburg por centenas de anos (e até para tribos célticas, antes mesmo dos Romanos) . Lembrem-se que até o início das grande navegações e a consequente descoberta de novos fornecedores de especiarias, para temperar comida a única coisa decente que os cozinheiros tinham à mão era sal. E a realeza austríaca controlava boa parte das minas produtoras desse produto na Europa. Só mais recentemente, depois da 2a Guerra Mundial, os austríacos descobriram o potencial turístico da região, ideal para passeios, iatismo, prática de esportes aquáticos, banhos de sol,  escaladas, ciclismo, hiking, atividades de inverno e muitas outras oportunidades de lazer. A Áustria possui mais de 300 lagos, fruto de antigas geleiras que derreteram e formaram montanhas e imensas áreas de água doce. Os maiores e mais impressionantes lagos do país se concentram aqui, na região que me aventurei. E posso dizer que, assim como a praia Lanikai no Hawaii e as Montanhas Rochosas no Colorado, o Country Lake dos austríacos é um daqueles lugares no planeta que facilmente te trarão lágrimas aos olhos quando você se deparar pela primeira vez com seus cenários de beleza rara e extraordinária.
 

 
Comecei minha jornada circundando o lago Attersee, a primeira e maior jóia dentre várias de tremenda beleza natural de Salzkammergut. Trata-se de um imenso bloco de água doce de dimensões 3 x 20 quilômetros que nunca congela no Inverno (ao contrário de todos os outros lagos da região). Suas águas são excepcionalmente claras, ideais para mergulho autônomo. No final do século XIX, a aristocracia vienense adorava gastar seu (extensivo) tempo livre por aqui. A estrada à volta do lago – como na maior parte de minha road-trip – fica espremida entre as montanhas e a água, sempre acompanhada pela onipresente ciclovia e por pequenas áreas para piquenique às margens do lago, com suas mesas em madeira rústica. Como passeava no ínicio da Primavera – completamente fora de temporada (Jun-Ago), praticamente tive a estrada só para mim, e frequentemente encontrei vilarejos de incrível beleza, como que abandonados, parecidos com uma cidade fantasma. Explica-se. A maioria das casas de veraneio e hotéis se encontravam vazios e, consequentemente, praticamente não havia movimento ou comércio. Os ínúmeros iate clubes que pululam Attersee não tinham qualquer atividade e as dezenas de barquinhos se encontravam ali apenas para posar para fotografias.
 


 
Dá para gastar várias horas de seu passeio somente explorando as cidadezinhas às margens do lago. Minha primeira parada, Litzlberg, possui uma grande área totalmente gramada e com árvores às margens do lago, onde os locais se dedicam ao banho de sol e a um mergulho ocasional, vestidos como se estivessem em uma praia oceânica. Pequenas docas dão um tempero único ao local. A próxima cidade, Seewalchen, tem uma série de casas construídas em madeira, tão próximas da água cristalina que parecem ilhotas caribenhas dotadas de pequenos ancoradouros. A cidade oferece também um grande lugarzinho para comer uma das especialidades da cozinha local, o filé de truta empanado. O Kapsreiter Cafe não serve porções imensas – péssimo hábito austríaco – mas a salsicha acompanhada de mostarda apimentada, tradicional aperitivo do país, compensa um pouquinho. Depois de alguns dias na Áustria você acaba se acostumando com o jeito espartano deles de servir os pratos, sem muitas firulas e acompanhamentos. Ótimo para seguir uma dieta enquanto se passeia de férias.
 

 

Na sequência, passei por Kammer, cuja maior atração é o encontro do lago Attersee com o rio que batizou a cidade. Grande visual da ponte que cruza o rio. Aliás como um rio próximo a uma área urbana pode ser tão ridicularmente limpo? A próxima cidade do circuito lacustre chama-se Weyregg, uma das mecas dos praticantes do esqui aquático e do windsurfe na alta temporada. Reune uma das maiores quantidades de hotéis do lago Attersee. A cidade de Steinbach vem em seguida, com sua linda igreja no alto do morro gramado. Aliás, vale muito à pena fazer uma detour aqui, subir a colina de carro por uma estradinha sinuosa e curtir o visual de tirar o folêgo lá de cima, tanto do lago, quanto das montanhas. É muito legal perceber na paisagem a harmonia, o jeito que as cidades da região de Salzkammergut se mesclam com suas pequenas fazendas, sem nos deixar perceber quando termina uma e começa a outra.
 

A outra cidade na rodovia, Weissenbach, chama atenção pela proximidade das altas montanhas, que parecem debruçar-se sobre a rodovia e o lago. Bancos de madeira na beirinha desse último são um convite à comtemplação ou a um namorico de fim-de-tarde. Alguns quilômetros depois, você chega em Unterach, uma vila que se assemelha na verdade a um grande iate clube, tamanha a quantidade de barcos à vela nas docas. Áreas de lazer e parques para crianças espalham-se por toda a margem e o que mais se vê são famílias inteiras – pequenos e adultos – passeando de bicicleta. O quadro todo em minha cabeça simulava um comercial de margarina, de tão perfeito. Será que é muito caro morar aqui? Se tiver um tempinho, pegue uma das ruas que saem da estrada em direção as montanhas, para desfrutar de vistas panorâmicas da região. O pôr-do-sol que assisti em um dos hotéis "abandonados" da cidade acabou se tornando um fecho de ouro para um dia inesquecível.
 


 
Veja aqui fotos em alta resolução de Attersee: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623375106931/
À noite decidi jantar na famosa cidade austríaca de Bad Ischl, outro grande produtor de sal no passado austríaco e reduto da realeza Habsburg. Tanto que o nome do restaurante mais indicado pelos locais chama-se Cafe-Bar Sissy, um lugar bem aconchegante e ricamente decorado, a ponto de te deixar assustado e pensando que vão te tirar as calças. Decidi experimentar um dos pratos típicos austríacos, o Rindsgulasch, feito de carne cozida em um molho de tomate, cebola, gordura animal, páprica, cominho e um pouco de farinha de trigo e creme de leite. O sabor e a quantidade no prato foram ambos ridículos, mas por motivos diferentes: meu lado gourmet saiu satisfeito, mas o estomago saiu roncando e, meu bolso, vazio. O Gulasch foi inventado na Hungria, que fez parte do império (Austro-Húngaro) por muitos séculos. A refeição que fiz aqui acabou me tirando o trauma de comer Gulasch, obtido do tempo que eu trabalhava de estagiário na unidade de fabricação de medidores de energia da General Electric, no Rio. Eles serviam no bandejão uma vez por semana uma massaruca de carne de quarta cheia de nervos, que eles chamavam de Gulasch. O troço era tão horrivel que só de olhar a comida pela primeira vez você pensava: "já pisei nisso, mas nunca comi…" 


 
A partir do século XIX a cidade de Bad Ischl tornou-se um SPA para a realeza e os ricaços de Viena. O imperador Franz Joseph I (o maridão da Elizabeth da Bavaria, a popular Sissi) escolheu o local para construir seu palácio de Verão – Kaiservilla (não tive tempo de visitar, mas os locais dizem que vale à pena) – que ele descrevia como "Paraíso na Terra". Provavelmente não pela paisagem, mas por ser a alcova onde transava com sua amante, Katharina Schratt. Hoje o palácio abriga as descendentes dos Habsburgs – todos de "sangue azul" – que – pasme – têm parentesco com alguns membros da "realeza" brasileira em… Petrópolis! Eu troquei alguns e-mails com um dos "gerentes" da Kaiservilla que não só confirmou essa informação, como me cedeu algumas fotos bacanas do palácio.  Franz Joseph I nunca foi uma unanimidade entre os austríacos. A maioria enxerga nele somente os últimos anos, considerando-o um soberano generoso e benevolente, uma espécie de vovô da nação. Uma minoria mais esclarecida reconhece nele um reacionário sanguinário, que devotou boa parte de sua vida a uma guerra contra a liberdade de religião (ele era católico), além de ser um sujeito mesquinho com um gosto duvidoso em termos de arquitetura. Creio que o fato do tempo de seu governo corresponder ao boom Austríaco em termos econômicos e culturais, mas o seu casamento com a princesa mais linda da Europa na época, deram uma mãozinha a sua popularidade positiva que permanece até os dias de hoje.
 

Continua…

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Salzkammergut, Austria – Abril de 2009 – Parte 2/3

 

Depois de passar à noite em uma cidade próxima de Salzburg (mais detalhes na minha próxima entrada do blog), dirigi o Audi bem cedinho para o lago Fuschlsee, tão limpo que serve de reservatório de água potável para toda a região. Além da beleza natural, buscava um dos mais famosos hotéis de Salzkammergut: o Hotel Schloss Fuschl, um lodge para caça de um poderoso bispo local construído em 1450 e transformado em hotel cinco estrelas. Realeza, alto clero, políticos, celebridades passaram (e passam) por aqui amiúde. Nazistas de alta patente também frequentaram o lugar. Entrei e explorei a propriedade aparentemente deserta sem ser incomodado uma única vez. E olha que eu tenho a aparência e o tamanho de um assassino de slash movies! A posição privilegiada do complexo, bem diante do lago, proporciona panoramas quase sobrenaturais de tão belos. A área coberta pelo hotel é vasta, incluindo suas próprias trilhas selvagens de centenas de metros de extensão. A decoração interior compõe-se de diversos estilos, do barroco aos estilo renascentista. O hotel tem uma frota própria de limousines e Rolls Royces dedicada a levar seus hóspedes em excursão pela região. Docas privadas guardam toda sorte de barcos para uso exclusivo dos hóspedes no lago Fuschlsee, incluindo para expedições de pescaria. O campo de golfe do hotel é considerado o mais bonito da Áustria por causa da paisagem. Mas tudo isso obviamente não sai baratinho: a diária mínima custa US $ 470 e a suite mais cara, chamada "Castelo", sai pela miséria de US $ 1,400 por noite. Definitivamente não é para você, leitor pobre… (se serve de consolo, sempre existem as fotos!)
 

 

Saindo do hotel e seguindo pela rodovia principal na direção Sul, chega-se à cidade de St. Gilgen, às margens do lago Wolfgangsee, de 13 quilômetros quadrados e 15 quilômetros de extensão (muito delgado). Como sempre, só a cidadezinha e o lago merceriam uma exploração mais detalhada, mas como tinha muita coisa para ver de acordo com meu planejamento, decidi ir direto para a grande atração da localidade: um bondinho que te leva das margens do lago ao topo da montanha Zwölferhorn que se eleva acima de St. Gilgen. O lugar é tão alto (1,800 metros de altitude) que o bagulho leva 30 minutos para chegar até o topo – coberto de neve eterna, por sinal. De lá de cima você consegue ver claramente a cidade e o lago em toda a sua extensão. Se tiver paciência de andar na neve (afundando meio metro a cada pisada), driblar os esquiadores e seguir uma trilha selvagem de 15 minutos, poderá chegar do outro lado do pico e curtir uma cadeia de montanhas nevadas impressionante. Viu? Eu disse que as botas era um item essencial… Simplesmente não dá para vencer essa trilha de tênis.
 

 
Desci a montanha de teleférico e segui viagem costeando o lago Mondsee em direção à cidadezinha de mesmo nome. Lá matei minha fome almoçando em uma das mesas exteriores do restaurante do hotel Schlossbrau Kirchenwirt, à sombra de uma bela árvore. A baixa temporada não impediu-me de curtir a refeição enquanto observava o movimento significativo de locais na praça da igreja matriz da cidade. Nesse estabelecimento eu comi outro prato típico Austríaco – o Kasespatzle – por apenas US $ 7 (muito baixo para padrões europeus). À primeira vista parece um Mac n’ Cheese sem vergonha, mas trata-se de um tipo de gnocchi fininho frito feito com farinha de trigo, ao molho de queijo gruyere ralado. Muito, muito bom. A porção servida foi razoável e o atendimento de primeira. Para sobremesa, dei uma passada na legendária confeitaria da cidade, famosa por suas tortas e doces típicos (e também pelo preço "especial" cobrado dos turistas), a Frauenschuh Konditorei. Cuide para não babar no teclado ao navegar pelo site desse templo da perdição.
 

 
A principal atração de Mondsee é a Basilika zum Hl. Michael, onde as cenas do casamento de Frau Maria no clássico The Sound of Music (A Noviça Rebelde) foram filmadas. Essa basílica de estilo barroco tem esculturas em madeira excepcionais e cuidadosamente preservadas, feitas pelo artista Meinrad Guggenbichler e seus pupilos. Ela possui duas torres de 52 metros cada e foi construída no século XV, por uma ordem Beneditina. Como em todas as igrejas que visitei na Austria, a sensação é que você voltou no tempo, dada à qualidade da manutenção e restauração da decoração interior. Decididamente a mais bela igreja que visitei em toda Áustria (e foram muitas, você sabe…)
  

 
Deixei a cidade em direção à Gmunden, às margens do lago Traunsee. No caminho parei algumas vezes para fotografar a paisagem alucinante, começando pelas margens do lago Mondsee – 2 x 11 quilômetros de extensão e rodeado por imensas montanhas. A águas do lago são bem mornas, 27 graus em média, excelente para esportes aquáticos ou simplesmente para um mergulhão. Dizem a lenda que o Duque Ordilo estava caçando nas montanhas da região e, pego de surpresa pela escuridão súbita da noite, escorregou de um penhasco e quase morreu, sendo salvo no último segundo pela iluminação da lua cheia que saiu detrás de uma nuvem: ele foi capaz de definir os contornos do lago abaixo e das pedras ao seu redor, conseguindo um lugar seguro para escalar de volta em segurança. Batizar o imenso lago recém descoberto de "mar da lua" (Mondsee) foi um pulo. Saindo da rodovia que circunda o lago, mais adiante em uma estrada chamada Kienklause, montanha acima, descobri um pequeno pedaço de paraíso: Landschaftspark at Kienklause, um parque selvagem à volta de um pequeno lago de beleza inebriante. Se o paraíso tem lugar para fazer piquenique com os entes queridos que já morreram, é esse. Como sempre, as fotos não representam a verdadeira dimensão do lugar, mas dá para se ter uma idéia mesmo assim. A vida animal é abundante, mas quase não existem insetos xexelentos (creio que por causa da altitude e temperatura). A única coisa chata aqui foi quase pisar em um casal de sapos fazendo sexo, o que seguramente faria alguem mais fresco jogar a bota fora.
 

 
Finalmente cheguei à cidadezinha de Gmunden, por séculos (e ainda hoje) uma grande produtora de sal de minas. Infelizmente, a cidade é mais lembrada como grande produtora de navio de guerras para a Alemanha Nazista e por hospedar uma grande maternidade da SS, que mantinha "protocolos" muito rígidos para assegurar que todos os bebes tivessem "pureza racial". Não preciso ir mais além e descrever em detalhes o que isso significa, certo? A grande atração turística de Gmunden, além da beleza típica de um vilarejo às margens de um lago da região de Salzkammergut, é a  grande quantidade de palácios privados, espremidos entre as montanhas e o lago Traunsee. Os mais famosos: Schloss Cumberland, agora um centro de terapia;  o Schloss Traunsee, atualmente uma escola; Schloss Freisitz Roith, transformado em hotel de luxo; e o único que escolhi visitar, o incrível Seeschloss Ort, um castelo construído em 1080 que fica em uma ilhota conectada à terra por uma ponte de madeira muito charmosa. Transformado em sede do Ministério Federal de Conservação Florestal (só mesmo em um país de primeiro mundo…), pode ser alugado para festas e casamentos. Também foi utilizado como cenário da novela mais popular já feita na Áustria: Schlosshotel Orth. Eu sei o que você vai perguntar e a resposta já deveria ser conhecida: os austríacos só conhecem a novela brasileira "Escrava Isaura"…
 
 
Seguindo a rodovia 145 ao longo das margens do lago Traunsee, dirigi-me à Ebensee que, comparada às outras cidades que visitei, não me pareceu tão espetacular. Não se engane: trata-se de outra cidade pitoresca austríaca à beira de um lago e no sopé de uma montanha. Mas depois de uma overdose de lugares espetaculares, você acaba não valorizando o que é só (!?) bonito. O lugar basicamente merece uma parada por duas razões: uma que gera prazer e outras como obrigação. Prazer de pegar uma estradinha de 9 quilômetros de extensão em meio à floresta de pinheiros, acompanhada por um rio que deságua em um lago calmo e tranquilo de águas verde turquesa e raro esplendor: Vorderer Langbathsee. Como era dia de semana e fora de temporada, não havia uma alma viva em quilômetros. A sensação de isolamento (que eu particularmente adoro) e paz foi verdadeiramente inebriante. Enquanto caminhava pelas margens do lago, tive a nítida impressão que por algum tempo saí desse mundo e me encontrava em alguma outra dimensão. Pois é, acho que preciso de terapia…
 
 
Em um constraste irônico, Ebensee tem seu lado negro. A obrigação de que falei anteriormente passa pela visita compulsória ao antigo campo de concentração nazista na cidade, agora transformado em memorial: KZ-Gedenkstätte Ebensee. Considerado um dos mais brutais e diabólicos campos já construídos durante a era nazista, trouxe a morte a 8,500 prisioneiros em apenas dois anos de existência. Em uma forma particularmente cruel de lidar com seres humanos, os austríacos e alemães que administravam o campo submetiam os detentos a um regime de 11 horas dia de trabalho escravo, em condições insalubres, sob frio brutal sem fornecer roupas adequadas e, naturalmente, sem alimentá-los decentemente. E não era um trabalho qualquer: falo de abrir túneis na montanha, ou basicamente, quebrar e carregar pedras… Trabalhar até a morte, enfim. O campo tinha o protocolo de praxe: soldados sádicos, cerca eletrificada, torres de vigilância equipadas com metralhadoras, quotas de execuções de excedentes para cumprir, etc. Como Ebensee não possuia seu próprio crematório, os corpos eram empilhados à espera de remoção. Sobreviventes descreveram o cheiro proveniente das pilhas de corpos putrefatos misturados com musgo, fezes e urina, como simplesmente insuportáveis. Bom ponto para reflexão. Como nós, seres humanos, pudemos fazer isso? Ou você é tão inocente a ponto de achar que o alemão nazista era Belzebu encarnado e não gente como você e eu?  Pais de família que provavelmente brincavam alegres com seus filhos à beira do lago Vorderer Langbathsee, eram os mesmo sujeitos que torturavam e matavam prisioneiros ali perto. Em minha opinião, basicamente por essa razão o Holocausto deve ser lembrado e sua história contada e recontada a todas as gerações futuras: cada um de nós tem dentro de si o potencial para se tornar um nazista filho da puta. O Holocausto não pode acontecer de novo. Os austriacos em geral têm um grande problema em discutir o assunto. E olha que eu tentei em diversas ocasiões abordá-los sobre o tema… Para que se tenha uma idéia, somente nos anos oitenta, o chanceler Franz Vranitzky admitiu formalmente o papel ativo dos austríacos nos crimes cometidos pela Alemanha Nazista. Até então muitos deles pensavam (ou se enganavam) que a Áustria foi apenas mais uma "vítima" da Alemanha de Hitler…
 

 
Toquei meu Audi para a cidade de Hallstatt, às margens do lago Hallstätter e no sopé das montanhas Dachstein, o ponto alto de minha road trip pela região de Salzkammergut. Trata-se de um dos patrimônios da humanidade segundo a UNESCO, um pequeno vilarejo medieval inteiramente à beira do lago, tão, mas tão bem preservado, que nenhum carro pode passar por essa cidade de pedestres e ciclistas: os austríacos construíram um túnel por baixo da cidade que te leva ao outro lado da rodovia. As casas que a compõem Hallstatt ficam tão próximas umas das outras, que muitas só tem possuem acesso pelo lago. Ruelas se cruzam em meio aos telhados das casas. Bizarro e encantador, ao mesmo tempo. Um verdadeiro cartão postal vivo, não importa o tempo que esteja fazendo ou o ângulo em que você bata a foto. Gastei um entardecer e parte de uma manhã aqui. Predominantemente barroca em estilo, ela é muito antiga (fundada em 1311, mas com bases de 5,500 AC) e comprovadamente aqui surgiu a primeira mina de sal comercial da Europa. Mas tudo isso se torna apenas uma mera curiosidade ao se passear pela ruas, sentir o climão da cidade e visitar as duas pequenas igrejas: uma delas católica e construída no século XV, a Pfarrkirche; a outra Protestante e em arquitetura neo-gótica. Resumo da ópera: recomendo uma visita aqui como outra coisa a ser feita antes de morrer, caro leitor. Uma perfeita sinergia entre o cenário impecável (cortesia da Mãe Natureza) e o hábil trabalho dos humanos que construíram a vila. Programa absolutamente 100% imperdível. Chegue cedo e fora de temporada, pois a cidade aceita somente um número limite de visitantes por dia. Para comer bem e barato por aqui, sugiro a barraquinha em frente à doca pública, que vende frango assado e cachorro quente.
 

 
Quase 70 fotos dessa jóia de cidade podem ser vistas aqui: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623437104628/
 
Para terminar o dia jantei no restaurante do hotel onde estava hospedado, o Gasthof Schorn na cidade de St. Leonhard. Assim como o hotel (mais detalhes nas próximas entradas no meu blog), o restaurante é tranquilo, limpo e acochegante. O preço das refeições é justo, algo como US $ 10 por prato (Europa, my friend...)  Minha refeição seguiu a tradição de alguns austríacos de comer a sobremesa como prato principal. Escolhi o prato típico Palatschinken, uma panqueca de massa fina (como um crepe) recheada com sorvete de creme e com cobertura de chocolate. Existem versões dessa "panqueca" enchida com geléia de frutas, creme de chocolate, queijo, carne desfiada ou vegetais cozidos, para almoço ou jantar, mas nunca no café-da-manhã.
 
 
No dia seguinte segui para outra grande site remoto: Vorderer Gosausee, o lago da cidade de Gosau. Prometo não fazer piada de duplo sentido. Minha esposa confessou-me que detesta. Gosau tem como destaque a maior concentração de Luteranos da Áustria e a sua reputação de disputado point para prática de esqui na neve. Como passeava por lá em Abril, não só explorei o lago – que fica a 8 km da cidade – sozinho, como a paisagem se apresentava como uma mescla de neve e Primavera, ideal para fotografia (tipo cartão postal mesmo). Sério, as montanhas Dachstein Massif (2,500 metros de altitude) que circundam o lago em zigue-zague são um assombro e intimidam pelo tamanho. Nessa época o lago não é apropriado para passeios ou banho, devido ao risco inerente às camadas de gelo fino por sobre a superfície. Assim como experimentei em Vorderer Langbathsee, a sensação de solidão e insignificância diante de um cenário tão grandioso já valem a parada.
 

 
Continua…
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Salzkammergut, Austria – Abril de 2009 – Parte 3/3

 

Peguei estrada uma vez mais em direção à cidade de Bad Aussee, o centro geográfico da Áustria. Pitoresca mesmo sem a proximidade de um lago, aqui decidi estacionar o carro no centro e exporar o vilarejo à pé. Além das características típicas de uma cidade da região de Salzkammergut que citei aqui (ad nauseum, por sinal), Bad Aussee se destaca pelo belíssimo rio Traun que corta a cidade; por suas igrejas antigas (especialmente a Pfarrkirche Zum Hl. Paul, dedicada à São Paulo e construída no século XV); e pelas confeitarias irresistíveis. Sobre essas últimas, recomendo uma visita a Lewandofsky Temmel, onde você pode encontrar literamente todos os doces que descrevi nesse blog. O único problema é o preço: US $ 5 cada delícia… 
 


 
Bad Aussee também se revela como o maior centro de design, produção, distribuição e venda de roupas de estilo… tirolês da Áustria! Na verdade a chamada moda Ausser – seja para adultos ou crianças – não é fantasia de carnaval e muito menos roupa barata para turista. São chapéus, lenços, casacos, vestidos, sapatos, meias, trajes e blusas que valem centenas dólares. Existem inclusive marcas de grife como Steinhuber, Lanz, Gössl, Jahn-MarklTrachtenwelt, Greul e Rastl. Os trajes sob medida, feitos de modo artesanal, podem custar US $ 8,000 para serem entregues em… 2014! As peças mais conhecidas são o dirndl, vestido inspirado nas moças fazendeiras do século XIX e o tracht, igualmente inspirado nas roupas dos antepassados dos austríacos que trabalhavam no campo. A qualidade e a beleza das peças impressiona e você vê muita gente na Áustria (com exceção de Viena) usando essas roupas socialmente: casamentos, missas, festas, espetáculos, restaurantes, saídas à noite… Em Bad Aussee praticamente todos andam assim, usando esses trajes como roupa do dia-a-dia. Em minha opinião as roupas para adultos são originais, sexys e de muito bom gosto e absolutamente nada a ver com a má imagem passada pelo repórter de ficção gay Bruno. Se você não quer investir uma fortuna nesses trajes típicos, sempre resta a opção de comprar uma camiseta muito popular nas gift shop austríacas, com os dizeres: "No Kangaroos in Austria". Bem mais barato…
 
BerufFreizeit
BerufKids
HochzeitDirndl
 
Próxima parada, a pequenina cidade de Altausee, às margens do lago de nome semelhante, Altausseer. Não sei como não aborrecer o leitor sem dizer – uma vez mais – que o lugar era legal para cacete. Parece que a região de Salzkammergut se transforma a cada mudança de cidade, apesar dos ingredientes serem basicamente os mesmos: lago, montanha, florestas (tipicamente de pinheiros) e construções de arquitetura austríaca. O lugar é tão bonito – mesmo para os padrões da região – que muitos nazistas famosos decidiram morar aqui, como o famigerado SS Adolf Eichmann, o maior "arquiteto" do Holocasto. Os habitantes locais mais velhos tiveram que passar do orgulho de ter gente tão importante vivendo entre eles nos anos 30 e 40, para a dor e o constrangimento décadas depois pelo mesmo motivo. O destaque turístico desse lago vai para a impossibilidade de circundá-lo com um veículo motorizado: ou você parte para hiking com um bom calçado ou monta em uma bicicleta. Eu já estava estourado de tão cansado e, por isso, limitei-me a uma caminhada curta. Na sequência, caí na estrada uma vez mais e segui para o lago vizinho de águas cor de esmeralda – Grundlsee – que banha uma cidadezinha de 1,300 pessoas. O nazista Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, morou aqui por muitos anos também.
 

 
Mas a grande atração de Grundlsee não se encontra ali no seu próprio quintal, mas em um tesouro "escondido", que só se alcança depois de uma caminhada de 15 minutos por dentro da floresta, em uma trilha selvagem. O prêmio chama-se Toplitzsee, o famoso lago "nazista" que, reza a lenda urbana, abriga em suas profundezas caixas e caixas de ouro do Terceiro Reich, supostamente escondidas ali um pouco antes do final da Segund Grande Guerra. Aparentemente os Nazis também usavam o lago para testes militares e para esconder barras do metal amarelo. Muitos caçadores de recompensa acabaram pagando com a vida nas suas loucas tentativas de explorar as peculiares águas escuras e frias do lago: além da profundidade incomum (108 metros no total), não há oxigênio depois da marca de 20 metros, devido a alta salinidade. As autoridades intervieram e hoje o mergulho autônomo é proibido. Pouco ouro de verdade foi encontrado, mas diversos artefatos alemãs, incluindo munição, armas, explosivos, torpedos e até dinheiro falso (libras esterlinas, projetadas para enfraquecer a economia inglesa) foram encontrados aqui. Porém o dono do único restaurante do lago me disse que embora "oficialmente" não exista nada, "coisas valiosas" foram removidas na calada da noite ao longo de todos esses anos pelo governo… Talvez seja papo para turista. Ou não… Merda, deveria ter convidado o Mulder e a Scully para vir comigo!
 
 
 
É isso.
 

Veja aqui as 325 fotos – imperdíveis e em alta resolução – dessa belíssima região do planeta Terra. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides.

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Kunsthistorischen Museum, Vienna – Abril de 2009

 
Se você acompanha meu blog com assiduidade sabe que eu tenho uma queda por museus de arte, especialmente os que oferecem um acervo de arte barroca e greco-romana. Visitar o museu de história da arte em Viena, o Kunsthistorischen, levantou a barra de uma tal maneira, que arrisco dizer que dificilmente vou encontrar algo superior em alguma outra parte do planeta. Talvez o Louvre, na França. Além do óbvio apelo das obras que hospeda, o próprio museu é uma atração por dentro e por fora, desde a arquitetura única moldada em arenito e mármore, até os mínimos detalhes assombrosos da decoração interior. Não é à toa que ele receba mais de meio milhão de visitantes todos os anos. Para minha sorte, como me encontrava na Áustria na baixa temporada, praticamente tive o museu só para mim. Construído no século XIX, especificamente com o próposito de concentrar as mais belas obras de arte amealhadas pela disnatia Habsburg, levou 20 anos para ficar pronto. Não ter sido atingido pelo bombardeio aliado durante a segunda grande guerra foi um milagre muito bem-vindo.
 
 
 
O museu tem três pisos que reunem centenas de antiguidades orientais e egípcias, obras greco-romanas, esculturas de diversas eras, artes decorativas, moedas e, naturalmente, um dos maiores acervos de pinturas do mundo, incluindo clássicos de artistas flamencos, holandeses, iatalianos, franceses, alemães, ingleses, espanhóis e, obviamente, austríacos. Eu gastei 3 horas somente no setor de pinturas… Enfim, 12 Euros muito bem gastos para passear em meio ao resultado de 800 anos de obsessão pela arte dos monarcas Hansburgs. Para turismo em Viena, ainda que por somente um dia, mister é visitar esse museu. Se você é um amante de arte como eu, não deixe de dar uma espiada nas fotos do acervo que tirei (link no final desse post). Vai valer à pena o tempo que você vai investir e, de quebra, poder presentear seu computador com um leque de papéis de parede absolutamente formidáveis.
 

 
Entrar no museu pela primeira vez é uma experiência inebriante, quase um sonho, sensação essa ampliada pelo vazio do local. Senti-me como uma criança em uma loja de doces. Nem sabia por onde começar. Logo de cara, você se depara com uma escadaria que te leva à uma imensa escultura grega em mármore de Teseu (o sujeito que matou o Minotauro) baixando o sarrafo em um centauro. À toda volta – paredes e teto – uma magnífica decoração feita de pinturas e esculturas, que de tão formidáveis parecem quase irreais. Acima da escada, pintado no teto, um mega painel multi-colorido criado pelo pintor húngaro Michael Munkácsy que tem nome de enredo de escola de samba: "A Apoteose da Renascença". O conjunto pode ser algo extravagante para especialistas, mas seguramente capaz de mover as lágrimas qualquer pessoa que goste de arte.
 

 
Dentro dos aposentos onde as pinturas encontram-se expostas, espelhos e pequenos objetos de ouro e pedras precisosas, estrategicamente colocados à volta do ambiente, dão um tom mágico à exposição, porém sem ofuscar as obras de arte. Esculturas em miniatura em alto relevo, que parecem brotar das paredes coloridas, adornam cada salão. Poltronas ultra confortáveis, colocadas no centro de algumas exposições, oferecem um descanso ou um lugar para babar enquanto seus olhos se deliciam. Chama atenção tamanha diversidade de pinturas em termos de estilo, origem e tempo. Creio que para um expert em arte tudo parece meio misturadão. Mas como amador simplesmente dei graças à Deus pelo gosto dos imperadores austríacos para montar essa super coleção privada – estilo "um pouquinho de tudo" – ser o mesmo que o meu.
 

 
Agora alguns comentários sobre minhas obras favoritas. Pintado por Allori em 1605, o quadro "Christ with Mary and Martha", mostra duas mulheres salivando em cima de Jesus Cristo. A outra pintura, feita em 1516 por Da Sesto, chama-se "Salome with the Head of John the Baptist" e representa o momento de satisfação de uma Salomé muito parecida com a Jennifer Lopez, ao ter atendido seu capricho de ver a cabeça de João Batista em uma bandeja. Será que ela sabia que estava se metendo com um dos protegidos do Homem? Provavelmente deve estar ardendo no Inferno até hoje… A terceira pintura é o clássico absoluto, presente em 100 em cada 100 livros escolares de história geral, o quadro feito em 1563 por Peter Bruegel, "A Torre de Babel". Para os ateus e os que dormiram nas aulas da catequese, essa imensa torre foi erguida pelos homens com a intenção ambiciosa de tentar alcançar os Céus. Deus ficou muito puto e fez com que os trabalhadores de cada nível da torre falassem uma língua diferente dos outros níveis. A obra virou uma zona (daí a origem da expressão popular) e parou. De acordo com o Antigo Testamento, por causa dessa tentativa infeliz, falamos vários idiomas no planeta.
 
 
A próxima sequência começa com o quadro de d’Arpino feito em 1602: "Perseus Liberates Andromeda". Quem quiser conhecer a história completa dessa façanha heróica assista o filme "Fúria de Titãs" (a versão original é melhor que a atual, mas esta tem efeitos especiais mais espetaculares). O titã Kraken – destruidor de Deuses – que está a ponto de devorar a estonteante princesa Andrômeda é mais modesto na pintura. Creio o pintor deu o monstro para o estagiário concluir… Outra pintura bacana retrata os últimos momentos da imperatriz egípcia Cleópatra, que cometeu suicídio deixando-se picar por uma víbora ao saber da morte de seu amado, o general romano Marco Antônio: "Cleopatra’s Suicide", criada em 1659 por Cagnacci. Destaque também para o lindo quadro de Cortona, "Homecoming of Hagar", pintado em 1637. De acordo com a Bíblia, Sarah, esposa de Abraão permitiu que sua escrava Hagar fosse amante de seu marido. Mas tarde ficou com cíúmes e obrigou Abraão a mandá-la para o deserto. Um anjo ajudou-a a sobreviver. O quadro mostra um suposto feliz retorno de Hagar e reencontro com Abraão que nunca aconteceu.
 
 
O quadro do pintor Floris, feito em 1565, é particularmente perturbador. Um retrato do apocalipse segundo a Bíblia, "The Last Judgement" têm material para gerar pesadelos por semanas: anjos x demônios, almas esperando por seu destino, tintas sombrias, correntes, medo, pedidos de clemência, um desespero só. Já a obra de Giordano, "St. Michael Vanquishing the Devils" de 1664, além de muito bela, proporciona aquela sensação boa de ver o bem massacrando o mal. "Venus and Adonis" (1620) do pintor Janssens apresenta um momento de idílio do famoso casal. Brincando um dia com seu filho Cupido, a deusa do amor feriu o peito em uma de suas flechas. Antes de curá-la, Vênus viu Adônis e se apaixonou pelo humano fortão. Caçador impetuoso, o grego se arriscava demais em suas aventuras e preocupava a deusa enamorada sobremaneira. Ela bem que tentou implorar para que ele tivesse cuidado, mas o retardado acabou sendo ferido mortalmente por um javali. Vênus teve tempo de segurá-lo nos braços antes de seu último suspiro. Para preservar sua memória, criou frutas vemelhas – romãs – a partir das gotas do sangue de Adônis. As frutas são tão energéticas que o rei israelita Salomão costuma tomar uma taça de vinho de romã todos os dias, para dar conta de duas centenas de esposas e concubinas.
 
 
Dentro do museu existem dezenas de retratos da virgem com o menino Jesus. Alguns deles incluem a presença de João Batista como coleguinha de Jesus, outros de José. Meus prediletos: do pintor Maratta, "Maria with Child" (1660) e "Maria with Child and John the Baptist as a Boy" (1704); de Battistello, "Virgin Mary with the Child and St. Anne" (1632); de Mengs,"St. Maria with Child and Two Angels" (1773); uma visão clássica do pintor Rafael, "The Madonna of the Meadow" (1506); de Seghers, "Maria with Child and the Boy John" (1635); de Bronzino, "The Holly Family with St. Anna and the Boy John" (1540); uma pintura bem original de Titian, "Gipsy Madonna" (1510), dando um look cigano para Nossa Senhora; e uma verdadeira obra-prima à luz de uma fogueira do pintor Vermeyen, "Holy Family at the Fire" (1533).
 

 
Os últimos comentários para minhas pinturas favoritas vão para três obras. A primeira, uma pintura de Rafael criada em 1518, "St. Margaret". Um sacerdote pagão forçou Santa Margarida a renegar Deus. Como ela recusou, tornou-se mártir ao ser torturada até a morte. Satanás disfarçado de dragão tentou engolir a alma e o corpo da Santa, mas teve uma bruta indigestão com a cruz que ela carregava. Rafael tentou retratar isso. Alguns historiadores teorizam que Santa Margarida nada mais é que uma versão cristã da deusa pagã da beleza Afrodite. Creio que o pintor faz parte dessa leva, porque ela está smoking hot no retrato. Com todo respeito… O segundo quadro de 1620 representa os famosos anjinhos do pintor Rubens, "The Infant Christ with John the Baptist and Two Angels", dois deles Cristo e João Batista. A terceira e última pintura é uma obra-prima de Rubens, "The Head of Medusa", feita em 1618. Eu já falei alguma coisa sobre a Medusa durante minha entrada nesse blog sobre o Museu de Arte de Girona, na Espanha (veja aqui), mas agora vai a história completa. Medusa era uma humana de incrível beleza, que se orgulhava particularmente de seus cabelos longos e sedosos. Porém a jegue começou a espalhar na cidade que era mais bonita que Minerva. A deusa não levou na esportiva e transformou as lindas madeixa de Medusa em serpentes vivas. Além disso, amaldiçoou a face da modelo de xampú de modo horrivel, de maneira que nenhum ser vivo pudesse olhá-la sem virar pedra. A titã já havia "petrificado" um monte de gente quando foi morta por Perseu, que usou o reflexo da Górgona em seu escudo para matá-la cortando sua cabeça. Curioso para saber porque Perseu fez isso? Não perca o já citado filme "Fúria de Titãs".
 

 
É isso.
 

Veja aqui as quase 150 fotos – imperdíveis e em alta resolução – desse museu vienense de arte. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides.

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Cruzeiro Krems-Melk, Austria – Abril 2009

 
Você provavelmente se lembra que eu deixei passar um cruzeiro pelo rio Danúbio quando em Viena. A razão? Poder curtir uma outra opção melhor, com paisagens realmente espetaculares. Para tanto, basta fazer uma viagem curta (ida-e-volta) de trem até a cidade de Krems (45 minutos) e escolher uma das inúmeras empresas disponíveis para embarcar para um passeio de meio-dia, ao longo do famoso rio, até a cidade de Melk. A região entre Krems e Melk é considerada patrimônio histórico pela UNESCO. No meu caso, o trecho ferroviário deveria passar sem incidentes, mas houve uma interrupção na linha por conta de uma manutenção, e tive que esperar por uma hora um ônibus na cidade de Tulln an der Donau, a fim de completar o percurso até Krems. Enquanto passeava pela cidade para matar o tempo, encontrei um austríaco que falava português (!?) e que sonhava em ir ao Rio no Carnaval para fazer turismo sexual. How bizarre!
 
 
O preço em média do cruzeiro é de 25 Euros, mas vale cada penny.  Eu escolhi o MS Austria, uma navio confortável e com banheiro limpo. Como viajei fora de temporada, tive espaço suficiente para caminhar pelo convés, sentar-me quando cansado e tirar fotos sem maiores aborrecimentos. Dizem que no Verão (pico em Julho) esses barcos ficam entupidos de gente. O único grande problema desse cruzeiro é o horário: saída às 11:00am, ou seja, todo o passeio acontece quando o sol se encontra a pino, péssimo para fotografias. Se você tiver tempo e disposição, pode fazer o mesmo trajeto do cruzeiro montado em uma bike: existe uma longa ciclovia ao longo das margens do rio. Dá para fazer de carro também, mas preferi gastar esse cartucho mas tarde, em outras partes da Áustria. Não perca os próximos capítulos…
 
 
Depois de navegar alguns minutos nas águas calmas e verdes do charmoso Danúbio Azul, o primeira coisa que chama atenção são os vinhedos que preenchem o sopé das montanhas às margens do rio. Parecem intermináveis, espalhando-se por quilômetros de extensão. A região de Donau vem produzindo vinhos pelos últimos 1,000 anos, ou seja, desde os tempos dos celtas e romanos, graças ao solo de características únicas e às condições climáticas favoráveis ao cultivo. Os vinhos autríacos são predominantemente brancos e outras bebidas derivadas da uva – com diferentes teores alcoólicos – também são manufaturados, tais como: Sturm, Heuriger, Eiswein e Schnaps. Os vinhos clássicos chamam-se Riesling e Grüner Veltliner (o mesmo nome da mais famosa uva branca produzida na região). Os produtores com maior prestígio são Bründlmayer, Eichinger-Allram e Hiedler.
 
 
A primeira grande atração do cruzeiro é a pequena cidade medieval – perfeitamente preservada – de Dürnstein, com destaques para a imensa igreja barroca às Margens do rio (Durnstein Stift) e, bem no alto, para as ruínas do castelo local (Kuenringer), onde o famoso rei inglês Ricardo Coração de Leão foi feito prisioneiro por um ano (1192-3), quando retornava de sua terceira cruzada. Ele viajava incognito por dentro do território austríaco (seu navio naufragou no Mar Mediterrâneo), mas foi burrão ao usar luvas caras, um anel real e gastar muito dinheiro nas tavernas. Os locais avisaram o pessoal do Kuenringer. O castelo pertencia ao Duque Leopoldo V e o cara aproveitou a oportunidade manter cativo um refém tão importante. Ele extorquiu uma baba em resgate dos britânicos. Muita gente na Inglaterra não queria o rei de volta: apesar de grande soldado e homem de Deus, o sujeito era um déspota e um marido questionável (ele era homossexual). Mas o povo acabou sendo sobretaxado e pagaram o resgate. O papa da época, Celestino III, excomungou o duque, mas o esperto austríaco pois a mão na grana assim mesmo.
 

 
Ao longo da costa do rio você pode curtir o visual de uma significativa quantidade de igrejas medievais de diferente tipos e arquitetura. Mais abundantes do que pontes, algumas delas – como a Weissenkirchen em Dürnstein – foram construídas no século XV. Um fato comum entre todas: o posicionamento, sempre em um ponto estrategicamente alto, nas "curvas" do Danúbio. Excelentes pontos para enxergar o inimigo à distância, já que todas foram construídas em pedra para servirem ao duplo propósito: casa para honrar a Deus e fortificação em caso de ataque. Fico imaginando como todo esse cenário deve ser espetacularmente lindo durante o inverno…
 
 
Um pouco mais adiante Dürnstein, depois de passar as cidades de Mitterarnsdorf e de Spitz, o barco passa pelo pequeno vilarejo de Willendorf. Nada de mais aqui, a não ser pela fantástica descoberta arqueológica feita em 1906: uma estátua de uma mulher obesa representando uma entidade divina de fertilidade – a famosa "Vênus de Willendorf" – criada na Idade da Pedra (24,000 anos atrás) e em exposição no Museu de História Natural de Viena. Como o padrão de beleza mudou desde os tempos da caverna, não? Hoje em provavelmente ela iria entupir a maquina de lipoaspiração…
 
 

Na sequência do cruzeiro, bem na margem direita do rio, ficam as ruínas do famoso castelo de Aggstein, construído na beira de um penhasco altíssimo no ano de 1100 por Manegold von Aggstein e melhorado em 1429 por Georg Scheck von Wald, um de seus "gerentes". A princípio seu trabalho consistia em manter o castelo, cuidar das trilhas para o Danúbio e cobrar impostos dos barcos que passavam. Com o tempo se tornou corrupto e ladrão. Impiedoso e de legendária crueldade, obrigava os reféns mantidos na fortaleza a pularem do ponto mas alto da edificação se não recebesse o resgate solicitado dentro do prazo. Graças a sua posição privilegiada, o castelo, durante toda sua existência, nunca foi invadido mas sempre conquistado através de um cerco (que privava seus habitantes de suprimentos). Muitos historiadores o consideram 100% inexpugnável.  De longe a atração mais visitada da região (55,000 turistas por ano), a única maneira de chegar lá em cima: à pé (hiking). 
 

O outro incrível castelo no caminho – Schloss Schonbuhel – domina a paisagem com sua beleza incomum. Foi construído por Marchwardus de Schhoenbuchele no século XII no local onde se encontrava uma antiga fortaleza romana. Passou pela mão de várias famílias nobres ao longo dos anos até se tornar um monastério. Nos anos 40 ficou sob domínio dos nazistas e, ao final da 2a Guerra, com a derrota alemã, com os russos. Em 1955 acabou retornando para a custódia dos descendentes de Schhoenbuchele.

 
 
O ponto alto da viagem acontece em Melk, onde o navio fica parado por 45 minutos antes de voltar para Krems. Acredite: esse tempo não dá para nada… O ideal seriam umas 2 a 3 horas. A pequena cidade de aproximadamente 5,000 pessoas abriga uma das mais impressionantes edificações religiosas que vi em minhas viagens, o monastério barroco Beneditino Stift Melk, um dos mais famosos do mundo. Você leu o clássico "O Nome da Rosa" de Humberto Eco? O ajudante do detetive ganhou um sobrenome "Melk" para homenagear o lugar e sua legendária biblioteca (75,000 volumes). Todo o complexo foi construído em 1809 por um nobre austríaco, mas a igreja principal é mais recente, erguida entre 1702 e 1736. Dura na queda, resistiu às guerras napoleônicas e a ocupação nazista (garantia de ser um alvo para o bombardeiro aliado). Por causa da abadia, a cidade de Melk tornou-se em dos grandes centros culturais da Idade Média e, mas tarde, também durante os tempos da Contra Refoma Protestante.
 
 
Depois da viagem de volta cheguei à Krems com uma fome de leão. A comida do navio era um assalto e decidr guardar barriga para um bom restaurante típico austríaco. Escolhi o restaurante Mörwald que não me deixou na mão. Curioso que, apesar da aparência chique, ambiente sofisticado, comida gourmet e excelente serviço, os preços são extremamente acessíveis. Eu comecei minha refeição com uma entrada tradicionalíssima: salsichas apimentadas com molho de mostarda, ou simplesmente Chili Kasekrainer, acompanhadas de uns pãezinhos deliciosos. Como prato principal, um suculento Schweinemedaillons in Speckmantel Pfeffersauce, medalhões grelhados de lombo de porco enrolados em bacon, regados a um molho apimentado e acompanhados de croquetinhos de batata. Matei quem me matava!
 
 
Depois da lauta refeição decidi passear a pé pela pequena cidade de Krems, antes de pegar o trem e voltar para Viena. Se você não se importa com o montão de turistas circulando (não é o meu caso), vai achar a experiência de caminhar pelo centro histórico desta cidade medieval muito revigorante. O lugarejo é excepcionalmente lindo, cheio de vida, barzinhos, flores, muito verde, pequenos restaurantes típicos, ruelas de paralelepípedo, igrejas, estátuas, tudo de bom. Recomendo que o passeio comece pelo principal portal da cidade, Steiner Tor, junto a uma torre construída no século XV. Dentro da cidade, não se pode deixar de visitar a Piaristenkirche, uma igreja gótica construída em 1014. Para fechar tudo com chave de ouro, não esqueça de parar em uma das inúmeras confeitarias para cair de boca nas tentações doces que só a cozinha austríaca pode oferecer.
 

 
É isso.

 

Veja aqui as quase 200 fotos em alta resolução do meu cruzeiro entre as cidades de Krems e Melk, na Áustria. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides.

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Viena, Austria – Parte 1/6

 
Tendo em mente o arranjo que fiz com minha esposa para conseguir viajar para a Áustria – nada de gastar muito – e que iria passear mais do que "curtir" as amenidades de um hotel, estabeleci um critério básico para minhas férias: somente hotéis sem frescuras (só para descansar à noite), muito baratos, limpos e com café-da-manhã incluído. Em Viena eu elegi o Hotel Pension Bosch, uma pensão administrada por uma velhinha, o qual recomendo a todos (não a velha, o hotel). O hotel-pensão, categoria bed and breakfast, fica próximo (quatro quadras) das principais atrações turísticas da cidade. Por 35 Euros por dia você pode ter um quarto pequeno com cama de solteiro e banheiro privativo, além de um delicioso café-da-manhã estilo buffet, muitíssimo parecido com aqueles servidos em hotéis em Curitiba: café, suco, chá, pãozinho d’água, frios, geléia, bolos e manteiga. A grande curiosidade acerca do quarto era a privada do banheiro – um standard em toda a Áustria – que tinha uma espécie de ressalto antes do buraco de drenagem. Não sei se os austríacos gostam de conferir sua obra de arte – seu totem – depois de libertar Nelson Mandela, ou se meramente trata-se de um dispositivo para evitar o efeito “splash” da água fria e suja nas nádegas. O fato é que eu não consegui parar de rir quando vi o bagulho pela primeira vez. Deslizar um moreno nunca foi tão divertido!
 
 
Por que comecei por Viena? Ela foi a capital do Holy Roman Empire por oito séculos e do Império Austríaco por mais de um século. Também foco cultural e econômico da Europa Central, posto avançado da civilização ocidental antiga às bordas do Império Otomano, além de casa da poderosa dinastia Habsburg por gerações. Precisa falar mais alguma coisa? Para os amantes da História, Viena é uma cidade embrulhada para presente. Além disso é notavelmente segura – uma façanha para uma cidade de 1.7 milhões de habitantes – e de uma limpeza que beira a assepsia.  Dezenas de museus, jardins de flores por toda a parte, obras arquitetônicas ímpares, igrejas saídas de um sonho, inúmeras atrações turísticas, centenas de cafés, grandes eventos culturais de reputação mundial – de concertos e óperas a festivais de música eletrônica, tudo isso constitui Viena. Last, but not least, a cidade foi palco de boa parte dos filmes clássicos Amadeus (sobre a vida de Mozart) e o ultra romântico Before Sunrise. Para explorar a cidade adequadamente calculo uma estada de no mínimo 5 dias.
 


Passear pela cidade é muito fácil, graças ao sistema de transporte coletivo onipresente, eficiente e barato (e, segundo soube, pesadamente subsidiado pelo governo)! Você pode escolher entre baratos bondes, metrô, ônibus ou aluguel de bicicletas. Bondes. metrô e ônibus circulam com precisão, bem… austríaca! Acho que é o único lugar que visitei no mundo no qual alguns minutinhos de atrasos são anunciados (nos dispositivos digitais que existem em cada ponto) acompanhados de um pedido de desculpas! Alias só alguém muito ignorante se perde na cidade, tamanha a quantidade de informação e mapas bilíngües disponíveis em cada ponto. Você compra os bilhetes em quiosques automáticos e só tem que passar pelo leitor de código de barras dentro do veículo. Não existe trocador, já que tudo é baseado na confiança. Confesso que – chuif… – algumas vezes – gulp! – andei em bondes sem pagar. De fato foram várias vezes. Em múltiplos dias. Com algum remorso. Maldita Lei do Gerson em meu DNA…
 

Outro grande meio de transporte muito usual e democrático na Austria é a bicicleta. Por exemplo, em uma cidade de milhões de habitantes como Viena, elas estão por toda a parte e dividem numa boa o espaço com o trânsito regular de veículos da cidade. Famílias inteiras andando nos corredores de asfalto que correm ao lado das ruas e dos trilhos dos bondes. Bicicletas com assentos para bebês e cestinhas de compras adaptados são muito comuns. Até os sinais de trânsito tem um sinalizador especial para ciclistas. As pessoas deixam suas bikes paradas em lugares específicos – estacionamentos para bicicletas – muitas vezes sem cadeado. Existem estacionamentos como esse até dentro das estações de trem e metrô! Como turista, você pode alugar uma bicicleta em pontos dedicados espalhados pela cidade (assim como em Barcelona), somente com algumas moedas de Euros, para mais tarde devolvê-la em outro ponto da cidade. Se não for de bike, outras alternativas são patins,  segways alugados ou, minha predileta: à pé. Afinal, Viena é uma cidade muito compacta e a maioria dos lugares para se visitar ficam contidos dentro de uma área muito pequena.


 
Outra forma de conhecer um pouco de Vienna é pagando um passeio de carruagem. Se você tiver bala na agulha (pode custar até setenta Euros!) e for um romântico incurável, poderá curtir o caminho mais tradicional dentre todos, equivalente a navegar em uma gôndola em Veneza ou em uma biga de gladiador em Roma (dá-lhe clichezão!): circular a cidade na legendária Ringstrasse, um anel feito de boulevards (avenidas cheia de árvores) que abraçam o centro histórico da cidade. Durante o passeio, um desfile de incontáveis obras gigantescas, detalhadas e meticulosamente limpas, todas de inspiração neo-gótica (de raízes medievais), renascentistas e barrocas, tudo construído a partir da segunda metade do século XIX. A UNESCO considera a Ringstrasse e o centro interior desse círculo patrimônios da humanidade. Encare esse passeio como uma aula de arquitetura e história, só que ao vivo e ao ar livre. Se não quiser pagar a carruagem, dá para curtir de bonde (tram number 1), bem baratinho, mas sem qualquer glamour
 

Eu preferi ler esse livro de história que é Viena com os pés. Cara como eu andei…  Mas valeu totamente à pena a coleção de calos conquistada. Em um país tão moderno e avançado em termos sociais e econômicos, Viena representa o supra-sumo, o padrão absoluto em termos de qualidade de vida. Eu moraria lá fácil, fácil. Ano após ano, Viena se encontra entre as quatro melhores cidades do mundo (ao lado de Genebra, Zurique e Vancouver), de acordo com o ranking da prestigiosa revista “The Economist. O que ela oferece em termos de cultura e lazer para seus habitantes está além de qualquer descrição. Levou apenas alguns poucos dias para me apaixonar. Muitos europeus consideram os vienenses arrogantes, narcisistas e pavões. Dá para culpá-los? Hell no! Deixe-me guiá-lo, caro leitor, pelas ruas dessa maravilhosa cidade que em nenhum momento deixa você esquecer o passado.

 

 

Nosso primeiro ponto de parada, o prédio do Parlamento da Áustria. Eele foi construído em estilo neo-clássico, como um templo greco-romano, provavelmente por causa da representação simbólica da democracia. A construção levou dez anos (1874-84), antes de debutar como a legislatura do Império Austro-Húngaro. A função permaneceu até a proclamação da República, logo após a queda da dinastia Habsburg em 1918, quando o parlamento começou a atuar como poder independente. Durante a Segunda Guerra Mundial metade da obra foi destruída e a reconstrução meticulosa durou até 1956. O parlamento austríaco – ramo legislativo do Governo – se compõe de duas casas compostas por representantes das nove províncias do pais. O Österreichisches Parlament destaca-se como a construção mais imponente da Ringstrasse, com estátuas em mármore de preciosa beleza e riqueza de detalhes (marca registrada de tudo em Viena). Na base da escadaria figuras humanas que representam os mais importantes rios da Áustria, circundando a deusa grega da sabedoria Palas-Athena, filha de Zeus mas sem uma mãe, já que saiu direto da cabeça do rei dos deuses. Pequenas estátuas de cupidos cavalgando golfinhos complementam a decoração. Carroças (quadrigas) guiadas pela deusa grega da vitória Nike, todas em bronze e em alto relevo, decoram a parte superior do "templo".


Depois de agendar pela Internet um horário para uma visita guiada (não há opção para língua portuguesa) e pagar 6.50 euros de entrada, conheci a Wiener Staatsoper, o famoso Teatro de Ópera de Viena, uma das jóias da Ringstrasse. Por fora o prédio de arquitetura neo-renacentista impressiona por sua imponência e beleza – como a maioria das obras arquitetônicas da cidade. Dizem os especialistas que a obra orginal, construída entre 1861-69 e destruída pelo bombardeio aliado durante a 2a Guerra Mundial, desbancava de longe a construção atual. Do original sobrou mesmo duas partes. A frente do teatro, que exibe embaixo de arcos de pedra cinco maravilhosas estátuas em bronze simbolizando heroísmo, drama, amor, fantasia e humor. E, logo na entrada, a soberba escadaria em mármore, toda ornamentada com estátuas que representam as setes artes liberais (como Música e Dança, por exemplo). A reconstrução do restante do prédio terminou em 1955. Deve ter sido mesmo o bicho, porque passear pelo interior do teatro "atual" me deu cãimbra no queixo, tamanho o tempo que fiquei de boca aberta. Prepare-se para gastar uma duas horas só conhecendo a Staatsoper


As  três fotos inferiores: Pintura homenageando a ópera cômica; fonte dedicada à lengendária sereia Lorelei, suportada pelas estátuas que representam a Vingança, o Amor e o Luto; A sala de chá do rei Franz Joseph, que ele e sua comitiva usavam durante os intervalos das apresentações.

Um dos teatros mais disputados do mundo, o Staatsoper permanece ocupado quase que todo o ano, produzindo em média 55 óperas e 200 performances, empregando mais de 1,000 pessoas e gastando aproximadamente 100 milhões de Euros nas produções (50% desse dinheiro, bancado pelo governo). Bate exatamente com a política de incentivo a cultura no Brasil… No auditório cabem mais de 2,000 convidados e todos os assentos têm um visor digital para a passagem de mensagens, letras de músicas, programa e legendas. Cantores de ópera são idolatrados como pop stars e só perdem em popularidade para esquiadores consagrados. Nesse palco, atuaram grandes maestros da legendária e popularíssima Orquestra Filarmônica de Viena, como os austríacos Gustav Mahler e Herbert von Karajan. Este último, membro do partido Nazista e bastante ativo durante a 2a Guerra Mundial, oferecendo performances para os oficiais de Hitler. Hmmm. Perfeccionista insano, disparou uma vez uma de minhas frases favoritas: "Those who have achieved all their aims probably set them too low". 
 

 

Continua…
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Viena, Austria – Parte 2/6


Uma vez por ano, acontece no Staatsoper um dos eventos mas internacionalmente badalados da Áustria: o Vienna Opera Ball. Caro, opulento, elitista, ultra-conservador e com cobertura extensiva da imprensa européia, o baile de debutantes (em média 100 casais) atrai gente podre de rica, homens de negócio e políticos (incluindo o presidente da Austria) de todo o mundo. Já mencionei que pobre ou gentalha não pode entrar? Uma festa tão glamurosa em Viena só poderia ter uma trilha sonora: a valsa. Um hit em qualquer festa de debutante que se preza no Brasil, a Valsa Vienense – dança nacional da Áustria por séculos – goza de imensa popularidade no mundo graças às composições de Johann Strauss, especialmente o clássico absoluto Danúbio Azul. Ele compôs mais de 500 valsas e é tão idolatrado em Viena, como Mozart em Salzburg, sua cidade natal. As valsas de Strauss eram consideradas a “Marseillaise do coração”, tamanha a mensagem liberal de seus arranjos. Se você não sabe, os franceses usaram a Marseillaise como símbolo de liberdade e união contra os exércitos invasores de países monarquistas, logo após iniciada a Revolução Francesa (1789). Hoje é o hino da França. Retornando à valsa, ela derivou-se de algumas danças folclóricas alemãs, por volta de 1770. Contudo até o final do século XVIII, a valsa era considerada uma dança demasiadamente indecente para meninas solteiras, sendo reservada para mulheres casadas, mesmo assim do povão. Gradativamente, saiu dos guetos para ganhar os grandes salões de palácios, onde virou mania na época do Congresso de Viena, em 1814, onde se tornou uma dança socialmente respeitável. Veja aqui abaixo um vídeo do Wiener Opernball.
 
                                                        
 
Veja aqui as fotos em alta resolução do Teatro de Ópera de Viena: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622820358927/ 


Não dá para falar de Viena sem mencionar seus famosos Cafés.
A reputação internacional deles, tanto por sua importância social (ponto de encontro de intelectuais), tanto pela qualidade da comida ofertada, vem de muito longe. Segundo reza a lenda, tudo começou em 1683, após a Batalha de Viena, quando os turcos bateram em retirada e deixaram para trás sacos e sacos de café. A Áustria apresentou a bebida para a Europa e pequenos estabelecimentos foram criados para apreciar a bebida junto com um pedaço de torta, uns biscoitinhos ou outras comidinhas leves. Rapidamente tornou-se um hábito sentar-se à mesa de um café vienense com amigos para discutir negócios, política, religião, cultura e outros assuntos polêmicos, ou mesmo para um encontro romântico com o objeto do seu afeto. A maioria dos estabelecimentos proporciona até música ambiente de um piano. Muitos escritores austríacos famosos escreviam suas obras imersos na atmosfera proporcionada pelos cafés. Durante meus passeios pela cidade fiquei impressionado com a imensa quantidade deles, espalhados por toda a cidade e sempre cheios, desde muito cedo pela manhã. Alguns destes Cafés estão entre os mas velhos da Europa. Nos que entrei para experimentar alguma coisa, nunca houve pressão para que eu deixasse o estabelecimento. Porém os garçons e garçonetes, vestidos e agindo como lordes, olham para você – turistão – com um certo desprezo. Para a população local, tomar café – sozinho acompanhado – tem a mesma força da tradição do chá da tarde inglês. O café em si pode ser servido em uma infinidade de misturas a base de leite, água (!?), bebidas alcoólicas, chantilly, canela e baunilha. Vários nomes “sofisticados” utilizados pelas coffee houses mundo afora, nasceram em Viena, tais como mokka e melange. Acompanhando seu café, sempre um copo de água, uma taça pequena de leite e o jornal do dia, tudo servido em uma bandeja de prata.


Entre todos, escolhi o legendário Cafe Sacher para provar a especialidade culinária mais famosa da Viena: a Sachertorte original (existem várias cópias no país, igualmente saborosas). Trata-se de uma delíciosa torta de chocolate amargo e nozes, recheada com geléia de damasco servida com um pouco de chantilly, inventada por Franz Sacher em 1832.  Como é um pouco sequinha, implora um café bem gostoso para acompanhá-la. Sua receita é considerada segredo de Estado, dado o valor atual da marca Sacher. A torta Sacher é exportada para todo o mundo. O estabelecimento em si pode ser considerado uma atração, pois fica localizado dentro de um prédio histórico, o cinco-estrelas Hotel Sacher, fundado em 1876 pelo Sr. Eduard Sacher. Quando ele morreu, assumiu a super confeiteira imperial da corte Habsburg e esposa, Anna Sarcher. Sob a gerência dela o hotel transformou-se em um dos melhores do século XIX em todo o mundo! O lugar também tinha a reputação de hospedar nobres e milionários e suas amantes para encontros furtivos… O Cafe Sacher preserva até hoje a atmosfera da Viena do século passado, incluindo uma coleção de arte do século XIX em meio às paredes. A disputa para entrar no Café é grande e a fila de espera também. Não foi barato: sentado do lado de fora, custou-me oito Euros para saborear esse doce dos deuses com uma xícara de café, porém não deiza de ser uma experiência turística obrigatória.

 

Perto dali encontra-se aquela que representa a alma da cidade e uma de suas maiores atrações turísticas: Stephansdom, a igreja de arquitetura romanesca de 800 anos de idade (!!) que mantém os restos mortais de vários membros da poderosa casa Habsburg, como os do imperador Friedrich III. A Catedral foi restaurada e ampliada ao longo de sua vida, mas destacadamente nos séculos XIV e XV, mas ainda mantém vários componentes originais do século XIII, como o altar e a parte frontal contendo duas torres. Não dá para ignorar esse colosso de 136 metros de altura na paisagem Vienense, não importa onde você se encontre na cidade. Quase um quarto de milhão de pequenos azulejos (formando figuras e diagramas) cobrem o alto telhado da igreja. Uma curiosidade: pelas fotos você vai notar que ela está capenga, pois falta a torre Norte. De acordo com a lenda, o mestre de obras encarregado, Hans Puchsbaum, fez um pacto com o Demônio para ajudá-lo a construir rápido a maravilhosa edificação, mas rompeu o acordo ao pronunciar palavras sagradas durante o trabalho. Belzebu então fez com que ele se atirasse da torre para a morte certa. Como resultado, a torre Norte nunca foi concluída. A estátua mais famosa do exterior da catedral é a de Joahanes Capistrano, triunfante e pisando um invasor turco. Na verdade ele foi um padre que corajosamente pregava contra a invasão turca em 1451 e, para a sorte dele, os turcos perderam.

O interior da igreja mãe da arquediocese de Viena é tão espetacular quanto seu exterior. Existe uma coleção de arte gótica de diferentes séculos, espalhadas dentro da imensa nave, com destaque para: as diversas esculturas de santos; o altar principal, elaborado em 1647 para ilustrar o martírio de Saint Stephen; um púlpito todo esculpido em madeira com figuras ilustres do catolicismo da época; a tumba do imperador Friedrich III; e o Wiener Neustädter Altar, construído em 1447, mostrando cenas da vida de Cristo e sua mãe em alto relevo na madeira. Outras atrações do interior da igreja incluem: a visita à torre (boa visão panorâmica da cidade); o sino (Pummerin Bell) da torre – o maior dos 23 existentes, fundido a partir do material dos canhões dos invasores turcos de 1451; e as catacumbas e os seus ossos de sempre. Embora seja permitido, tirar fotos do interior não deixa de ser uma aventura, dada a muvuca de gente que enche a igreja durante todos os dias (turistas e atendentes das missas celebradas) e quantidade de fumaça de incenso onipresente.



Para os apreciadores da beleza artística e do valor cultural e histórico das igrejas, Viena é um prato cheio por dois motivos. Graças ao êxito do movimento de contra-reforma nos países de língua Alemã, a Igreja Católica não só ratificou seu domínio no império Áustro-Húngaro, como ampliou sua influência através da construção de inúmeras obras suntuosas, com pleno suporte financeira dos poderosos Habsburgs. A segunda razão para se encantar com as igrejas de Viena envolve uma característica austríaca: perfeccionismo. Todos os países que visitei até hoje com grande acervo de igrejas, mantém a maioria delas com uma aparência de "velha" e "gasta". Acredito eu para "valorizar" a História da edificação. Bullshit. Muito mas legal entrar em uma igreja impecavelmente limpa, cuidada e, mas importante, com todas as peças e estrutura impecavelmente restauradas. As igrejas vienenses são tão perfeitas, que o visitante tem a impressão de que ela foi recém-inaugurada, porém com o bônus de que a maioria foi construída nos séculos XVII e XVIII.

A algumas quadras da catedral de Stephansdom encontram-se várias delas: Deutschordenskirche (século XII), Dominikanerkirche (1634), Franziskanerkirche (1603), Annakirche (1634), Kirche am Hof (século XIV), Peterskirche (século XII),  Maria am Gestade (1158) e Ruprechtskirche (século XII). Das que tive tempo de visitar, destaco a igreja barroca Jesuitenkirche, concluída em 1705 das mãos de um arquiteto italiano para a odem jesuíta. Seu interior, opulento, colorido e todo trabalhado, revela a grana que rolou para construir essa homenagem à ascenção de Maria e, naturalmente, para espalhar a mensagem de poder dos Jesuítas como força dominante da época. Outras atrações notáveis da igreja: o domo construído de acordo com a técnica trompe l’oeil (que ilude os olhos para dar um efeito 3D); o órgão; os pilares de mármore em formato espiral; todas as pinturas e estátuas sacras; e as catacumbas.


Andar como um louco em Viena dá uma fome do cão. Nada melhor do que relaxar em um lugar com comida típica boa e barata: um Würstelstand, uma das inúmeras barraquinhas espalhadas pela cidade que vende linguiças, salsichões e cachorro-quente. Malandro, que delícia… Existe tanta variedade de gostusuras fritas ou grelhadas, que se você não faz uma pesquisa prévia, ficará indeciso por um bom tempo na hora de pedir. As mais famosas: frankfurter, salsicha defumada de carne de porco e de gado, consumidas desde a Idade Média; bratwurst, linguiça composta de carne de vitela, porco ou gado e "inventada" por volta do ano 1400 na Alemanha; currywurst; käsekrainer, invenção 100% austríaca que vem com pedaços de queijo em seu interior; e a apimentada debreziner. As bichinhas grelhadas ou fritas (com ou sem mini baguete para fazer hot-dog) geralmente vêm acompanhadas de sauerkraut e mostarda. Alíás, uma das primeiras perguntas que o atendente faz durante o seu pedido é "adocicada (süss) ou apimentada (scharf)?", por causa da mostarda. Para acompanhar tudo isso, os estandes vendem garrafinhas de vinho de mesa, refrigerantes e cervejas alemãs e austríacas geladas. Instituição democrática, würstelstands atende todo tipo de gente na rua e é muito engraçado comer ao lado de um cara de terno e uma garota cheia de piercings e tatuagens.


Um dos complexos arquitetônicos mais fascinantes de Viena, o gigantesco e belíssimo Palácio de Hofburg, abriga um sem número de atrações imperdíveis dentro de seus limites, incluindo biblioteca, residências imperiais, capela, igreja, escola de equitação e sala do tesouro. Os escritórios da presidência da Áustria também ficam por aqui. O complexo nasceu a partir de um pequeno forte mais tarde transformado em palácio e, à medida que o tempo passava, expandido pelos Habsburgs até 1918, quando estes perderam o poder. Os séculos de presença da corte Habsburg causou uma influência profunda em toda a vizinhança, já que todos sempre queriam ficar perto da corte imperial. Por isso, até hoje você encontra as melhores coffee houses, as mais sofisticadas lojas e galerias de arte da cidade aqui. Além da Ringstrasse, essa também é uma excelente área para investir em um passeio de carruagem. Vários museus encontram-se dentro do palácio e, infelizmente, não tive tempo de visitar alguns deles como o Ephesos Museum, dedicado às ruínas de uma importante cidade greco-romana, o Sammlung alter Musikinstrumente, uma grande coleção de instrumentos musicais antigos, a Schatzkammer ou sala do tesouro real, e o Hofjagd- und Rüstkammer, uma coleção de armas e armaduras medievais.


Os dois habitantes mais famosos desse palácio de verão foram os Habsburgs Franz Joseph e sua esposa, a Elisabeth of Bavaria. Franz Joseph governou o Império Austro-Húngaro de 1848 a 1916. Graças a sua formação e experiência miilitar, comandou o país com mão de ferro, um dos últimos monarcas absolutistas da Europa que representavam o Antigo Regime. O bicho era tão ruim que em 1853 escapou com vida de um atentado a faca, onde ficou bastante ferido (pescoço) e perdeu muito sangue. Sob sua batuta, a Áustria também experimentou um boom econômico e cultural, atraindo gente rica e talentos de toda parte do império para Viena, assim como comerciantes de todo o mundo. Um de seus legados mais famosos foi a construção da Ringstrasse em Viena. Em 1898 assistiu sua esposa ser assassinada – ironicamente – por uma faca. Desde então tornou-se uma criatura triste e nunca mais se recuperou do baque. Até o dia da sua morte, aos 86 anos, vivia dizendo que nunca pode dizer a ela como a amava. Dois anos depois, o império Austro-Húngaro chegava ao fim, junto com a Primeira Guerra Mundial, e a era dos Habsburgs se encerrava. Detalhes mais adiante…  

Continua…
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